Empresas têm de participar

Empresas têm de participar

José Renato Nalini*

12 de maio de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Há muito tempo o empresariado já se convenceu de que o negócio da empresa não pode ser exclusivamente o lucro. Lucro é legítimo e é o que justifica o empreendimento da iniciativa privada. Mas a empresa sofre as consequências da incompetência na gestão da coisa pública e tem não apenas o direito, mas o dever de participar, no sentido da correção de rumos ou de atendimento às políticas essenciais ao adequado desenvolvimento da sociedade.

Essa missão fica ainda mais significativa quando qualquer esfera de governo se afaste do que seria o bem comum e persiga interesses personalísticos ou desvinculados do que seria o melhor para todos.

O capital não aguenta desaforo e, quando ameaçado, precisa reagir. Aqui no Brasil houve reação dos três maiores bancos, naturalmente concorrentes, mas que se irmanaram para pedir atuação firme na tutela ambiental da Amazônia.

Perceberam os banqueiros que o Brasil se tornara o “pária ambiental”, quando anunciou que “soltaria a boiada” para a flexibilização de toda a regulamentação, lentamente elaborada durante décadas, a refletir uma necessária proteção à natureza.

No momento em que o país necessita do capital internacional, é totalmente ridículo que se passe um atestado de retrocesso na defesa de um patrimônio que não foi construído por ninguém. Mas que está fatalmente destinado a desaparecer, se prevalecer a política de impunidade, com incentivo a grileiros, destruidores de floresta, invasores de áreas indígenas e reservas protegidas, exploradores de garimpos ilegais.

O estímulo a que a Floresta Amazônica fosse exterminada foi bem compreendido e melhor atendido pela delinquência apadrinhada por quem deveria cumprir a lei. E a lei brasileira foi muito bem elaborada: prevê um ambiente saudável, essencial à qualidade de vida digna das atuais e das futuras gerações.

A empresa foi a instituição que mais sofreu no século XX, com governos despreparados, imprevisíveis, ávidos de tributar e sobrecarregar o empreendedor com o mais iníquo fardo fiscal. Sobreviveu e não pode ver os esforços de gerações menosprezados e condenados a se esvair, porque o governo federal não percebe a reação da comunidade estrangeira e continua a proceder de maneira desequilibrada e totalmente desprovida de sensatez.

O conceito ESG – Ambiente, Redução das Desigualdades e Governança Corporativa – existe exatamente para fazer com que o empresariado lúcido se compenetre de sua responsabilidade sustentável no Brasil tão necessitado de lucidez e coerência.

Não é suficiente perseguir os objetivos da companhia, sem cuidar de recuperar áreas degradadas. Insuficiente brecar o desmatamento. O estrago feito já é fatal. É urgente reflorestar, fazer o replantio das terras dizimadas. Obrigar o governo a cumprir a lei.

Engana-se quem diz que o estrangeiro afeta a soberania nacional. Na verdade, o que a comunidade internacional quer é que o Brasil cumpra suas obrigações. É infame pretender cobrar dos Estados Unidos para honrar deveres estabelecidos em lei. Parece surreal a cobrança feita recentemente, como se a observância do regramento justificasse pedir esmola para um país rico.

A redução das desigualdades também precisa estar na mira dos empresários. A pobreza prejudica o desenvolvimento do país e uma nação subdesenvolvida não é bom mercado. Interessa ao próprio negócio fazer com que haja um saudável desenvolvimento do mercado interno. Promovendo educação de qualidade, implementando projetos de capacitação profissional. Integrando à vida digital a legião dos analfabetos da informática.

Por fim, a governança corporativa é uma filosofia que apoia fórmulas inteligentes de se administrar a empresa, com estratégias exportáveis para o setor público. Tudo o que o Estado faz diretamente, quase sempre é mais dispendioso, mais demorado, menos eficiente e convive com a suspeita de malversação de recursos da população.

A empresa tem de transferir para todas as esferas da administração a sua expertise. Assumir os encargos estatais que podem ser atribuídos à iniciativa privada. Menos Estado, mais eficiência. É lembrar o que muito empreendedor já cansou de dizer neste Brasil de descaminhos: se o governo não atrapalhar, a iniciativa privada consegue atingir os seus objetivos, que coincidem com aqueles pelos quais a população anseia.

Empresários: participem da vida brasileira em todas as suas esferas. O bem da sociedade não pode estar à mercê de política equivocadas, erráticas e inconsequentes.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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