Enfrentar os mercados emergentes com seletividade e convicções

Enfrentar os mercados emergentes com seletividade e convicções

Xavier Hovasse*

16 de julho de 2020 | 04h00

Xavier Hovasse. FOTO: DIVULGAÇÃO

O que é que aconteceu até agora? Os ativos dos Mercados Emergentes foram profundamente atingidos pelo sell-off motivado pela Covid-19, sofrendo grandes desinvestimentos, mais do que em qualquer crise nos últimos 15 anos. Desde abril, os mercados globais começaram a desfrutar de uma recuperação impulsionada por incentivos com base no fato de o surto de Covid-19 estar mais controlado. Os mercados emergentes também estabilizaram, face a indícios crescentes de que os impactos da pandemia serão menos graves do que o esperado, juntamente com uma melhoria da liquidez do dólar (flexibilização da política norte-americana, linhas de swap em dólar com os bancos centrais dos Mercados Emergentes), evitando até agora uma pressão sobre a moeda norte-americana.

No entanto, as incertezas econômicas persistem e parece ser muito cedo e difícil quantificar o impacto total da Covid-19, sendo que os efeitos econômicos secundários dos confinamentos, o encerramento do setor do turismo e o enfraquecimento da procura externa e interna ainda constituem obstáculos para os Mercados Emergentes. Mais recentemente, a detecção de novos casos e as preocupações com segundas ondas do vírus estão aumentando a incerteza.

Visão geral: A crise atual está, sobretudo, reforçando as tendências anteriores de desaceleramento do crescimento mundial e de dispersão do desempenho econômico entre os países. Se as injeções de liquidez, os estímulos monetários e orçamentais de economias avançadas e um dólar norte-americano possivelmente mais fraco conseguirem proporcionar um maior apoio aos Mercados Emergentes, as perspectivas a médio prazo permanecerão incertas, consequentementea seletividade continuará a ser fundamental para enfrentar este ambiente volátil.

Condições divergentes: Parece existir uma separação clara entre os países dos Mercados Emergentes:

  • Deterioração das perspectivas para alguns países exportadores e para os que necessitam de financiamento em dólares norte-americanos que poderiam ser prejudicados por uma pressão sobre o dólar
  • Perspectivas construtivas para os países importadores de petróleo, em particular os países asiáticos com indicadores fundamentais aceitáveis, com um crescimento relativo mais forte e que tenham conseguido enfrentar a crise melhor do que o mundo ocidental
  • A China destaca-se, uma vez que parece ter saído fortalecida em relação a boa gestão da crise e da economia até ao momento:
    • A atividade econômica está gradualmente retomando, visto que é o primeiro país a sair do confinamento e a sua balança corrente está melhorando, beneficiando-se de preços mais baixos das commodities e da paralisação do turismo internacional durante um período prolongado
    • Até agora, a China tem evitado apoio em grande escala do governo, com uma abordagem mais direcionada. Em vez de injetarem crédito indiscriminadamente (tal como no passado), projetaram uma desaceleração e encaminharam o crédito para os setores-chave da economia (tecnologia, cuidados de saúde, energias limpas).

Para a nossa estratégia em Mercados Emergentes, vemos oportunidades atrativas na nova economia da Ásia/China, principalmente no espaço da tecnologia e internet, já que eles se sobressaem como os grandes ganhadores na Revolução Tecnológica, acelerada pela crise. Estamos evitando exposição nos locais mais fracos dos emergentes e ficando longe de países com fundamentos fracos e necessidades de financiamento externo. 

*Xavier Hovasse, gerente de Fundos e Chefe de Ações Emergentes da Carmignac

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