Encontrar-se na crise

Encontrar-se na crise

José Renato Nalini*

11 de março de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

Para muitos, pode parecer surreal o momento em que vivemos. A peste levando vidas preciosas. O pânico alarmando grande parte. Outra parcela negacionista, na suicida teimosia de achar que o vírus é só para os outros. Os números crescendo, as mentiras e críticas também. Ódio exacerbado nas redes sociais. Quanta gente a perder tempo para detonar reputações.

As pessoas mais sensíveis e que não frequentam o mundo eletrônico estão apavoradas. Consideram-se incapazes de enfrentar os problemas potencializados e agravados. Tudo está além de suas forças. A impotência é uma sensação generalizada. É como estar completamente só, num planeta com sete bilhões de semelhantes.

Nem sempre há possibilidade de se recorrer a profissionais da psique, embora as ofertas se multipliquem nestes tempos sombrios. O controle de estados de angústia e de ansiedade pode ser feito mediante exercícios mentais de quem consegue se propor uma eficiente autoajuda.

Todos os problemas têm sua dimensão reduzida, quando comparados com a vastidão do universo. Somos seres frágeis e finitos, num pequeníssimo planeta, de um modesto sistema solar, minúsculo considerado o cosmos.

Mas é aqui que vivemos. Aqui temos nossos amores, nossas decepções, aqui enterramos nossos seres queridos, aqui temos outros tantos seres amados pelos quais nos preocupamos.

A leitura é um prazer terapêutico. Ler aquilo que nos anima. Aquilo que nos incentiva. Não é necessário atender àquela obra destinada a ser muleta, para nos auxiliar na caminhada. Imensa a oferta de excelentes livros. Narrativas de viagem, biografias e autobiografias, história revista sob todos os ângulos. Romances, contos, livros de humor. Belíssimas ilustrações em caprichadas edições.

Quem lê, nunca está sozinho. Também nunca se desespera. O problema é que supervalorizamos os nossos espinhos, nos envolvemos excessivamente com os acontecimentos de uma fase dramática da humanidade, aquilo que era minúsculo vai crescendo. Torna-se gigante. O transitório se converte em permanência. Não há condições de enxergar perfeitamente o todo: o surrado exemplo de quem enxerga a árvore e não consegue vislumbrar a floresta. O que poderia ser assimilado e reduzido à sua exata proporção, passa a tomar conta de nosso pensamento.

Entretanto, para derivar o pensamento para outras paragens, não custa lembrar que enquanto estamos aqui sentados ou deitados, estamos a viajar pelo espaço interestelar a uma velocidade de 11,20 quilômetros por segundo. É a velocidade do movimento do planeta Terra e de todo o sistema solar, incluindo o sol. Estrela de meia-idade na periferia da Via Láctea, a galáxia que nos foi reservada. Uma pequena estrela perdida entre mais de cem bilhões de outras estrelas que a compõem.

Quantas são as galáxias que podem se comparar com a Via Láctea e que ainda não conhecemos? Cada uma delas integrada por bilhões de estrelas que podem ter outros planetas em sua órbita. Já se disse que “se apenas um décimo de milésimo de um por cento desses planetas abrigar uma civilização tecnológica (e essa parece ser uma estimativa bastante prudente), o universo deve fervilhar com mais de cem trilhões de civilizações”.

Dá para pensar, nessa dimensão, qual o significado de nossas preocupações? Somos o suprassumo do Universo?

Universo, que Pasquale Ionata decompõe em “um” e “verso”, lembra o verso de uma poesia ou de uma canção. O Universo é uma canção única. Somos minúsculas notas individuais, mas não podemos desafinar. Victor Hugo escreveu: “Onde termina o telescópio começa o microscópio. Qual dos dois oferece a visão mais majestosa?”.

Somos uma reprodução microscópica do Universo. Assim como os bilhões de estrelas no macrocosmo, o nosso microscópio metafórico nos prova termos bilhões de células no organismo de um único corpo. Ele está repleto de formas vitais, necessárias para nos manter vivos. Mas também recebe o coronavírus, que encontra campo fértil para se transformar e nos fazer adoecer.

A solidão deve nos convencer de que não estamos sozinhos. Há um símbolo invisível que nos liga, uns aos outros. 3 palavras em inglês o dizem com perfeição: “alone” – sozinho e “all one” – todos juntos, só estão separadas por uma letra a mais: um “l”. É exatamente o “l” de love, o amor de que o mundo tanto carece.

Quem se convence da imensidão do Universo, da insignificância de nossas angústias, da grandeza de nossa mente, a abarcar ou a ansiar pelo desvendar dos mistérios que ainda não nos foram revelados, reformulará a sua visão pessimista. E procurará responder às questões aparentemente irrespondíveis: “por que nasci?” “o que estou fazendo aqui?”, “para onde irei quando partir definitivamente?”.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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