Empresário envolvido em tiroteio entre policiais diz que pediu ‘empréstimo’ a doleiro

Empresário envolvido em tiroteio entre policiais diz que pediu ‘empréstimo’ a doleiro

Flávio Guimarães afirmou, em depoimento à Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, que não queria trocar dólares por moeda nacional e ainda negou que a transação tivesse relação com 'caixa dois eleitoral'; policiais são investigados por darem escolta aos envolvidos na transação apontada como ilícita

Marcelo Godoy e Luiz Vassallo

23 de outubro de 2018 | 06h00

Reprodução do termo de depoimento de Guimarães

O empresário Flávio Guimarães, envolvido em tiroteio entre policiais mineiros e paulistas, afirmou nesta segunda-feira, 22, ter sido vítima de um ‘golpe’ após pedir um ‘empréstimo’ ao doleiro Antônio Vasconcelos. Em depoimento à Corregedoria da Polícia Civil de São Paulo, ele negou que iria trocar dólares pelos R$ 15 milhões que lhe foram oferecidos pelo doleiro e que eram compostos, em parte de notas falsas. O empresário ainda negou que a operação tenha ligação com caixa dois para campanhas políticas.

Documento

De acordo com as investigações, Guimarães contratou policiais militares de São Paulo para acompanhá-lo em uma transação financeira em Juiz de Fora (MG), neste domingo, 21. O negócio envolveria a troca de dólares por R$ 15 milhões com o doleiro Antonio Vasconcelos. Inicialmente, o empresário e os seguranças efetivariam a operação no lobby de um hotel. No entanto, após a demora de Vasconcelos, Guimarães chegou a dispensar cinco policiais que o escoltavam para que voltassem a São Paulo.

Ele recebeu, então, uma ligação, no mesmo dia afirmando que o negócio seria realizado em um estacionamento.  No local, o doleiro teria oferecido as notas de R$ 100 que preenchiam o porta-malas de seu carro. Imagens de câmeras instaladas no local mostram que Vilela tentou segurar o empresário Guimarães e Jerônimo da Silva Leal Júnior, dono da empresa responsável pela escolta, reagiu, iniciando o tiroteio que matou o investigador mineiro Rodrigo Francisco.

Policiais mineiros são investigados por supostamente terem dado escolta ao doleiro.

Guimarães alegou à Corregedoria da Polícia ser ‘presidente-executivo do Grupo AJC, voltado para o mercado de engenharia’, que estaria passando por ‘dificuldades financeiras’.

O empresário diz ter ouvido falar em Antônio Vasconcelos como um empresário que ‘realizava empréstimos para empresas em forma de Fundos de Investimento Creditório’. Ele afirma ter sido autorizado por seus superiores no Grupo AJC para negociar com Vasconcelos.

Em depoimento, alegou ter entrado em contato com Vasconcelos, inicialmente, por meio de um ‘empregado’ chamado Sérgio Pestana. “Tal contato se deu através de telefone, não possuindo o número no momento, mas se comprometendo a informar no prazo de 72 horas”.

“Nessas tratativas, discutiram sobre a forma de garantia que seria ofertada, sendo que a empresa não possuía condições de ofertar garantia em moeda ou fiança bancária, restando garantia real (imóveis), sobre o que inclusive foi elaborado uma minuta de contrato de mútuo em Minas Gerais”, consta, no termo de declarações.

Ele afirmou que chegou a convidar Vasconcelos e seu funcionário para fechar o negócio em São Paulo, mas o doleiro teria se recusado sob a alegação de que ‘as informações enviadas eram suficientes para qualificação da empresa, visando contrato’. O empresário diz que Vasconcelos o pediu para que fosse até Minas Gerais para ‘prosseguir as tratativas’.

Ele diz ter ido a Juiz de Fora acompanhado do advogado da empresa, Mario Gacia Júnior, e do diretor Roberto Uyvari Júnior. Guimarães afirmou que a empresa de Jerônimo da Silva Leal Júnior já prestava serviços de segurança para o grupo AJC.

Segundo o depoimento do empresário, R$ 30 mil foram pagos ao dono da empresa de segurança para garantir a escolta na ida a Juiz de Fora. Sua secretária teria feito as reservas dos executivos e dos seguranças em hotel da cidade mineira. Ele alega não conhecer os outros agentes envolvidos.

Ele negou ter transportado ‘qualquer quantia de dinheiro em moeda estrangeira e nacional, nem mesmo dólares americanos, visando fechar qualquer negociação em Juiz de Fora’.

Ele afirmou, em depoimento, que temia, ‘por exemplo, sofrer algum sequestro, esclarecendo que essa foi a primeira oportunidade em que cuidou de realizar pessoalmente uma negociação daquela modalidade (mútuo)’.

Chegando ao hotel, Guimarães afirma que ‘telefonou para Sérgio Pestana, que compareceu pouco tempo depois’. O encontro teria ocorrido por volta de meio dia. Algum tempo depois, Antonio Vasconcelos chegou, segundo Guimarães.

O empresário disse que ‘tinha o objetivo de obter o empréstimo de algo entre seis e oito milhões de reais junto a Antonio Vasconcelos, que se dizia empresário do mercado agropecuário e imobiliário, possuindo fazendas em Goiás e um escritório nas proximidades do hotel’.

Em meio às negociações, o executivo disse que afirmou ao doleiro a necessidade de consultar seus superiores na AJC. Já Vasconcelos teria alegado que precisava checar a disponibilidade do montante para o empréstimo.

A reunião teria sido encerrada e, com a demora da resposta do doleiro, Vasconcelos chegou a dispensar parte da escolta. Perto da saída para o aeroporto, quando acreditava que a transação não mais ocorreria, afirmou ter recebido uma ligação de Sérgio Pestana, que o pediu para que fosse até o escritório do doleiro.

Eles afirmou ter ido até o estacionamento onde o tiroteio foi desencadeado. “Chegando ao elevador, Antonio Vasconcelos puxou o declarante, dizendo que não estava com a chave do escritório e o levando até um veículo onde estaria a chave, automóvel esse que dizia estar estacionado no local”.

Segundo o termo de declarações do empresário, Vasconcelos abriu o porta-malas, onde havia as malas com as notas de R$ 100 e insistido para que levasse o dinheiro. Guimarães disse ter recusado ‘sob o argumento de que não fora aquele o combinado contratualmente, entrando em pânico’.

“Nesse momento, Sérgio tentou impedir a saída do declarante, que dele se desvencilhou, buscando o elevador como saúda, enquanto Jerônimo sacava sua arma de fogo e abordava Antônio Vasconcelos, estando o Dr. Rodrigo no mesmo local, deixando o declarante todos para trás e retornando de imediato para o hotel”.

Ele alegou não ter ouvido tiros, e também disse que não fugiu da ocorrência, e que apenas voltou a São Paulo. Ainda afirmou não ter visto os demais seguranças no local.

Guimarães disse ter sido ‘vítima’ de uma ‘emboscada’ do doleiro. “Acredita que o fato de constar vinculado a várias empresas possa ter chamado a atenção dos golpistas”, consta em seu termo de declarações.

Vilela foi ferido no pé, passou por cirurgia, teve alta e foi levado para o presídio de Juiz de Fora.

Os delegados Rodrigo e Bruno e os investigadores Jorge Alexandre e Caio Augusto tiveram a prisão preventiva decretada por lavagem de dinheiro, mas podem responder também por homicídio doloso, prevaricação, sonegação fiscal, quadrilha armada e organização criminosa. Os policiais mineiros Marcelo Matolla de Resende, Leonardo Soares Siqueira e Rafael Ramos dos Santos, foram indiciados por prevaricação, mas ainda é investigado se eles tiveram participação maior no caso.

COM A PALAVRA, O ADVOGADO ANDRÉ MARTINS, QUE DEFENDE FLÁVIO 

“O advogado André Martins, que auxilia o empresário Flávio de Souza Guimarães diante das autoridades para o esclarecimento do golpe sofrido em Juiz de Fora, acompanha a conclusão das apurações sigilosas das Corregedorias das Polícias Civis de São Paulo e Minas Gerais e permanece colaborando com as autoridades para a elucidação dos fatos.”

COM A PALAVRA, O GRUPO AJC

A empresa se manifestou por meio de assessoria de imprensa.

“A empresa AJC Group afirma que seus executivos foram vítimas de uma tentativa de golpe e que está colaborando com as autoridades mineiras e paulistas para o esclarecimento dos fatos.”

COM A PALAVRA, MARIO GARCIA JÚNIOR

O advogado Mário Garcia Junior foi a Juiz de Fora (MG) na última sexta-feira (19/10) a pedido de um cliente, para assessorá-lo na elaboração de um contrato de empréstimo. Não esteve no local das imagens gravadas e só soube da tentativa de golpe contra seu cliente minutos depois do ocorrido. São, portanto, inverídicas as insinuações sobre transações em dólar, o que o advogado está inteiramente à disposição das autoridades para esclarecer.

COM A PALAVRA, FLÁVIO GUIMARÃES E ROBERTO UYVARI

Os empresários se manifestaram por meio de suas assessorias de imprensa.

“Os executivos Flávio de Souza Guimarães e Roberto Uyvari Junior foram vítimas de uma tentativa de golpe aplicada por estelionatários na última sexta-feira (19), em Juiz de Fora (MG).

Ambos são executivos respeitados na área de engenharia e construção e refutam as informações inverídicas veiculadas sobre o fato até agora, como acusações de troca de dólares, o que jamais ocorreu. Flávio Guimarães foi à Polícia Civil de São Paulo nesta segunda-feira (22/10) esclarecer as confusões feitas pelo noticiário. Os executivos estão à disposição das autoridades para esclarecer quaisquer informações.”

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