Enquanto Bolsonaro diz que Queiroz não estava foragido e que prisão foi ‘espetaculosa’, promotores apontam ‘complexa rotina de ocultação do paradeiro’

Enquanto Bolsonaro diz que Queiroz não estava foragido e que prisão foi ‘espetaculosa’, promotores apontam ‘complexa rotina de ocultação do paradeiro’

O ex-assessor parlamentar do filho mais velho do presidente foi preso na quinta-feira, 18, na casa do advogado de Flávio Bolsonaro

Rayssa Motta, Pepita Ortega e Fausto Macedo/SÃO PAULO e Caio Sartori/RIO

19 de junho de 2020 | 14h50

O ex-assessor parlamentar Fabrício Queiroz durante sua estada na casa do advogado Frederick Wassef, em Atibaia. Fotos: Reprodução/MPRJ

O presidente Jair Bolsonaro até tentou minimizar a prisão do ex-assessor Fabrício Queiroz. Com um pé em cada canoa, esbravejou que o antigo funcionário de seu filho ‘01’ não estava foragido e que a captura foi ‘espetaculosa’. Ao mesmo tempo fez questão de, através da advogada, emitir nota na tentativa de se desvencilhar do autodeclarado consultor jurídico do Planalto, Fábio Wassef, dono da casa onde Queiroz foi encontrado.

Ao que parece, as escolhas de Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) na esfera advocatícia têm trazido dor de cabeça ao senador e ao governo – pelo menos desde que estouraram as investigações sobre o suposto esquema de ‘rachadinhas’ em seu gabinete durante os mandatos como deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio.

No caso mais recente, Wassef desapareceu após ser descoberta a guarida dada por ele a Fabrício Queiroz em Atibaia, no interior de São Paulo, há cerca de um ano. Em ao menos duas ocasiões no ano passado, ele negou conhecer o paradeiro do ex-assessor parlamentar. O advogado, que não costuma fugir dos holofotes, não atendeu o celular nem emitiu nota de esclarecimento após a prisão do ex-PM.

De acordo com o Ministério Público do Rio, os investigadores verificaram uma ‘complexa rotina de ocultação do paradeiro’ de Queiroz, articulada por uma pessoa com ‘notório poder de mando’, sob o codinome ‘Anjo’ – cuja real identidade que ainda não foi esclarecida.

“Note-se que parte da rotina de ocultação do paradeiro de Fabrício Queiroz envolvia restrição em sua movimentação e em suas comunicações, sendo monitorado por uma terceira pessoa, que se reportava a um superior hierárquico referido como ANJO”, dizem as investigações do MP.

Os promotores afirmam ainda que Queiroz sua esposa, Márcia Aguiar, que ainda está foragida, desligavam os celulares antes de chegarem à Atibaia a fim de evitar eventual monitoramento das autoridades policiais. Para o Ministério Público, trocas de mensagens do casal confirmaram que os dois estariam obedecendo instruções de alguém sob o codinome ‘Anjo’ e que, ao supor que o julgamento do Supremo Tribunal Federal autorizaria o uso de relatórios do Coaf em investigações criminais, ‘Anjo’ manifestou intenção de esconder toda a família de Queiroz em São Paulo.

Frederick Wassef, advogado de Flavio Bolsonaro. Foto: Tiago Queiroz/Estadão

Wassef, dono do imóvel em Atibaia, defende Flávio Bolsonaro no caso que levou à prisão que Queiroz nesta quinta, 18, o que levanta a suspeita sobre uma possível troca de informações entre investigados – que poderia configurar tentativa de obstrução de Justiça. Um pedido de investigação contra ele já foi encaminhado à Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) pelo senador Fabiano Contrato (Rede-ES).

Antes disso, conforme revelou a sentença do juiz que decretou o encarceramento de Queiroz, o Ministério Público já alimentava a hipótese de obstrução de justiça pelo antecessor de Wassef na defesa se Flávio, o também advogado Luís Gustavo Botto. Na mesma decisão que autorizou a prisão de Queiroz, foram determinadas, em endereços de Botto, buscas de ‘telefones celulares, computadores, dispositivos eletrônicos e demais comprobatórios de adulteração de provas ou de interferência/intimidação de testemunhas da investigação ou de outros investigados’. Ele também foi impedido de manter contato com testemunhas e investigados no caso.

O advogado Luís Gustavo Botto ao lado de Raimunda Veras Magalhães, mãe do miliciano Adriano Nóbrega, e da mulher de Fabrício Queiroz, Márcia Aguiar. Foto: Reprodução / MPRJ

Os promotores apontaram que Botto teria orientado uma ex-assessora a não comparecer para prestar depoimento e a adulterar registros de ponto na tentativa de reduzir rastros de que ela era, na verdade, uma ‘funcionária-fantasma’.

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