Endometriose, a doença da mulher moderna

Endometriose, a doença da mulher moderna

Maurício Abrão*

13 de abril de 2021 | 04h00

Maurício Abrão. FOTO: DIVULGAÇÃO

Realidade para cerca de 10 a 15% das mulheres no mundo, a endometriose afeta mais de 7 milhões de brasileiras e o diagnóstico pode levar de 7 a 12 anos. A condição pode causar dores abdominais (muitas vezes incapacitantes), dores durante as relações sexuais e cólicas intensas. A doença é a principal causa de dor pélvica , infertilidade feminina, abstenção feminina no trabalho e perda de qualidade de vida das mulheres.

Considerada benigna, a doença é caracterizada pelo crescimento indevido e migração do endométrio, o tecido que reveste o útero, para outros órgãos na região abdominal. Essa migração pode afetar os ovários, intestinos e bexiga. A condição pode ocorrer pelo maior número de menstruações da mulher moderna,  por distúrbios imunológicos, influência hormonal e outras questões.

A doença está muito relacionada ao estilo de vida. Fatores como a exposição ao estresse, maior número de ciclos menstruais devido ao menor número de filhos, além do adiamento da gravidez para idades mais avançadas, fazem com que a endometriose seja conhecida como a “doença da mulher moderna”.

Infelizmente, a realidade para o diagnóstico e tratamento da Endometriose no Brasil e no mundo ainda é complexa.  O diagnóstico leva, em média, 7 anos a partir do primeiro sintoma, em grande parte por conta do desconhecimento da doença e falta de treinamento médico adequado.

Infelizmente a cirurgia exploratória invasiva como instrumento diagnóstico e terapêutico ainda é amplamente aplicada. Essa prática implica na execução de procedimentos mais complexos e passíveis de complicações, além de longas filas de espera e maior impacto negativo para a paciente e para a economia de saúde.

Entretanto, esse panorama vem ganhando novas perspectivas nos últimos anos.          O diagnóstico da endometriose hoje já pode ser realizado de forma não invasiva, podendo ser confirmado por exames de imagem, como ultrassom transvaginal especializado e ressonância magnética. O ultrassom para mapeamento da endometriose, desenvolvido pelo nosso time, tornou-se referência mundial e apresenta taxas de assertividade superiores a 95%.

O planejamento terapêutico, seja ele clínico ou cirúrgico, segundo um estudo do nosso time de pesquisadores do Hospital das Clínicas da USP e do Hospital BP,  também pode estar passando por uma revolução. Desenvolvemos um algoritmo para o diagnóstico e planejamento cirúrgico através de exames de imagem. Concluímos que este método pode sim substituir a laparoscopia diagnóstica.

O protocolo visa a desenvolver uma estratégia cirúrgica individual e personalizada, reduzindo os efeitos colaterais e minimizando a necessidade de novas cirurgias complementares, como é comum acontecer nos quadros de endometriose.

Há vários estudos em andamento sobre o tratamento clínico da doença, e esperamos grandes novidades para os próximos anos. E as técnicas cirúrgicas minimamente invasivas melhoraram muito. O uso do laser por exemplo tem ajudado muito mulheres a preservar a reserva ovariana. Por isto é fundamental que o tratamento seja feito por especialistas.

A intensificação das pesquisas clínicas e acadêmicas fixa seu norte em direção ao aumento do bem estar das mulheres portadoras da Endometriose, buscando diminuir os efeitos nocivos e ampliar a oferta de tratamentos de amplo acesso. Pensar na Endometriose, hoje, é trabalhar para promover a independência feminina e proporcionar qualidade de vida. As inovações diagnósticas e o tratamento integrativo tem melhorado e muito a qualidade de vida das mulheres.

*Mauricio S. Abrão, professor associado pelo Departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Coordenador do Serviço de Ginecologia do Hospital BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo. Vice-President AAGL – Associação Americana de Cirurgia Laparoscópica. Editor-in-Chief, JEPPD – Journal of Endometriosis and Pelvic Pain Disorders

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