Epidemia, humanidade, políticas públicas e sofrimento mental

Epidemia, humanidade, políticas públicas e sofrimento mental

Marcelo Kimati*

21 de junho de 2020 | 17h00

Marcelo Kimati. FOTO: DIVULGAÇÃO

Epidemias fazem parte da história da humanidade. São eventos análogos à passagem de um cometa: quando alguém o avista, sabe que, dificilmente, o encontrará novamente. E quando ele voltar a ser visto, a sociedade será diferente em seus costumes, crenças e cultura. Seu caráter excepcional faz a epidemia se inscrever no cotidiano como algo novo, mesmo que surja recorrentemente. Por este motivo há fenômenos comuns a várias epidemias, enquanto outros são particulares, relacionados ao contexto no qual elas surgem.

Há inúmeros relatos históricos que envolvem as centenas de anos de experiência diante de epidemias. É possível encontrar artigos que mostram a cobertura da imprensa diante da cólera em Portugal (1853-1856), cólera na Paraíba (1850-1860), da gripe espanhola em São Paulo (1918), varíola no Rio Grande do Sul (1904-1905), entre dezenas de outros. O retrato histórico das epidemias mostra que elas sempre envolveram medo, desamparo e sofrimento – são rupturas periódicas do cotidiano humano, de caráter imprevisível, assim como seus desdobramentos.

Epidemias deram origem a grandes mudanças da organização social, a mais emblemática foi o renascimento após a peste negra. Outro aspecto recorrente na literatura é a existência de movimentos negacionistas em relação a sua gravidade e mesmo quanto a sua existência, como ocorre hoje.

A imprevisibilidade da epidemia se inscreve no contexto cultural e para discutir seu impacto, procurarei abordar alguns pontos relatados como recorrentes. Em primeiro lugar, o medo da morte, da própria e de pessoas queridas. Ainda que estar voltado para o futuro e ter ciência da finitude da vida sejam características humanas, a epidemia nos coloca diante de uma fragilidade a que não estamos habituados.

Um contágio estimado acima de 70% e uma mortalidade acima de 4% é superior ao risco que corremos em qualquer atividade cotidiana. Os riscos do dia a dia são calculados e regulamentados pelo poder público. Sabe-se a diferença de risco de dirigir com ou sem cinto de segurança, a 80 ou 120 km/hora. Nosso momento civilizatório tem a vulnerabilidade como parâmetro de intervenção do Estado e a manutenção da vida, e de sua qualidade, como valores universais. Estamos acostumados a isto.

A vulnerabilidade, neste contexto, inclui a inexistência de tratamento. A epidemia hoje surge numa sociedade medicalizada, em que nos drogamos quando sentimos dor, quando nos sentimos tristes ou angustiados, quando aparecem rugas. Ainda assim, é possível ser infectado e morrer, sem que qualquer remédio interfira.

Esta impotência é uma experiência anômala nos dias de hoje. E ainda que o discurso sobre cloroquina envolva uma manobra política, a proposta de uma cura mágica aparece num campo muito fértil de busca de um controle que não existe. Isto se estende às finanças, aos planos e projetos. Não sabemos a que teremos de renunciar, de quais sonhos teremos de abrir mão. A incerteza econômica nos afeta com uma particularidade contemporânea: desde meados do século passado, o capitalismo passa a ver o indivíduo como um consumidor. Pela compra ele estabelece suas relações sociais, define sua identidade, prestígio e um lugar no mundo, o que explica porque é mais importante acumular e comprar do que viver para parte das pessoas.

A quase totalidade dos artigos atuais sobre saúde mental e a epidemia descreve o sofrimento como “ansiedade”. O termo está voltado à medicalização social descrita anteriormente e conta com uma psiquiatria que entende o sofrimento mental como resultado de uma disfunção cerebral, passível de ser medicada. A grande capilaridade deste modelo reduz o sofrimento de hoje, experiência eminentemente social, a descrição superficial e sem significado da “ansiedade”.

Sofrimento numa epidemia não é doença. Um percentual de pessoas de fato adoece e necessita de tratamento, mas o contexto necessita mais do que identificar sintomas e eliminá-los. Porque o que vivemos hoje exige questionamentos sobre nossas posições.

É preciso ter no consumo a principal dimensão da nossa vida? Devo aceitar um modelo social que não permite que trabalhadores fiquem em casa para não adoecer e permanecer vivos? Devo acreditar que saúde pública é para pobres e através do mérito devo conquistar um convênio? Uma sociedade que permite tanta desigualdade pode ser solidária o suficiente para se proteger? Devemos ser submissos a este processo político de restrição a direitos?

A epidemia mostra como a fragmentação do país e a desconstrução do Estado tornaram nossa sociedade frágil. E como isso incorre em sofrimento. É importante pensar que, como seres humanos, somos responsáveis – ou deveríamos ser – pela construção de uma sociedade que torne menos vulneráveis nossos descendentes.

*Marcelo Kimati, médico psiquiatra, professor de Saúde Coletiva na Universidade Federal do Paraná (UFPR) e integrante da diretoria da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme)

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