Empresas somem do mapa, mas a culpa não é da pandemia

Empresas somem do mapa, mas a culpa não é da pandemia

Amin Murad e Marcus Vasconcellos*

18 de março de 2021 | 03h15

FOTO: TIAGO QUEIROZ/ESTADÃO

Mais 1 milhão de empresas fecharam as portas no Brasil em 2020, segundo dados do próprio Ministério da Economia[1]. Numa leitura rápida, o resultado pode ser interpretado como efeito nefasto da pandemia do novo coronavírus.

Porém, o fechamento e os pedidos de recuperação judicial de empresas, ano passado, tiveram quedas de 11,8% de 15%, respectivamente. Foram 1.179 RJs, entre janeiro e dezembro de 2020, contra cerca de 1,4 mil anuais, em média, entre 2017 e 2019, e 1,04 milhão de fechamentos de empresas em 2020, contra 1,18 milhão em 2019. O pico dos fechamentos, aliás, deu-se em janeiro (111 mil). Com abril registrando o menor número mensal (58,6 mil), uma nova alta em julho (92,7 mil) e, daí, regredindo gradualmente para fechar dezembro com 85,4 mil.

A crise sanitária também está longe de explicar por que apenas uma em cada quatro companhias consegue cruzar a barreira dos dez anos de existência no Brasil.

Muitos dirão que vivemos num país onde o custo de manter as portas abertas é elevado, os impostos são altos e de complexa administração, a mão de obra tem encargos excessivos… Tudo verdade. Mas o desaparecimento das companhias exige reflexão mais profunda.

Hoje, em muitas cidades, é possível obter o registro de uma empresa em até duas horas. Mas o que vai garantir que um pequeno negócio ou uma grande empresa sobreviva e se mantenha saudável?

Uma empresa saudável tem processos bem definidos, pessoas treinadas e metas claras e conhecidas por todos. É fundamental planejar, medir resultados de forma consistente e regular, ter visão de futuro e estar sempre atento às mudanças: novas tecnologias, novas regras de mercado, alterações tributárias. Ter um olho dentro e outro fora da companhia – e sensibilidade para corrigir rumos.

É muito comum ver empresas, de diferentes setores e tamanhos, desperdiçarem as chances de ler os sinais de que algo não vai bem, de que a empresa está em risco. Como no nosso corpo, eles nos avisam de algo maior que pode ser evitado: um pedido de venda perdido, uma queixa de cliente ignorada por algum tempo, falta de produtos na prateleira, maus fornecedores, ambiente tóxico entre os profissionais, desperdício etc. São alguns dos sintomas que, muitas vezes, passam despercebidos, e é por onde muitas empresas começam a sangrar devagar.

São pequenos problemas que, se não enfrentados de maneira firme, drenam recursos e minam as bases de uma companhia sólida ou daquele empreendimento que até então era considerado bem-sucedido. É péssimo quando sócios e executivos passam a olhar de forma complacente para esses “desvios”. Muitos só se dão conta da gravidade da situação quando os reflexos são sentidos no caixa, instalando-se uma verdadeira hemorragia. Nessa hora é comum culpar a conjuntura ou novos concorrentes.

Se a empresa chegou ao ponto de exigir medidas drásticas é porque outras, inclusive mais brandas, não foram adotadas antes. A conta chega e geralmente exige remédios mais amargos, como redução de atividades e postergação de investimentos.

É preciso exercício crítico e constante dentro de casa. Para sobreviver, a empresa precisa estimular um ambiente franco de troca de opiniões e incentivar o contraditório.

Quando falamos de empresários ou empreendedores com um negócio recente a partir de uma ideia inovadora ou da descoberta de um nicho de mercado, o pecado mais comum é ficar inebriado com o sucesso inicial, esquecendo-se de que ele pode ser efêmero. O melhor é fazer seu planejamento, definir suas metas e acompanhar resultados.

Um passo importante é escolher os indicadores corretos, que permitirão fixar as metas do planejamento estratégico. Quem não dispõe de bons indicadores calcula mal e toma decisões erradas.

Quer se manter no mercado e crescer? O melhor a fazer é estabelecer padrões de produção, manter uma equipe treinada nos processos, engajada e assegurar o rigor do planejamento e o cumprimento dos planos de ação. Só assim é possível ter maior previsibilidade nos resultados, reduzir perdas, racionalizar custos e aumentar a produtividade.

Enfim, não há fórmulas mágicas que garantam o sucesso duradouro de um negócio. É preciso muito suor, trabalho e olhos e ouvidos atentos para não perder a sensibilidade aos menores sinais de que há algo errado. Isso vale para a nossa saúde física e das empresas. Uma atitude corajosa hoje evita o pior amanhã.

*Amin Murad e Marcus Vasconcellos, sócios da ARM Gestão

[1] https://www.gov.br/economia/pt-br/centrais-de-conteudo/apresentacoes/2121/janeiro/ppt-boletim-do-3o-quad-2020.pdf

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