Enfermagem: o essencial não é mais invisível aos olhos

Enfermagem: o essencial não é mais invisível aos olhos

Cláudio Luiz da Silveira*

15 de maio de 2020 | 13h15

Cláudio Luiz da Silveira. FOTO: DIVULGAÇÃO

Há uma frase muito famosa, proferida no livro O Pequeno Príncipe, um clássico da literatura mundial, que diz: “o essencial é invisível aos olhos”.  Há muitos exemplos em nosso cotidiano que representam essa definição. Porém, no dia de hoje, é inevitável relacionar esse pensamento com a enfermagem. Nascemos pelas mãos de enfermeiros (as) ou, então, é deles que recebemos os primeiros cuidados. Também são esses profissionais que aplicam nossas vacinas e acompanham se elas estão em dia, a cada passagem pelas unidades de saúde. E se precisamos de um tratamento mais complexo, como uma quimioterapia ou transfusão de sangue, lá está um profissional de enfermagem para acolher e ministrar o procedimento. E quando um ente querido está internado? São eles que atendem ao chamado da campainha nas longas madrugas, trazendo mensagens de apoio e adotando o procedimento necessário para confortar aqueles que mais amamos.

Como enfermeiro e cidadão, posso afirmar que somos essenciais para os sistemas de saúde. Mas, infelizmente, fomos por muito tempo invisíveis aos olhos da sociedade e das autoridades. Essa realidade levou a Organização Mundial da Saúde a definir 2020 como o “Ano da Enfermagem”, no âmbito da campanha Nursing Now. A iniciativa estabeleceu tem o objetivo mostrar ao mundo a importância que a nossa profissão tem na garantia do acesso à saúde e, também, empoderar a categoria.

Para sensibilizar a população mundial em torno desta causa, foram definidas como embaixadoras da campanha a Duquesa de Cambridge, Kate Middleton, e a atriz Emilia Clarke. Escolher duas pessoas famosas e apaixonadas pela enfermagem foi uma das estratégias adotadas em busca de visibilidade, uma vez que em muitos lugares do mundo, a exemplo do Brasil, nosso papel não tem o devido reconhecimento. O que não esperávamos, é que estaríamos diante de uma pandemia, que mostraria de uma forma bastante cruel que o essencial já não era mais invisível aos olhos.

Com o início da disseminação da covid-19 na China e na Europa, viralizaram as fotos de profissionais que trabalham até a exaustão; ou então com os rostos marcados pelos  Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). Histórias profissionais de enfermagem que arriscam suas vidas para salvar o próximo ou, então, que dormem na varanda de suas casas para não contaminar suas famílias, ultrapassaram fronteiras e, então, um novo cenário se consolidou: o mundo foi para as janelas para aplaudir a nossa categoria.

No Brasil não foi diferente. A pandemia chegou o trouxe um reconhecimento sem precedentes a nós, profissionais de enfermagem. Lamentavelmente trouxe também muita dor e desafios que jamais enfrentamos antes, como a falta de EPIs, entre outros insumos fundamentais; sobrecarga física e emocional e uma nova forma de nos relacionarmos com os pacientes. Tivemos que reaprender a promover o acolhimento e a humanização da assistência em um cenário de isolamento e confortar as famílias que já não sabem mais se voltarão a ver seus entes queridos para além da tela de um celular.

Mas, além de tudo isso, tivemos que encarar de frente uma pandemia enfrentando desafios antigos: a ausência de um piso salarial ou de um adicional por insalubridade, as longas e exaustivas jornadas de trabalho e o esgotamento físico e mental. São condições de trabalho tão essenciais, que não podem mais permanecer invisíveis aos olhos da sociedade e das autoridades.  Enquanto muitos estão em suas casas, cumprindo as políticas de isolamento social, a enfermagem está em seus longos plantões, se arriscando e dando o melhor se si por cada cidadão.

Para apoiar a enfermagem paulista, o Coren-SP, assim que decretada a pandemia, dialogou com o Governo Estadual, Prefeituras, Câmaras e Assembleia Legislativa, sobre a necessidade de ampliar os investimentos em saúde, em prol da segurança dos profissionais. Conquistamos a aprovação de uma emenda, da Deputada Analice Fernandes, para a compra de EPIs, entre outras ações. O Conselho também intensificou suas ações fiscalizatórias e ao detectarmos condições inadequadas para o exercício profissional, acionamos o Ministério Público do Trabalho, para que as instituições de adequem rapidamente. Disponibilizamos um chat, para sanar dúvidas em relação à covid-19 e distribuímos máscaras N95 enviadas pelo Cofen nos hospitais públicos com maior demanda. E, assim, seguimos lutando por melhores condições para o exercício profissional, fator indispensável para que a sociedade tenha acesso a uma assistência segura.

Somos gratos aos aplausos, às reportagens em homenagem à categoria, mas, agora que superamos a etapa da invisibilidade, esperamos e cobraremos a devida valorização e um reconhecimento verdadeiro. Que o Brasil e o mundo não esperem passar por uma nova pandemia para enxergar a importância e as necessidades daqueles que sempre estiveram e estarão na linha de frente.

*Cláudio Luiz da Silveira, enfermeiro, presidente em exercício do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (Coren-SP)

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