Entre o ‘caos’ e o progresso, empresas vão às compras e se mostram ao mercado

Entre o ‘caos’ e o progresso, empresas vão às compras e se mostram ao mercado

Vinícius Cordoni*

05 de fevereiro de 2021 | 08h15

Vinícius Cordoni. FOTO: DIVULGAÇÃO

Mais de mil fusões e aquisições ocorreram no Brasil entre janeiro e dezembro de 2020. 1.038 para ser mais preciso, segundo dados da PwC, contra 912 em 2019. Um ano que seria de consolidação se tornou caótico, e provavelmente será lembrado pelo encontro dessas duas realidades quase paralelas. Explico.

O ambiente já era propício para um aumento de M&As no país. Retomada econômica, juros num patamar historicamente baixo, fortalecimento do mercado de capitais juntamente com o aumento do corpo investidor e, principalmente, empresas com caixa precisando resolver problemas e/ou procurando oportunidades.

Um movimento democrático, antes de qualquer coisa, e cada vez mais comum num mundo corporativo que escala a galope. Respeitando as devidas proporções, é algo visto em startups em suas primeiras fases de captação e, ao mesmo tempo, em empresas de capital aberto consolidadas.

(É claro que nem tudo é resolvido por meio de incorporações, e o setor financeiro mostra isso. Hoje, todo mundo quer ter uma fintech para chamar de sua, desenvolvida em casa e agregando serviços ao core business da companhia. Mas não há tempo, e às vezes nem vocação, para seguir este roteiro o tempo todo.)

Isso é especialmente verdade para o segmento de TI, que requer desenvolvimento rápido e constante, além de manutenção. Não por acaso, mais de um terço (394) das fusões e aquisições vieram daí. A líder de serviços de hospedagem no Brasil, por exemplo, entrou na bolsa há menos de um ano e, neste intervalo, já levou seis empresas para dentro de casa.

Também dá para citar a queda de braço bilionária entre uma das maiores empresas de meios de pagamentos e uma gigante de tecnologia, pela operação da maior empresa de tecnologia para varejo. O interessante é que a primeira acabou vencendo a luta (ainda depende de aprovação do Cade), mas a segunda, provavelmente, teria mais sinergia direta com a adquirida em questão, dizem analistas.

Considero importante tocar neste ponto porque aqui entra um termo que tem ganhado cada vez mais força no mercado: o Plug&Play. Hoje em dia, tão primordial quanto adicionar ferramentas e serviços à sua operação, é a consolidação de um encaixe rápido e eficiente entre as partes.

Expandindo um pouco os horizontes, é possível enxergar este mesmo movimento em outros segmentos que vêm ganhando força e competitividade nos últimos anos. Talvez o mais simbólico, por tudo que estamos vivendo, seja o setor da saúde (educação é o próximo?), que ficou em terceiro no ranking da PwC.

Nessa linha, o um grande grupo de saúde tem expandido a passos largos sua capilaridade. Somente em dezembro, a companhia comprou um grupo dono de várias marcas de laboratórios de análises clínicas no Rio Grande Sul; e uma rede de hospitais, de São Paulo, por cerca de R$ 1,77 bi.

Aqui, vale puxar de volta aquela ideia do início do texto, sobre a dualidade do tempo em que vivemos. O contexto da tal consolidação já está dado, mas é preciso citar o imponderável. O isolamento criou tantas avenidas em termos de demanda que nem uma das piores recessões da história conseguiu esfriar.

Além dos problemas pré-existentes, milhares de outros desafios foram colocados à mesa. No varejo, quem não tinha presença decente em canais digitais precisou sambar para evoluir (e já estão atrasados novamente). Mais do que isso, a exigência será por omnicanalidade e integração de serviços.

Correndo o risco de ser óbvio no exemplo, mas apontando para o futuro,uma das maiores magazines brasileiras fez exatamente isso. Comprou pagamentos, logística, plataforma de mídia, livraria online, escola de marketing, delivery de comida. A expansão é tão ambiciosa que os Trajano estão apostando até em crédito agrícola…

O futuro das grandes companhias, mais do que nunca, passa por adotar facetas variadas — ao mesmo tempo, no mesmo superapp. Isso reforça a tendência apresentada nos últimos anos e indica que as fusões e aquisições continuarão avançando fortemente na vida das empresas em 2021, dessa e de outras formas.

*Vinícius Cordoni é CEO do Grupo VCRP Brasil e especialista em empresas da nova economia

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