Entenda a lacuna na agenda ESG

Entenda a lacuna na agenda ESG

Emílio Martos*

01 de agosto de 2021 | 14h00

Emílio Martos. FOTO: DIVULGAÇÃO

Se você não conhece – nem nunca ouviu falar – nada sobre ESG, esse artigo é feito especialmente para você. Se você conhece, estuda ou trabalha com práticas ambientais, sociais e de governança, que são os pilares da sigla, não se preocupe, pois esse texto também é para você.

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Pautas como consumo consciente, economia sustentável, equidade de gênero e raça têm dominado cada vez mais a agenda do mundo. Não à toa, organizações brasileiras têm discutido e  incentivado práticas de ESG (sigla em inglês que quer dizer Ambiental, Social e de Governança). Nos últimos anos, pudemos acompanhar a evolução da participação das empresas e organizações no desenvolvimento de boas práticas sociais e ambientais. Entretanto, apesar do grande e contínuo esforço, o que vemos são resultados ainda tímidos.

Entre avanços e retrocessos, existe uma lacuna que precisa urgentemente ser preenchida na agenda ESG. Falta dar destaque ao ser humano nessa conta. A proposta das empresas com a inclusão dessa nova prática é válida: trata-se de uma resposta à necessidade latente da elaboração de um novo acordo social que garanta um futuro melhor para todos. Mas o aprofundamento das desigualdades, escancarado pela pandemia da COVID-19, somado às manifestações globais contra o racismo, transbordadas após o assassinato de George Floyd, jogam luz na inclusão do H, de Humano, na sigla ESG.

Aprendemos com Mandela: “Ninguém nasceu com ódio. Aprendeu a odiar na Terra e se aprendeu a odiar também pode aprender a amar”. Se podemos aprender a amar, podemos aprender a regenerar, reflorestar, preservar, incluir, construir sistemas de gestão humanizados, transparentes e justos. Por isso, a necessidade de colocar o indivíduo  no centro do debate. Entender os pontos de vista e motivações, encontrar novos caminhos para velhos problemas, por meio de discussões e processos educativos, desenvolvimento de práticas que levem a reflexão e à ação de todas as pessoas.

A questão que se coloca é, como podemos aproximar, traduzir, compartilhar mundos que parecem tão distantes?  Para quem está fora, me atrevo a apresentar alguns caminhos, contando com a generosidade e contribuição de quem está dentro. Com a expectativa que fora e dentro deixem de existir.

É preciso estabelecer nas companhias que o ESG foca nas práticas humanas e não é o espaço restrito a algumas áreas e certos especialistas. Que as pessoas, em todos os extratos organizacionais, têm o desafio do protagonismo, da criação novas camadas e olhares para as questões estruturais da empresa, no desenvolvimento de processos, produtos e servicos que integrem o ser humano ao meio ambiente, às questões sociais e ao sistema de governança. Tudo isso na contramão da formação de seguidores e geradores de likes.

Traduzir linguagens, promover debates que fortaleçam o aprendizado e estimulem a colaboração e a cooperação como formas de ampliar mercado e competitividade, visando tornar as organizações cada vez melhores, não somente maiores.

Se a sua empresa tem ou acabou de criar a área responsável por ESG, leia o que está sendo produzido, acompanhe os projetos, chame os gestores para uma conversa e faça muitas, muitas perguntas. Busque entender como essas questões podem impactar os processos, produtos e serviços desenvolvidos por sua organização e, especialmente, pela área em que atua.

Esse movimento pode começar a ser chamado de “ESGH”, na esperança que um dia seja somente H, que neste caso pode ter mais de um significado “Humano”, de modo que haja um compilado de cada um dos indivíduos. O convite que eu faço é para que nos desprendemos das siglas, que levemos nos bandeiras para novos públicos, em que causas podem atuar juntas.  Devemos nos encaminhar – nós, seres humanos – para o centro do debate, para assim encontrarmos soluções em conjunto e traduções para os problemas sociais, ambientais e de governança das corporações e da sociedade. Pensando e agindo de maneira integrada.

É preciso praticar o exercício de transitar por outras realidades e entender outras histórias para que possamos evoluir como indivíduos e, consequentemente, atuar contra as injustiças ao nosso redor. Através de um olhar amplo e da ação conseguiremos, juntos, que todos os seres humanos devem nasçam e vivam livres e iguais em dignidade e direitos, como prevê a Declaração Universal dos Direitos Humanos.

Esse match entre quem ainda desconhece e quem atua com ESG pode gerar uma nova disposição para o encontro das pessoas, o maior número delas, com discussões, provocações, tradução simultânea de uma nova sociedade, plural, inclusiva, justa e sustentável.

Neste momento de crises (econômica, sanitária e social) em que o mundo está imerso, a sensação é que presente e futuro estão juntos, afinal, tudo ganhou uma velocidade muito maior. O mundo está passando por um momento em que se adaptar é extremamente relevante, por isso convido todo mundo a ter um olhar mais inclusivo e amplo. É preciso praticar o exercício de buscar por outras realidades e entender outras histórias para que possamos evoluir como indivíduos e, consequentemente, mudar as realidades ao nosso redor. Através da ação conseguiremos , juntos, transformar as empresas pela transformação das pessoas nessas organizações.

*Emilio Martos é Head de Planejamento e Desenvolvimento Humano. Formado em administração e direito com MBA em Gestão da Tecnologia da Informação e Formação de Coaches pelo Instituto EcoSocial, Martos trabalhou nos últimos 20 anos na gestão de organizações do terceiro setor, como Instituto Ethos, Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) e Fundação Bienal de São Paulo. Já foi líder e parceiro da Fundação Avina e atualmente é voluntário na Conectas Direitos Humanos, como membro do Conselho Fiscal

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