‘Enfia essa porra dentro do saco preto’

‘Enfia essa porra dentro do saco preto’

Deputado Marcos Abrahão (Avante), suspeito de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa na Operação Furna da Onça, foi flagrado no grampo pela Polícia Federal em ‘diálogo extremamente comprometedor’

Fabio Serapião/BRASÍLIA e Julia Affonso/SÃO PAULO

10 Dezembro 2018 | 17h56

Marcos Abrahão. Foto: Alerj

Grampo da Operação Furna da Onça pegou o deputado estadual Marcos Abrahão (Avante) em ‘diálogo extremamente comprometedor’. Em relatório parcial da investigação, a Polícia Federal aponta que o ‘nervosismo’ do parlamentar indicaria uma ‘situação ilícita que implicaria graves consequências’.

Abrahão foi preso no dia 8 de novembro por suspeita de um mensalão de R$ 80 mil somado a um ‘prêmio’ de R$ 1,5 milhão. A Furna da Onça mira esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e loteamento de cargos públicos e mão de obra terceirizada em órgãos da administração estadual que teria movimentado R$ 54,5 milhões.

Segundo a PF, o diálogo de Marcos Abrahão com um homem não identificado que o chama de ‘tio’ não está ‘completamente esclarecido’.

“Marcos Abrahão demonstra transportar algo ilegal dentro de um veículo da Alerj (assembleia Legislativa do Rio). Pelo nervosismo do mesmo, parece tratar-se de situação ilícita que implicaria graves consequências. Ele pede então para que o bem/produto transportado seja colocado em um saco preto e imediatamente tirado do carro da Alerj”, registrou a Federal.

A conversa teve início às 9h06 de 10 de outubro deste ano. O diálogo durou cerca de 1 minuto.

O homem informa ao deputado que ‘pegou o carro preto da Alerj sem autorização dele para pegar alguma coisa na Manilha’.

“Qual carro você tá?”, perguntou Abrahão.

“No carro preto”, respondeu o interlocutor.

“Cê não vai botar isso dentro do meu carro de Alerj”, disse o deputado.

“Pode não?”, quis saber o homem.

“Rapaz, vocês fazem as coisas sem falar comigo, rapaz. Eu não tô entendendo a de vocês”, afirmou Marcos Abrahão.

“Ué, não pode, não levo, ‘tio’. Não sabia”, emendou o interlocutor.

“Cê tá aonde?”, questionou o parlamentar.

“Eu tô aqui em Manilha”, respondeu o homem. “Não. Não pode, não levo, ô tio. Não pode, não levo.”

“Enfia essa porra dentro de saco preto”, ordenou o deputado.

“Tá no saco preto.”

“Coloca essa porra. Vem embora pra cá. E pelo amor de Deus, caralho. Não faz mais essas porras sem falar comigo, porra”, irritou-se o deputado.

Marcos Abrahão foi enquadrado pela Polícia Federal pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e corrupção passiva e incluído no ‘núcleo dos deputados corrompidos’. No documento, a Federal também atribui crimes a outros 35 investigados da Furna da Onça.

A reportagem está tentando contato com a defesa do deputado. O espaço está aberto para manifestação.