Enfrentando o bullying no ambiente de trabalho

Enfrentando o bullying no ambiente de trabalho

Dhyego Pontes*

14 de março de 2020 | 08h00

Dhyego Pontes. FOTO: DIVULGAÇÃO

Hoje em dia, é quase impossível não conhecer o termo, seja pela propagação constante nas redes sociais ou pelo forte teor apelativo em programas de televisão. Além de qualquer superficialidade, o bullying é um assunto que requer seriedade e cuidado em sua abordagem, afinal, exerce uma influência extremamente negativa aos que sofrem diariamente com esse mal.

Quando adentramos o contexto empresarial, observamos uma situação igualmente delicada: os profissionais brasileiros estão sofrendo com bullying, assédio moral e perseguições, fatores que não só prejudicam o rendimento prático, como ocasionam traumas e danos psicológicos irreversíveis.

Para ilustrar a gravidade do cenário nacional, um levantamento realizado pelo Kantar Inclusion Index, índice global de inclusão e diversidade no trabalho, apontou que cerca de 41% dos funcionários brasileiros relatam sofrer algum tipo de bullying nas empresas que trabalham. Já no ranking de 14 países mais inclusivos, o Brasil estagnou na 7ª posição.

Como entender os motivos por trás dessa instabilidade comunicacional? É possível amenizar e até solucionar o quadro? O primeiro passo para combater o bullying é simplesmente falar sobre ele!

O problemático espaço profissional

Antes de partirmos para soluções práticas, temos o dever de destacar que não existe qualquer possibilidade de relativizar comportamentos tóxicos. Nada justifica atitudes destrutivas e as consequências e traumas psicológicos provocados por essas atitudes falam por si só. Nos corredores corporativos, ainda mais em companhias cuja pressão por uma competitividade gradual é colocada acima da razoabilidade, encontramos um caminho suscetível para que pessoas mostrem o seu pior.

Colegas que se divertem às custas de um alvo-fácil, brincadeiras de gosto minimamente discutível que, aparentemente, são inofensivas, o uso de palavras que enquadram casos de assédio moral, são apenas alguns dos vários componentes dessa condição deplorável. Pessoas de todos os gêneros, crenças, etnias e orientações sexuais estão sujeitas a passar por situações humilhantes e constrangedoras. Como exigir um desempenho aceitável de um profissional inserido nesse contexto?

As implicações legais e como prevenir

Sob a ótica da lei, podemos dizer que o bullying se enquadra como abuso passível de punição e até indenização por danos morais, de acordo com a gravidade e particularidade de cada caso. Foi somente em abril de 2019, no entanto, que a discussão sobre assédio moral no ambiente de trabalho chegou ao Congresso Nacional, com a aprovação da emenda que tipifica o crime no Código Penal. Hoje, o projeto se encontra em tramitação no Senado Federal.

Não se deve esperar que a situação chegue ao estopim. O simples fato de existir um espaço coletivo que possibilite casos de assédio já é motivo suficiente para que os líderes adotem medidas preventivas.

Inicialmente, mostra-se essencial a aplicação de uma política de intolerância severa, contra todos os tipos de agressão, física ou moral. Canais de comunicação abertos também incentivam uma maior transparência interna, facilitando que possíveis vítimas coloquem para fora queixas e relatos ocorridos.

A conscientização também deve ser geral. Ao demonstrar essa sensibilidade e preocupação, o profissional de cima estabelece uma linha inquebrável para que os funcionários sigam. Treinamentos são bem-vindos, buscando a elucidação do que é passível de punição em termos de bullying.

Essa é uma luta de todos

Empatia é uma palavra que tem se tornado cada vez mais necessária nos dias atuais. E aqui funciona igualmente como um motor para a mudança. Em muitos casos, subestima-se a ocorrência de situações características de bullying, ou prefere-se fechar os olhos em prol de uma falsa sensação de harmonia organizacional.

Ignorar as consequências que um ambiente interno comprometido traz para uma empresa não é só flertar com punições severas e casos judiciais, mas colocar o futuro da organização nas mãos de profissionais psicologicamente doentes. O agressor, por sua vez, poderá utilizar de sua falta de profissionalismo para fomentar um panorama insustentável. Olhar para as vítimas com a responsabilidade de gestores conscientizados é o mínimo que se espera de uma organização séria.

Se ousamos transformar a realidade empresarial em relação a temáticas, como compliance, cultura interna, tecnologia, não há razão alguma para não priorizar o elemento responsável pelo andamento operacional das empresas: as pessoas.

O tempo de assimilar a existência do bullying no ambiente de trabalho já passou. Agora, é hora de enfrentar o problema de frente e oferecer, de forma ética e precisa, os meios adequados para que todos tenham o tratamento que merecem ao exercerem suas funções.

*Dhyego Pontes é consultor trabalhista e previdenciário da Grounds

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