‘Entendo que ali existe um grupo, onde parte está preso, parte está no Poder’

‘Entendo que ali existe um grupo, onde parte está preso, parte está no Poder’

O delator Joesley Batista, dono da J&F, detalhou como decidiu gravar Michel Temer no porão do Jaburu, após prisões de Cunha e seu operador, Lucio Funaro, que para ele integravam 'esquema da Câmara do PMDB'; 'Era para ficarem em silêncio e não se debelarem'

Ricardo Brandt, Fábio Leite, Julia Affonso, Fausto Macedo, Fabio Serapião e Beatriz Bulla

31 de maio de 2017 | 16h17

Eduardo Cunha e Michel Temer, na Câmara. FOTO: DIDA SAMPAIO/ESTADAO

“Começou, assim que ele foi preso, o presidente já tinha assumido.”

“Ele” é Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o ex-presidente da Câmara, cassado e preso por corrupção. O “presidente”, Michel Temer. E o narrador, o delator Joesley Batista, dono do Grupo J&F, que detalhou aos investigadores da Operação Lava Jato a origem da gravação que levou o apocalipse à Brasília e reacendeu o debate sobre os limites da colaboração premiada e dos grampos.

Com um gravador escondido, Joealey registrou conversa com a autoridade máxima da República em que comunica supostos crimes de corrupção e obstrução à Justiça. Temer nega ilícitos e busca anular a prova.

“Entendo que ali existe um grupo, onde parte está preso, parte está no Poder”, afirmou  Joesley, em seu depoimento gravado pela Procuradoria-Geral da República (PGR). Em mais de uma hora de vídeo, ele fala sobre a relação com Temer e Cunha. (ouça o trecho, aos 11 min e 55 seg)

A delação do empresário e outros seis nomes ligados à J&F desencadearam a Operação Patmos, que encurralou Temer e o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG), sob suspeita de envolvimentos com crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e obstrução à Justiça.

Iniciativa. “Foi inicialmente através do Geddel (Vieira Lima, ex-ministro). Quando Geddel foi preso, eu fui falar lá com o presidente”, conta o delator.

A legalidade da gravação e o contexto da conversa viraram um dos principais debates da delação bomba dos donos da J&F.

Joesley afirma que pagou R$ 5 milhões em “saldo de propina” a Cunha, de um total de R$ 20 milhões, dos quais R$ 15 milhões já haviam sido quitados quando o peemedebista ainda era deputado.

Os pagamentos se estendiam a Lucio Funaro, apontado como operador de Cunha. Um valor de R$ 400 mil mensais para “ficarem em silêncio e não se debelarem”.

“Sempre recebi sinais claros de que era importante mantê-los financeiramente, a família, tal… resolvidos”, relata Joesley.

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“Ouvi claramente do presidente que era importante manter isso. A primeira missão minha lá (no Jaburu) era essa, ir lá saber dele se o compromisso ainda era necessário.”

O encontro secreto do dia 7 de março de 2017 com o presidente Temer, no Palácio do Jaburu, foi gravado por Joesley, ainda sem a participação da PGR, que depois fez interceptações de diálogos do delator com investigados, entre eles Aécio e o deputado federal afastado Rodrigo Rocha Loures (PMDB-PR), de forma controlada.

“Esse negócio das gravações, a gente vem fazendo alguns registros de reuniões e de coisas aí, e essa (com Temer) foi uma delas.” (ouça aos 5min e 55 seg)

O delator recordou um ponto específico da conversa com Temer, em que menciona o compromisso de pagamentos para o operador de propinas Lucio Funaro. Temer, segundo Joesley, teria entendido que ao citar Lucio, ele se referia a um irmão de Geddel, de mesmo nome.

O lobista Lucio Funaro. Foto: Divulgação

Esquema Câmara. Joesley afirma que buscou Temer porque sempre recebeu sinais que era para manter os pagamentos e que via Cunha e Temer como participantes do esquema de arrecadação de recursos do PMDB na Câmara dos Deputados. (ouça aos 6 min e 40 seg)

“O Lucio Funaro é o operador financeiro do Eduardo do esquema PMDB da Câmara. O esquema PMDB da Câmara é composto pelo presidente Michel, Eduardo, enfim, e alguns outros membros”, afirmou o delator.

“Eu fui lá dizer que ‘olha, o Eduardo está preso, o Lucio está preso e a gente paga lá uma mensalidade para o Lucio até hoje.”

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O delator explicou que o pagamento de R$ 5 milhões para Cunha, referente à dívida de R$ 20 milhões, foi acertada em compensação à atuação do peemedebista  na Câmara na tramitação de projeto de lei que desonerou a cadeia produtiva do frango.

“Na época, o Eduardo Cunha tramitou essa prorrogação e pediu R$ 20 milhões para que isso acontecesse. Eu achava que era R$ 15 milhões, ele disse que era R$ 20 milhões. Por isso ficou esse saldo.”

“Fui lá falar com o presidente exatamente isso. Que tinha acabado o saldo de Eduardo, que eu tinha pago tudo, que estava tudo em dia, mas tinha acabado”, afirmou Joesley em seu Termo 2, em depoimento no dia 7 de abril, na PGR. (ouça aos 8 min e 30 seg)

“Por outro lado, que eu seguia pagando o Lucio, R$ 400 mil por mês e eu queria informar isso a ele e saber a opinião dele”, explicou.  O lobista está preso desde julho do ano passado na Penitenciária da Papuda, em Brasília. Nesta terça, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou um pedido de liberdade do operador.

Manter. No anexo em que cita os temas que pode tratar no acordo, entregue à PGR, ele conta como conheceu Temer. Nele explica também como Geddel virou seu interlocutor e como decidiu buscar o próprio presidente e gravá-lo.

“Eu ouvi claramente do presidente que era importante manter isso”, afirmou Joesley, aos procuradores, ao explicar o contexto da fita.

“Entendi que ali existia um grupo. Parte do grupo está preso, parte do grupo está no Poder.”

O delator afirmou que os valores eram para manter calmos Cunha e Funaro. “Não sei como ficar calmo na cadeia. Era para ficarem em silêncio e não se rebelarem.” (aos 9 min e 54 seg)

O ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), abriu um inquérito contra Temer (PMDB), a pedido da Procuradoria-Geral da República. Nesta terça-feira, 30, ele autorizou que a Polícia Federal tome o depoimento do presidente.

COM A PALAVRA, O PRESIDENTE MICHEL TEMER

O presidente Michel Temer afirmou, em pronunciamento, neste sábado, 20, que pediu suspensão do inquérito contra ele aberto no Supremo Tribunal Federal, embasado nas delações da JBS. O peemedebista afirmou que a gravação feita em conversa entre ele e o dono do grupo JBS no Jaburu, em março deste ano, foi editada.

Em seu discurso, de um pouco mais de 13 minutos de duração, Temer buscou desqualificar os áudios gravados por Joesley Batista em conversa realizada em março deste ano, no Palácio do Jaburu, conforme havia antecipado a Coluna do Estadão.

O presidente Michel Temer afirmou ainda que Joesley Batista está “livre passeando pelas ruas de Nova Iorque”, “impune depois de gravar clandestinamente” o presidente.

“Por isso, no dia de hoje, entramos com petição no STF para suspender inquérito proposto até que seja verificada em definitivo a autenticidade da gravação clandestina”, afirmou Temer.

O presidente ainda afirmou que o empresário ‘cometeu o crime perfeito’, se utilizando de uma ‘gravação fraudulenta’.”Quero pontuar que houve grande planejamento para realizar esse grampo e depois montagem, e criar um flagrante que incriminasse alguns, enquanto criminosos fugiam para exterior em segurança”, disse.

“A notícia foi vazada por gente ligada ao grupo empresarial e antes de entregar a gravação comprou um bilhão de dólares. Eles sabiam que isso provocaria o caos”, afirmou.

Além de se defender das delações, o presidente voltou a apelar para a recuperação economia para justificar sua manutenção no cargo. “Teve uma montagem e uma ação deliberada que incriminasse alguns. O Brasil a caminho da recuperação econômica para colocar o País nos trilhos.”

Ao final do pronunciamento, Temer voltou a reiterar que continuará à frente do governo.
“O Brasil não sairá dos trilhos, e eu continuarei à frente do Brasil.”, disse, ao encerrar discurso.

O presidente Michel Temer foi gravado pelo empresário Joesley Batista no dia 7 de março deste ano. No diálogo, o empresário confessa ao peemedebista pagar uma mensalidade de R$ 50 mil a um procurador da República a fim de vazar informações de inquéritos de interesse do grupo JBS. O procurador da República Ângelo Goulart Villela foi preso preventivamente por suspeita de ser o informante de Joesley. No diálogo, ainda é discutida uma suposta compra do silêncio de Eduardo Cunha, condenado a 15 anos na Operação Lava Jato.

COM A PALAVRA, A DEFESA DE LUCIO FUNARO

O advogado de Lucio Funaro, Bruno Espiñeira, afirmou que a delação de Joesley será tratada como mais uma delação. “Existe sim um contrato lícito do Lúcio com o grupo dele e essa coisa de transformar tudo em vala comum, receber propina para silenciar, não se sustenta e será esclarecido”, afirma o advogado

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