Entre ganhar dinheiro e mudar o mundo, fique com os dois

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Os negócios de impacto e a crise do coronavírus

Dayana Dallabrida e Kirstin Elise Richter Vieira*

07 de abril de 2020 | 07h30

Dayana Dallabrida e Kirstin Elise Richter Vieira. FOTO: DIVULGAÇÃO

O mercado é sempre palco de grandes transformações em função de sua natureza dinâmica, e dentre elas os especialistas têm observado uma importante mudança: a alteração da direção dos investimentos. Pesquisas mostram que volumes expressivos de capital estão sendo direcionados para negócios envolvidos com ideais de sustentabilidade e benefícios socioambientais, os chamados “negócios de impacto”.

Mas afinal, o que são negócios de impacto? Segundo a Aliança pelos Investimentos e Negócios de Impacto, “são empreendimentos que têm a intenção clara de endereçar um problema socioambiental por meio de sua atividade principal (seja seu produto/serviço e/ou sua forma de operação). Atuam de acordo com a lógica de mercado, com um modelo de negócio que busca retornos financeiros, e se comprometem a medir o impacto que geram”. E, aqui, é importante diferenciar: uma empresa comprometida com práticas sustentáveis e socioambientais positivas, mas que não as tenha em seu DNA, isto é, não as integre em sua missão principal, seus processos de decisão e suas metas de resultado, não é considerada – em geral – um negócio de impacto.

E você deve estar se perguntando: mas isso dá dinheiro? Sim, dá dinheiro. E essa é uma das grandes barreiras que esse tipo de empreendimento vem tendo que enfrentar: a dúvida quanto à viabilidade, riscos e retorno financeiro. Muitos investidores e empresários conservadores se posicionam como céticos diante de um cenário tão inovador, e é muito normal se identificar com esse perfil. Caso isso tenha acontecido com você, vamos ver se não muda de ideia?

No início de 2019, o CEO da BlackRock, maior gestora de ativos do mundo, em sua carta anual aos presidentes das empresas do seu portfólio expôs a ligação direta entre propósito e lucro, afirmando que as empresas que não seguissem requisitos de sustentabilidade – a fim de alcançar um “capitalismo mais sustentável e inclusivo” – não seriam mais apoiadas.

A Corporação Financeira Internacional (IFC) divulgou que, no mesmo período de 5 anos, o Índice de Sustentabilidade Dow Jones apresentou uma média 36,1% melhor que o Índice Dow Jones tradicional. Estudo da Harvard Business School concluiu que “empresas de alta sustentabilidade superam de forma significativa as suas contrapartes a longo prazo, tanto em termos de mercado de ações quanto em desempenho contábil”.

Em suas pesquisas, a americana McKinsey, líder mundial no mercado de consultoria empresarial, afirmou que “a escolha para as empresas hoje não é se, mas como elas devem gerenciar as suas atividades em prol da sustentabilidade”, e o grupo financeiro multinacional Goldman Sachs relatou que “mais capital está focado em modelos de negócio sustentáveis e que o mercado está recompensando líderes e novos operadores de um modo que dificilmente poderia ter sido previsto mesmo 15 anos atrás”.

A verdade é que inúmeras pesquisas de importantes líderes de opinião convergem para a mesma conclusão: usar os negócios como força para o bem é bom para os negócios. E talvez o mais importante a se adicionar a essa constatação, em termos econômicos, seja que o mercado está, cada vez mais, reconhecendo a importância dos negócios de impacto.

E qual a relação desse cenário com a crise causada pela pandemia de covid-19?

O que acontece é que os impactos causados pelas medidas de distanciamento social – a quarentena – estão repercutindo na vida do pequeno, do médio e do grande empresário, balançando estruturas de muitas indústrias e do mercado como um todo. O que efetivamente vai acontecer com a economia mundial ainda não se sabe, mas talvez seja esse o momento de uma redefinição permanente nos conceitos de consumo.

Os pesquisadores vêm constatando há anos mudanças no perfil dos consumidores, o que impacta diretamente na indústria e no posicionamento das empresas. Em estudos globais, empresas líderes de opinião, tais como Deloitte e Accenture, apresentam números que deixam clara a tendência das novas gerações de empregados e consumidores em alinhar valores pessoais e corporativos. As necessidades específicas tanto no trabalho quanto no consumo demonstram ser dramaticamente diferentes das gerações anteriores.

E todas essas mudanças recaem em um só lugar: o mercado. Da indústria da moda à fabricação de carne, seja pela consciência construída por consumidores ou pelas crises econômicas e sociais, a ideia de consumo vem se ressignificando. Digital influencers já afirmam que a crise da covid-19 poderá ser a “mudança de chave” definitiva para uma nova forma de consumir, e um adeus às indústrias como as conhecíamos. E isso, novamente, é resultado tanto da nova consciência de consumo quanto pela ocorrência da atual crise.

Vale lembrar, ainda, a importância de se atentar a empresas com “propósito de fachada”, prática que é referida em inglês como “impact washing”. São empreendimentos que vendem ideais de sustentabilidade e impacto positivo, mas, em meio à crise, rompem com esses princípios; essas empresas não são negócios de impacto. Negócios comprometidos com impacto positivo o são em toda sua atuação: da fabricação do produto ao tratamento com seus funcionários. O impacto social ou ambiental é parte da empresa assim como sua atividade econômica, de forma indissociável.

A fim de facilitar a melhor identificação de empresas com tal propósito, há sistemas de certificação internacional, como por exemplo o Sistema B, que, segundo o New York Times, é “o padrão mais alto para negócios com responsabilidade social”. Estão entre as Empresas B nomes como Ben & Jerry’s, Patagonia, Natura e Dansko.

Há ainda países como a Itália e a Colômbia e estados americanos como Califórnia e Nova Iorque, que possuem legislação que prevê modelos societários específicos para empresas que se enquadrem enquanto empreendimentos de impacto. No Brasil, o debate sobre a criação de uma lei nesse sentido já chegou ao Congresso.

Por fim, a história nos mostra que das crises resultaram mudanças significativas na vida em sociedade: seja o desenvolvimento de uma vacina, seja uma nova forma de investir. E como as pesquisas mostram, é questão de tempo para que os negócios de impacto passem a ditar as regras de mercado.

Ou talvez não seja questão de tempo. Talvez seja uma questão de agora.

*Dayana Dallabrida, sócia e coordenadora da área de contratos e estruturação de negócios do VGP; Kirstin Elise Richter Vieira, trainee acadêmica do VGP 

REFERÊNCIAS

BARKI, E.; COMINI, G. M.; TORRES, H. G. Negócios de impacto socioambiental no Brasil : como empreender, financiar e apoiar. Rio de Janeiro: FGV Editora, 2019.

HONEYMAN, Ryan. O Manual da Empresa B: Como usar os Negócios como Força para o Bem. Curitiba: Editora Voo, 2017

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