Energia sustentável, a voz da produção

Energia sustentável, a voz da produção

Daniela Coutinho*

26 de outubro de 2021 | 07h25

Daniela Coutinho. FOTO: DIVULGAÇÃO

A indústria brasileira tem hoje sua competitividade fortemente afetada pelo custo da energia elétrica. Perdem os brasileiros com o aumento dos custos dos produtos que compram e com a redução de investimentos, empregos e do pagamento de impostos. Estamos caminhando em direção a desindustrialização. Nos últimos 10 anos, a indústria nacional caiu de uma contribuição com o PIB Nacional de 27% para os atuais 22%, uma redução de 18% (5pp). Os elevados custos da energia para produção industrial explicam parte deste estrago. Como chegamos nesta ineficiência? Basicamente devido à explosão dos encargos setoriais e diversos subsídios dentro do setor.

Por exemplo, neste momento de crise hídrica, onde estamos com termoelétricas a diesel e a gás natural ligadas diariamente para preservar água nos reservatórios, o custo da operação explodiu. E esse custo é suportado por todos os consumidores que pagam o encargo chamado de Encargo de Serviços do Sistema (ESS). Apenas ele já totalizou, desde outubro/2020, R$ 16 bilhões. Esse ano, devemos ultrapassar a inédita barreira dos R$ 20 bilhões em custos extras. Mesmo assim, os reservatórios de água devem chegar ao final deste período de chuvas em níveis muito baixos na região Sudeste. Ou seja, o alto custo de toda essa operação deve ser transferido para 2022.

Também para o próximo ano estimamos que outro encargo setorial, a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), o maior do setor, deve atingir um novo recorde – R$ 29 bilhões. Os custos somados desses dois encargos que estão na conta de luz chegam a R$ 49 bi. É como se cada brasileiro pagasse 230 reais por ano, só de encargo. Sem contar os impostos. Essas distorções são pagas duplamente, porque contaminam os preços de produtos e serviços.

Neste cenário desafiador e, no contexto da transição energética, a agenda da sustentabilidade é cada vez mais dominante no mundo industrial. O ESG (meio ambiente, social e governança) está no dia a dia mais presente nas empresas. Mas é importante o alinhamento entre os valores da empresa e o valor da empresa, ou seja, as ações de ESG estarem conectadas com os resultados empresariais. As empresas estão atentas e viabilizando projetos de eficiência energética, mas também estão acelerando seus investimentos na contratação de energia renovável, contribuindo para construção de novos parques eólicos ou solares.

Também estão buscando alternativas de mercado para ter acesso ao gás competitivo do pré-sal, permitindo uma transição energética capaz de gerar empregos e contribuir para o desenvolvimento do país de forma sustentável. Nesta transição, e pensando no setor elétrico, entendemos ser fundamental a redução dos subsídios e dos encargos com a valorização dos atributos das várias fontes de energia e a correção dos preços para buscar a verdadeira sustentabilidade.

E essa sustentabilidade precisa ser sistêmica. Não é o caminho ideal quando a produção de energia solar ou eólica promove e transfere a outros consumidores a contratação de geração termelétrica, para firmar seu consumo. Há modelos melhores de sustentabilidade sob o ponto de vista social, econômico e ambiental. O ideal é que a regulação estimule e o sistema ofereça soluções de mercado inteligentes. Essas soluções vão combinar a participação ativa dos consumidores, através de mecanismos como a reação da demanda, o uso de baterias e a combinação das fontes renováveis, especialmente solar, eólica, e o uso inteligente dos reservatórios.

Com isso os contratos de energia realmente serão utilizados de forma correta, como proteção à volatilidade dos preços dos consumidores contratados, protegendo o custo final de produção, dando previsibilidade a toda a cadeia produtiva para uma solução realmente eficiente sob o ponto de vista de país. Uma realidade esperada com a reforma estrutural do setor que considere a valorização dos atributos das fontes e a correção das gravíssimas distorções do sinal de preço.

A reforma do setor elétrico é importante demais para ser vista apenas como um problema do próprio setor e de sua cadeia produtiva. Os consumidores, para os quais o sistema existe, especialmente os que precisam da energia para produzir, devem ser ouvidos e participar ativamente das discussões. O Brasil é o país da energia renovável. E, também, poderia ser o país da energia barata. Nossa matriz energética é um enorme diferencial às nossas indústrias quando comparado ao resto do mundo. Temos a capacidade de exportar minério de ferro, aço, alumínio, carro e diversos outros produtos verdes, sustentáveis, sendo inclusive um exportador de créditos de carbono ao futuro mercado internacional que deve florescer nos próximos anos com a transição energética.

*Daniela Coutinho, vice-presidente e diretora de Relações Institucionais e Comunicação da Associação dos Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (ABRACE)

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