Enem Digital: mais desafios que possibilidades?

Enem Digital: mais desafios que possibilidades?

Ademar Celedônio*

22 de outubro de 2019 | 16h00

Foto: Acervo Pessoal

Sugestão de anos atrás. Realidade a partir de 2020. O Ministério da Educação anunciou recentemente que no próximo ano começará a ser aplicado o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) digital, uma versão virtual e, em tese, mais inclusiva e dinâmica que a impressa, existente desde 1998. A intenção é que, em 2026, todos os estudantes que queiram entrar na universidade pelo Sisu façam o ENEM Digital. Algo não incomum no nosso mundo cada vez mais conectado, repleto de possibilidades, como também de desafios e problemáticas.

O ENEM Digital segue uma tendência mundial. Países com exames de acesso ao Ensino Superior de larga escala, como a China, com o seu Gaokao, e os Estados Unidos, com o SAT, já usam versões digitais. Novidade? Não! Quem está fazendo ENEM a partir deste ano já nasceu imerso em tecnologia, o letramento digital foi um processo muito mais fácil do que o nosso.

Esse formato pode ser mais barato que imprimir e distribuir 12 milhões de provas para todo o país, apesar de que a operação digital também envolverá uma série de custos. Com uma versão em ambiente virtual e um sistema suficientemente inteligente, pode-se reduzir também a quantidade de questões, pois o aluno não precisaria responder a todas as 180 questões para demonstrar sua proficiência nas áreas. Além de também permitir a aplicação mais de uma vez ao ano, aumentando as possibilidades para o aluno.

Outra facilidade que pode vir com o ENEM Digital é a mensuração dos dados, o que acarreta em ganho de tempo. Porém, ao fazer isso, é preciso ter cuidado redobrado no armazenamento e compartilhamento dessas informações. O ENEM já viveu casos de provas vazadas; hoje em dia, vazar conteúdos digitais não é uma tarefa difícil. A divulgação imatura em fontes não oficiais compromete a credibilidade do exame e impacta a vida de milhões de alunos.

Por outro lado, a acessibilidade ainda não é uma primazia no nosso país. Vivemos em uma nação com um território imenso e inúmeras desigualdades sociais. Infelizmente, a internet não chega a todos. Temos um problema de acesso. Falamos em uma juventude nativa digital, mas há um asterisco aí. O aluno da rede privada, em tese, tem acesso mais fácil à rede, logo terá mais possibilidades que o aluno da rede pública, que, em muitos casos, tem quase nenhum contato com internet devido à sua condição social. O desafio do governo é fazer, de fato, um ENEM para todos.

Até 2026, teremos as versões virtual e digital andando lado a lado. O que vai ser uma grande dor de cabeça para o realizador do ENEM, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP). Como garantir a isonomia do exame se as notas de ambos não forem confiáveis? Serão formas diferentes de correção em formas diferentes. Garantir a efetividade da Teoria de Resposta ao Item (TRI) não é suficiente, pois a “reação” das pessoas no formato físico é diferente da “reação” no formato digital, e isso pode influenciar no comportamento da questão.

O INEP foi prudente ao começar com a aplicação apenas 50 mil alunos, menos de 1% do total de inscritos. Então, uma boa estratégia para a validação das questões seria uma pré-testagem em ambos os formatos, ou aplicar a versão digital de 2020 apenas para treineiros.

O MEC tem apenas seis anos para concluir esse grande e audacioso processo de digitalização de um exame que impacta milhões de alunos de todo o país. Os desafios são diversos e complexos: acessibilidade, seguridade das informações, definição dos processos de aplicação, validação dos resultados. Ainda há muito que se fazer e muito a se estudar, avaliar, pensar e repensar sobre as melhores formas de levar a Educação brasileira a outro patamar.

Professor de Matemática, autor de material didático e Diretor de Ensino e Inovações Educacionais do SAS Plataforma de Educação*

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