Entre o amor e o ódio

Entre o amor e o ódio

Ricardo Viveiros*

14 de junho de 2021 | 09h20

Ricardo Viveiros. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Na era digital, na dinâmica da modernidade, tudo mudou. Entretanto, algumas coisas boas e algumas coisas ruins permanecem como foram desde sempre. Muda apenas a forma. Eu sempre achei que ser namorado é o mais perfeito estado civil, pena que não é reconhecido como tal. A rigor, talvez se fosse estragaria tudo.

Namorado é – o tempo todo – romântico, criativo, amoroso, apaixonado, atraente, conquistador, generoso, atento, amigo, cúmplice, amante, parceiro e, acima de tudo, compreensivo, paciente e corajoso. Marido e companheiro nem sempre. Namorado age como se tivesse um imenso compromisso, embora seja livre e respeite a liberdade da pessoa amada. Passa o tempo todo construindo a relação como se fosse um grande castelo. Namorado sonha, e realiza sonhos.

Namorado é determinado com a maior qualidade de uma relação: conquistar. E isso é o que lhe dá um estado de espírito diferente, especial e encantador. E relação sem encantamento não tem sucesso. Namorado diz palavras bonitas, faz surpresas, reinventa o mundo, transforma realidades. Namorado é o único ser repetitivo que não é chato, porque a pessoa amada adora ouvir de novo: “Eu te amo!”. E namorado sabe dizer isso cada nova vez sem mais do mesmo, fora da caixinha.

Igual a tudo na vida, namorado tem princípio, meio e fim como determinou, na antiguidade clássica, o filósofo grego Aristóteles. Em suas famosas unidades, escritas entre 335 a.C. e 323 a.C., embora outros afazeres ele se ocupou de ensinar a como escrever poesia. Já havia o amor. Há, na vida, diferente do jeito maravilhoso de ser namorado, muitas coisas que mudam drasticamente com o tempo. E não têm as unidades aristotélicas, são eternas porque como o amor, também o ódio e outros sentimentos menores fazem parte da alma humana.

Exemplo disso está em como mudaram os golpes de estado. O namorado incorporou apenas a tecnologia, envia palavras de amor pela Internet. O político golpista, mudou a forma de rasgar constituições, destruir democracias, desrespeitar liberdades. Comete crimes, aparentemente delicados, contra a sociedade, agora sem fuzis e canhões. O golpe, hoje, acontece de modo mais lento, desestruturando as instituições por dentro, em certos casos até com eleições.

É preciso estar atento e forte. Como no mais puro amor, lembrando sempre a necessidade da eterna vigilância contra o ódio. E reagir a qualquer tipo de sedução da consciência. Como todo dia é dia dos namorados surpreenda a pessoa amada, seja quem for, dizendo o que provavelmente ela já sabe, mas que gostará de ouvir de novo e sempre: “Eu te amo”. E sorria, cante, dance, escreva, desenhe, brinque – o namorado tem licença para ser assim, um adorável maluquinho. Só o namorado, o político não!

*Ricardo Viveiros é jornalista, escritor e professor. Doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e autor de vários livros, entre os quais Justiça Seja Feita, A Vila que Descobriu o Brasil, Pelos Caminhos da Educação e O Poeta e o Passarinho

Tudo o que sabemos sobre:

ArtigoDia dos Namorados

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.