Entre as várias prioridades, a vacina é a maior

Entre as várias prioridades, a vacina é a maior

Marcio Grazino*

09 de março de 2021 | 03h30

Marcio Grazino. FOTO: DIVULGAÇÃO

É perda de tempo conjecturar saídas para a crise da indústria sem imunização em massa ou, pelo menos, um plano de vacinação factível na mesa. Enquanto escrevo, diversos municípios importantes do interior de São Paulo se juntaram a outras capitais que veem os sistemas de saúde entrarem em colapso. Pela primeira vez, algumas cidades, como Araraquara, estão decretando lockdown total.

A Covid-19, em fevereiro de 2021, está infectando e matando mais pessoas do que no pico da doença no ano passado. Recuperar a produção industrial neste momento não só é um problema menor como é sem solução no meio da tragédia. Não existe economia aquecida em ambientes em que um vírus fora de controle faz mais de mil vítimas por dia.

Todos os esforços, portanto, devem se concentrar nas ações para organizar e acelerar a vacinação da população, como bem já admitiu o ministro da Economia, Paulo Guedes. Inclusive a compra de vacinas pela iniciativa privada, na minha opinião, deve ser avaliada desde que respeite princípios éticos e o cronograma de vacinação, e seja positivo para todos. Mesmo assim, pelos acontecimentos recentes, o mais provável é a situação piorar antes de melhorar.

Em dezembro de 2020, a indústria avançou 0,9% em relação a novembro e confirmou a tendência de retomada, mas mesmo com os vários meses seguidos de alta, o resultado do ano ainda mostrou recuo de 4,5%. Um tombo e tanto. O viés de alta do segundo semestre também deve ser analisado a partir das excepcionalidades que influenciaram os números e as projeções.

A recuperação ocorreu em cima de bases de comparação bem pressionadas desde 2019 e foi favorecida por estímulos do governo para fazer a economia voltar a girar, sobretudo o auxílio emergencial.

Também houve migração do consumo do setor de serviços para o de produtos e recomposição de estoques no final do ano. Então, há muito de artificial, embora necessário e compreensível, neste início de retomada e é importante olhar o horizonte sem os filtros.

No último trimestre de 2020, a taxa de desemprego no país atingiu 14,1%, a mais alta desde 2012, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). E, de acordo com análise do Santander Brasil, pode chegar a 17% no primeiro semestre de 2021 ao mesmo tempo em que o auxílio emergencial vai diminuir ou ser extinto de vez. É um cenário crítico em que a indústria, mais uma vez, vai ter de provar a sua resiliência.

O Santander, por outro lado, indica a luz no fim do túnel acreditando que, a partir do segundo semestre, a vacinação já vai ter alcançado um volume relevante o suficiente para despertar a confiança e fazer a roda girar. É o que esperamos.

Porém, a maior certeza hoje são as muitas incertezas e riscos bem evidentes. Reformas que não andam, turbulências políticas e institucionais. Tudo muito grave e objeto de atenção imediata, mas ainda assim menos urgente do que a vacina.

E, depois que essa emergência passar, e vai passar, teremos que lidar com deficiências estruturais que já prejudicavam o desempenho da indústria antes da pandemia. Há muito o que fazer, portanto. Mãos à obra.

*Marcio Grazino é empresário do setor de embalagens plásticas de proteção e diretor da Maximu’s Embalagens Especiais

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