Ensaio sobre o tratamento

Ensaio sobre o tratamento

Luiz Paulo Ferreira Pinto Fazzio*

10 Junho 2018 | 12h00

Luiz Paulo Ferreira Pinto Fazzio. FOTO: Arquivo Pessoal

Se não negarmos mais, então poderemos todos reconhecer que estamos doentes. Você, eu, a sociedade brasileira. Em diferentes graus, mas doentes. Não negar é um bom começo.

Devemos buscar tratamento. Seria bom um tratamento a partir de um remédio com três princípios ativos: inteligência; amor; e justiça.

O pensamento, o sentimento, o gesto ou a palavra desprovida desses princípios é um mal sinal para uma obra coletiva.

Todos temos predisposições mentais. Esse processo se chama atitude, está dentro de nós.

Uma vez externada a atitude, ela se transforma em comportamento. O conjunto de comportamentos é o que chamamos de conduta.

Se imaginarmos a nossa conduta, conosco e com os nossos compatriotas, a soma das condutas dos 208 milhões de brasileiros, como ela nos representaria?

Apontar a reforma externa, do Estado, da previdência, tributária é preciso. Entender e conseguir convencer a sociedade e seus representantes a fazê-las requer outro tipo de reforma, igualmente trabalhosa.

A reforma íntima é a principal. Reformar o cidadão que nos tornamos para vir a ser o que idealizamos. Reformar atitudes, comportamentos e condutas. Com a atuação dos três princípios ativos.

Em algum momento, parte dos nossos concidadãos que exercem mandatos legislativos ou executivos, ou cargos no Ministério Público e no Judiciário, deixou claro que não tem interesse em se comportar de acordo a Constituição, com as leis, com as regras da democracia e com os fundamentos da nossa República. Simples.

Cada um de nós, como fontes emanadoras do poder, tivemos nosso poder sequestrado pela maioria dos representantes que elegemos. A minoria que se salva não tem força para neutralizar a maioria e nos libertar.

Num sistema contaminado, que os que lá estão fazem regras para dificultar, quando não impedir, a entrada de novos parlamentares ou executivos, será possível haver regeneração?

De quatro em quatro anos tentamos nos libertar nas eleições para presidente da República, governadores, senadores e deputados federais, deputados estaduais, prefeitos e vereadores.

O resultado dessa nossa tentativa não vem dando certo. A cada eleição aumentam os votos em branco, nulos e abstenções. Talvez nas eleições presidenciais de outubro esse grupo de eleitores ultrapasse 50%.

Talvez gostaríamos, a partir da ideia de José Saramago, em Ensaio sobre a Cegueira, que numa manhã de julho, em ato de pura dignidade e patriotismo, todos os nossos representantes investigados e réus renunciassem a seus mandatos/pedissem exoneração, inclusive os membros do Judiciário, do Ministério Público e da Advocacia que tivessem praticado atos ilícitos, ainda que não descobertos.

Como sabemos que essa manhã não ocorrerá, e que a vida está cada dia mais indigna e insegura para a maioria de nós, nos incomoda não ter ideia de como consertar esse processo, essas pessoas, em pouco tempo.

Não temos líderes. Não temos estadistas. Nem poderia ser diferente diante da doença que acometeu as principais lideranças que pensávamos ter.

Acredito que um grupo de brasileiros vem se tratando com os três princípios ativos. Ativados nas atitudes, também o estarão nos comportamentos e nas condutas.

A formação de uma cidadania a partir da prática de valores e princípios dignos, republicanos, democráticos, poderá proporcionar exemplos de cidadãos que inspirem e movam as futuras gerações na direção do progresso com amor à Pátria e ao seu povo.

Sobretudo quem optou por ser um representante do povo, e ama seu compatriota, não se deixa corromper. Que amor é esse?

Ao se corromper, destrói muito mais do que escolas, hospitais e outros serviços essenciais não prestados pelos recursos que desviaram. Destroem também a crença da população nas instituições.

Mais de 62 mil homicídios em 2017. Inaceitável. E quantas mortes causadas pelos desvio para partidos, empresas, outros países, dirigentes políticos, advogados, procuradores, juízes?

Uma caneta na mão de um presidente, governador, prefeito, não pode tira lr tantas ou mais vidas que fuzis, submetralhadoras, pistolas e revólveres?

Na direção contra os interesses dos brasileiros e do país, estamos acompanhando filhos e netos dos nossos concidadãos, que exercem mandato e que não demonstram interesse em se comportar de acordo com a lei, prontos para disputas eleitorais, talvez continuando a exercer mandato sob a lógica do crime, herança dos pais.

Parte da geração que hoje nos representa, que nós elegemos, direta ou indiretamente, sobretudo no Legislativo, Executivo, colocou em prática o melhor que podiam, ainda que isso signifique conduta criminosas. Ao exercer o poder mostrou não ter poder sobre suas atitudes, comportamentos e condutas.

Edução para uma cidadania forte entregará uma democracia forte. Sabemos que isso não interessa aos donos do poder e estamos dentro do processo de organização para efetivamente realizar o resgate do poder popular, e da República, possibilitando que os cidadãos que desejem, possam exercer com dignidade a Política.

Estamos certos de que, bem organizados, ao final, a operação civil de resgate será bem-sucedida.

*Luiz Paulo Ferreira Pinto Fazzio
Advogado.
É sócio da Advocacia L. P. Fazzio

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