Enfim, uma cidade inteligente

Enfim, uma cidade inteligente

Alexandre Modonezi*

19 de julho de 2021 | 04h00

Alexandre Modonezi. FOTO: DIVULGAÇÃO

Tatear no escuro. Essa era a sensação dominante na Secretaria Municipal das Subprefeituras de São Paulo em 2017. A administração dos serviços de zeladoria ocorria por processos analógicos, na base do papel, com dados pulverizados pelas 32 subprefeituras, sem indicadores, impedindo uma visão global e um planejamento amplo. Isso numa cidade de 12 milhões de habitantes, 17 mil km de vias, mais de 5 mil praças, 600 mil pontos de iluminação, cerca de 4,5 mil km de córregos, 500 mil bueiros, e problemas à altura.

Em plena segunda década do século 21, e apesar da revolução digital já ter se espalhado pelo mundo, serviços cotidianos careciam de controle centralizado. Entre estas atividades estão poda de árvores, jardinagem, limpeza de córregos, recapeamento e tapa-buraco.

Cada uma das subprefeituras criava seu modelo. A informação não era padronizada e não havia dados consolidados sobre a quantidade realizada de cada serviço. Nesse cenário, as solicitações dos cidadãos não estavam entre as prioridades e, muitas vezes, sequer eram atendidas.

Superar esse atraso tecnológico era fundamental para entregar serviços ágeis e de qualidade ao cidadão e, ao mesmo tempo, dar eficiência ao gasto público. Desse modo, tornou-se inadiável para a secretaria buscar ferramentas que padronizassem os processos, criassem uma matriz para a tomada de decisões e otimizassem a execução das tarefas.

A resposta foi a implantação de um programa de “smart city”, denominado Sistema de Gerenciamento da Zeladoria (SGZ). O projeto passou a reunir e mapear as demandas recebidas pela Central SP156, monitorar a execução dos serviços, até dar uma resposta ao cidadão quando da conclusão, possibilitando uma gestão completa de todo o ciclo.

O SGZ foi integrado a outras plataformas digitais da Prefeitura, como o mapa interativo GeoSampa e o Sistema de Orçamento e Finanças (SOF), o que permite analisar os contratos das empresas terceirizadas, verificar o empenho necessário e o orçamento disponível para a realização dos serviços. Antes, esse procedimento era feito separadamente.

Os indicadores mostram que o trabalho deu resultado. Antes do início da instalação do SGZ, em abril de 2017, havia uma fila de quase 250 mil solicitações de serviços pendentes. Para citar dois exemplos concretos, o tempo médio para atender pedidos de tapa-buraco caiu de 128 para 08 dias e de poda de árvores recuou de 507 para 68 dias. Ou seja, as solicitações em aberto agora são recentes.

Não é pouca coisa. Mas não é tudo!

Paralelamente, foi desenvolvido um sistema de monitoramento para pavimentos, baseado em Internet das Coisas (IoT) e Inteligência Artificial (IA), que acompanha continuamente a irregularidade das vias, batizado de Geovista. Periodicamente são percorridos mais de 80% dos 17 mil km de asfalto da cidade que são classificados em 05 níveis (ótimo, bom, regular, ruim e péssimo).

Com os dados do Geovista, foi possível planejar o programa de recapeamento seguindo aspectos técnicos e identificar que não há diferenças significativas entre o pavimento das zonas centrais e periféricas da cidade, considerando que as vias arteriais estão em melhor estado de conservação do que as locais.

É aqui que a gestão baseada em dados mostra toda a sua potência. A análise das 12 mil horas de dados possibilita concluir que 40% do tempo foi trafegado nas vias locais e apenas 28% nas grandes avenidas. Trata-se de uma mudança na forma de deslocamento dos motoristas.  Explica também a sensação de desconforto sentida em seus trajetos diários, mesmo com investimento em recapeamento de mais de R$ 1 bilhão nos últimos anos.

Esse é mais um desafio, pois as vias menores não foram projetadas para fluxos intensos e há mais dificuldades para a realização de recapeamento, pois bloqueia a entrada e saída da residência do munícipe. É a tecnologia identificando necessidades que serão solucionadas com o uso de outros sistemas inovadores.

O SGZ, o maior sistema de gerenciamento de zeladorias do mundo e que não tem precedentes no Brasil, e o Geovista, um sistema especialista na qualidade do pavimento, são ferramentas disruptivas de gestão que certamente contribuíram para que a cidade de São Paulo fosse apontada como a mais inteligente e conectada do país no Ranking Connected Smart Cities 2020.

*Alexandre Modonezi, filósofo pela Universidade Mackenzie, é secretário municipal das Subprefeituras

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