Empresas, covid-19 e capitalismo humanista

Empresas, covid-19 e capitalismo humanista

Wagner Balera*

27 de abril de 2020 | 07h00

Wagner Balera. FOTO: DIVULGAÇÃO

Se é que existe algo de novo na globalização, não será demais ressaltar a necessidade urgente que lhe cumpre buscar a própria e necessária ética.

Aliás, já advertira a Organização Internacional do Trabalho, num dos mais importantes documentos que já produziu em sua centenária história – Declaração da OIT sobre a Justiça social para uma Globalização Equitativa, de 2008 – que a interdependência, a solidariedade e a cooperação entre todos os atores sociais são mais pertinentes que nunca, no contexto de uma economia globalizada.

Tudo, na sociedade de risco, inclusive e notadamente como estamos assistindo agora, o risco de uma pandemia de grandes proporções, se comunica com velocidade drástica e surpreendente.

A ética exige que a interdependência, a solidariedade e a cooperação se mostrem em perspectiva pragmática sobretudo nas situações extremadas. Nelas, a solidariedade se sobrepõe ao ânimo de lucro, que é natural e legítimo no ambiente empresarial. Nelas, a interdependência ocupa posição central porque agrega conhecimentos e une esforços na busca do objetivo básico do bem comum. E, por fim, a cooperação lança raízes e alianças que, no futuro, permitirão que outras sinergias influenciem o desenvolvimento econômico e social.

Pois bem. Estavam fechadas as portas da fábrica de componentes da General Motors em Kokomo (Indiana), no Nordeste dos Estados Unidos. E, de repente, o acaso do destino quis que o mundo, e particularmente os poderosos Estados Unidos, fossem atingidos pelo vírus de periculosidade brutal.

E, nesse instante, as misteriosas engrenagens do capitalismo humanista passaram a operar em plena velocidade.

Atendendo às exigências da pandemia, menos de dois meses após o registro do primeiro caso em solo norte-americano, mas quase ao mesmo tempo em que os EUA atingiam a triste pole position no número de mortos em todo o mundo, foram reabertas as portas da fábrica de Kokomo e, em parceria com uma fábrica de ventiladores (componente essencial no tratamento da moléstia) a gigante automobilística passou a servir à causa da vida.

Valendo-se de sua rede de fornecedores de peças de automóveis, a GM contratou essas empresas para o fabrico de peças de ventiladores.

E, de lá onde antes saíam as peças que poderiam equipar o legendário Cadillac, passam a ser construídos os vitais instrumentos de respiração de pacientes em estado crítico, que precisam ser entubados, na mais dramática situação de suas vidas.

O capitalismo humanista exige que o interesse privado, representativo da liberdade econômica, ceda passo e que a função social da propriedade se perfile, em consubstancialidade quântica, com o interesse público na defesa do primeiro direito humano: o direito à vida, e vida em plenitude.
Dos mil ventiladores por mês que representavam a capacidade produtiva máxima do parceiro, a presença no esforço humanitário da GM fez saltarem para trinta mil peças

que, em curto espaço de tempo, serão entregues ao United States Department of Health & Human Services para atender às exigências de milhares – já são quase novecentos mil afetados e mais de quarenta e oito mil mortos no momento em que está sendo escrito este texto – de vidas humanas.

É do sincronismo do Humanismo com o Capitalismo que resulta essa iniciativa promissora e meritória. Busca debelar a pandemia, garantir vida e saúde a todos, com respeito à economia de mercado e sob o signo da justiça social.

Indagado por que entrara no projeto, um dos empresários envolvidos não vacilou e respondeu: “… recebi as notícias da semana passada e tive que mudar meus recursos do que posso fazer para me manter à tona, para o que devo fazer para ajudar a salvar vidas.”

Essa mudança de perspectiva deve ser perene. Nela confia o capitalismo humanista.

*Wagner Balera, professor titular de Direitos Humanos da PUC-SP. Autor, juntamente com Ricardo Sayeg, do livro Fator CapH: Capitalismo Humanista a Dimensão Econômica dos Direitos Humanos (São Paulo, Max Limonad. 2020)

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