Empresário do cartel avisa que “sabe das coisas”

Mateus Coutinho

13 de abril de 2014 | 06h00

Massimo Giavina Bianchi, da T’Trans, principal acusado por fraudes nas licitações do sistema metroferroviário, sugere que delator do cartel pedia propinas

Fausto Macedo e Fernando Gallo

O empresário italiano Massimo Giavina Bianchi, acusado de ligação com o cartel metroferroviário que atuou em São Paulo entre 1998 e 2008 – governos Mário Covas, José Serra e Geraldo Alckmin, todos do PSDB – diz que “está muito chateado”. Denunciado à Justiça como diretamente favorecido em 4 de 5 contratos do Metrô e da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), Giavina atribui o cerco da promotoria à sua fama. “Sou famoso. Giavina é o cara que sabe das coisas. E realmente sei!”

Diretor presidente da T’Trans Sistemas Ferroviários ele mira o delator do cartel, Everton Rheinheimer, ex-executivo da Siemens que em 2013 fez acordo de leniência com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). “É um escroto. Ele desceu de paraquedas na Siemens, é muito prepotente.”

Giavina é o primeiro alto dirigente do cartel a reagir publicamente desde que o escândalo foi revelado. Ele sugere que Rheinheimer recebia propina de outras empresas. O indício de que dispõe ele retira de uma pilha de papéis que mantém em seu escritório, no Alto de Pinheiros: a cópia de uma carta do empresário Maurício Memória, da Temoinsa do Brasil, para o delator, datada de 4 de dezembro de 2002. “Vou cumprir na integra o que ofereci”, diz Memória, referindo-se a um pagamento de R$ 1,5 milhão.

A carta, segundo Massimo Giavina, consta de material em posse do Cade, que não confirma e não desmente.
Giavina descreve sua longa carreira, 42 anos no setor, a perseverança para conquistar bons contratos e driblar a resistência dos concorrentes, e quase sempre mostra-se enigmático quando indagado sobre corrupção no setor público. Sorri, como alguém que está mandando um recado.

 

ESTADO: O sr. é o principal acusado do cartel, segundo a promotoria.

MASSIMO GIAVINA BIANCHI: Tô muito chateado. Muito, muito chateado. Eu não tive acesso ainda. Vi três das denuncias na sexta-feira. Um negócio extremamente confuso. Eu não entendi. Acho que o principal cerne da questão é que eu sou famoso, ne? Tenho 42 anos na área. Agora, posição minha em relação a toda essa turma aí é zero. Os caras falam de mim.

 

ESTADO: O sr. é acusado em 4 denúncias da promotoria contra o cartel.

GIAVINA: Estou muito chateado. Eu não tive acesso ainda (às denúncias). Vi três denúncias. Um negócio extremamente confuso. Eu não entendi. Acho que o principal cerne da questão é que eu sou famoso, não é? Tenho 42 anos na área. Agora, posição minha em relação a toda essa turma aí é zero. Os caras falam de mim.

 

ESTADO: Quem fala?

GIAVINA: A denúncia da Siemens. Eu nunca tive uma reunião com o cara (Peter Gölitz, executivo da Siemens)! Ele falou que teve ‘n’ reuniões na T’Trans. O tal de Peter. Nem conheço o cara. Quero acareação com ele. Fizeram tabela… os caras fazem a tabela que quiserem. Está complicado. Quero analisar tudo, detalhes. A denúncia diz que eu fui presidente da Alstom. O que isso tem a ver? Saí de lá para montar a T’Trans.

ESTADO: Quando presidiu a Alstom?


GIAVINA: Fui presidente da Alstom. De 1995 a 1997. Eu comprei a Mafersa. Sempre defendendo o setor, o projeto Brasil Trem Jeito. Aí sou linchado? Estou muito chateado. Muito desgastado. Eu não merecia isso. E a prova disso, que não participo, está muito clara. A prova concreta. Eu não consegui participar de Porto Alegre, os caras fecharam o mercado para mim, não consegui Belo Horizonte. Agora, quando achei um parceiro, não ganhei? Em Santos. Fui buscar na Espanha, grupo alemão! Ué? Eu não fazia parte da turma? Se eu fazia, não estaria servido, como dizem que fui servido em todas as outras? Claro que fui servido nas outras. Por que? Porque tenho preço. Realmente os caras me chamam. A única que consegui participar sozinho eu ganhei. Contra a Alstom e contra a CAF. Foi em Santos, o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos). Sou líder. E ainda há 6 meses eles querendo me tirar na Justiça.

 

ESTADO: Quando foi essa licitação?

GIAVINA: Julho de dois anos atrás, 270 milhões de reais. E eu sou o líder. Agora, de repente não faço mais parte? Porra! A Justiça queria porque queria dar para a CAF. Fomos até a ultima.

 

ESTADO: A que atribui o cerco ao sr?

GIAVINA: Eu sou independente. Eu tenho uma história de alavancar o setor. Fui presidente da Abifer (Associação Brasileira da Indústria Ferroviária). Fui contra os trens espanhóis. Nunca compartilhei isso. Agora, eu preciso dar trabalho para a minha empresa. Uma coisa é você dar trabalho para o seu pessoal. Como a gente fala, o estupro é inevitável, relaxa e goza. Eu preciso dar trabalho para o meu pessoal. Eu quero serviço. Não faço parte de grandes grupos multinacionais. O ‘grande grupo’ T’Trans. Eu faturo R$ 80 milhões/ano! É um milésimo desses caras. Eu sou o grande homem? Para com isso! Podia até me sentir honrado, mas… Dou mil empregos, São Paulo e Rio.

 

ESTADO: O sr. tinha contato com o governador Mario Covas?

GIAVINA: O Covas não podia me ver por causa dos trens espanhóis.

 

ESTADO: Por que o sr. foi contra?

GIAVINA: Tinha uma industria nacional. Acabado de comprar a Mafersa.

 

ESTADO: E ele insistia nos espanhóis?

GIAVINA: Ele era enrolado. Ficou puto da vida.

 

ESTADO: Por que decidiu importar os trens?

GIAVINA: Porque a população precisava de trem e a Espanha ofereceu dar 48 trens de graça, eram usados. Foi uma doação onerosa. Foram reabilitados na Espanha. US$ 2 milhões cada um.

 

ESTADO: O sr. disse que não conhece o Peter Gölitz. E os outros?

GIAVINA: O Orthmann (Jan Malte), o Everton (Rheinheimer), conheço. Faço parte do Simefre, (Sindicato de Materiais Ferroviários), temos reunião com todos os fabricantes. O que você discute numa associação? Como tá o mercado, como tá a indústria nacional, vai participar, não vai participar, etc., É sindicato patronal.

 

ESTADO: Éverton Rheinheimer alguma vez se insinuou para formar cartel?
GIAVINA: Nunca gostei do cara. É um escroto. Ele desceu de paraquedas na Siemens. Muito prepotente, entende? Eu não falava com ele e ele não falava comigo. Houve uma inimizade de cara. Ele falou: não converso com a T’Trans. Vai tomar no…

 

ESTADO: Por quê?

GIAVINA: Porque ele queria falar só com os grandes. Principalmente com a Alstom. T’Trans não. Foi na época que ele substituiu o Marchetti (Nélson Branco Marchetti, executivo da Siemens).

 

ESTADO: Com o Marchetti tinha com contato?

GIAVINA: Por pouco tempo. No sindicato, encontrava em reunião. Eu dizia, não entendo vocês que deixam sair essa concorrência no Rio de Janeiro, sem privilegiar a indústria brasileira, não entendo que vocês e a Alstom não façam um movimento contra isso. Fizeram, falaram com o governador, mas não teve preferência nacional. Quando eu era consultor participei da comissão de análise do Banco Mundial. E na época tinha preferência de 15% para a indústria nacional. E o Rio de Janeiro tirou essa preferência. Está nos estatutos essa possibilidade de preferência de 15%. E no Rio foi tirado. E eu dizia pro Marchetti e pra Alstom: porra, vocês precisam pressionar. Eu não posso participar. O edital não permite eu participar. Se eu fosse vocês brigava por isso. Nunca brigaram. Todas as concorrências do Banco Mundial a partir do Rio foi sem margem de preferência.

 

ESTADO: Rheinheimer falou em cartel?
GIAVINA: Não, não se fala. Tem ata de reunião. É só ir la no Simefre. Esses assuntos não… Se falava do mercado, de ações de financiamento do Banco Mundial, do BNDES. Agora, vou entrar com você, vou entrar com o outro.

 

ESTADO: A que o sr. atribui a denúncia da Siemens em acordo de leniência com o Cade?

GIAVINA: Eu não entendi. Atribuo à situação mundial dela. Está na Veja, foi denunciada em 35 países, não estava denunciada no Brasil. Tomou a iniciativa. Foi multada nos Estados Unidos, 800 milhões de dólares. Na Alemanha fez acordo, 400 milhões,1,2 bilhão. Ela pode pagar, fatura 90 bilhões de euros! Estamos falando de um universo totalmente diferente. Misturar a T’Trans nesse contexto é covardia!

 

ESTADO: Por que o sr. acha que a Siemens coloca a T’Trans na leniência?

GIAVINA: Porque ela precisava acusar as outras. O que a Polícia Federal achou na busca e apreensão? O que achou na T’Trans? Absolutamente nada! Nada que corroborasse esse conluio. Só existem as denúncias da Siemens.

 

ESTADO: Mas o Cade coloca trocas de e-mails na nota técnica…

GIAVINA: Tudo bem que haja…mas tem um e-mail que o Telmo (Porto, executivo da Tejofran) manda para mim e eu respondo: não quero briga. Vai em frente que eu não quero briga. Um e-mail! Só. E tem esse Peter que fala que houve reuniões na T’Trans. Eu quero saber quando! Onde que está escrito isso? E com quem?

 

ESTADO: Se a PF vier buscar o livro de visitas não vai localizar?
GIAVINA: Não vai! Não vai! Nem foi aqui, foi no outro lugar. Pegaram todos os computadores. Tudo. Minha secretaria tem a lista de todos os contratos que tenho. Todas as reuniões que tenho. Pegaram isso aí.

 

ESTADO: Mas a que o sr. atribui a denúncia sobre sua empresa, então?

GIAVINA: Porque sou famoso. Giavina é o cara que sabe das coisas. E realmente sei! Uma coisa é você saber, outra é participar.

 

ESTADO: Do que o sr. sabe?
GIAVINA: Estou no mercado há 42 anos. Você escuta um cara falar, outro cara falar… Você escuta, você está no mercado.

 

ESTADO: Falar do que?

GIAVINA: De tudo. De tudo.

 

ESTADO: De propina?

GIAVINA: Não, de propina não falam comigo. Eles sabem que sou contra isso. Sou conhecido no mercado. Ih, o Giavina é difícil.

 

ESTADO: Mas o sr. acha que existe?

GIAVINA: (silêncio) não sei. Não sei.

 

ESTADO: O sr. disse que a T’Trans não participou do cartel. Pelos documentos apresentados pela Siemens e pelo que foi colhido na busca o sr. acha que o cartel existiu?

GIAVINA: Veja bem…Minha linha é aquela de… qual é a postura ética de T’Trans? Eu não me meto com isso. A T’Trans não está em foco? A Alstom não está em foco? Pega a minha gestão na Alstom! Vê o que tem. Assinei contrato no Metrô de São Paulo, na Supervia, no Chile, em Buenos Aires… vê se tem alguma coisa minha! Antes tem? Tem. Depois tem? Tem. Na minha gestão não há nada.

 

ESTADO: O sr. trabalhou na Alstom de 1995 a 1997. O processo criminal que corre na Justiça, em que a Alstom é acusada de pagar propina para obter um contrato na área de energia, se refere a um aditivo que foi assinado em 1998. Mas esse aditivo era discutido desde 1990.

GIAVINA: Não, não, não. Você está falando dos trens espanhóis?

 

ESTADO: Não, da área de energia.
GIAVINA: Não era a minha área. [MAS]Eu sei tudo sobre isso.

 

ESTADO: E o que o sr. pode contar?

GIAVINA: Nada. Já estou com o saco cheio dessas coisas.

 

ESTADO: Mas o sr. concorda que juridicamente o sr. esta numa situação muito desconfortável? Há 4 denuncias contra o sr. Nenhum executivo tem tantas…

GIAVINA: Totalmente. Porque era 0 dono da T’Trans, então… Eu sou salsinha.Agora, o que tem na T’Trans? O que acharam? Nada! Absolutamente nada.

 

ESTADO: A promotoria fez 5 denúncias e o sr. é acusado em 4. Dos seis projetos quantos o sr. participou?

GIAVINA: De um só. Foi da reforma dos trens. Eu participei de uma licitação. O meu associado participou de todas! E eu sou denunciado e meu associado não é!

 

ESTADO: Quem é seu associado?

GIAVINA: A MPE. Ué! Eu participei de um. E por que de um? Eu fui o que mais fez modernização de trens. Eu tinha preço. Eu estava em uma situação financeira terrível. Não tinha carta de fiança. Me associei com ele. Entregamos no trigésimo dia, às 14hs, a carta de fiança e consultamos a CPTM para saber se podia ter um único fornecedor porque eu não tinha carta de fiança. Se você não tem carta de fiança você vai participar de quantas licitações? De quatro? Vai participar naquilo que você tem chance de ganhar. E no que o cara tem condição de dar 100% de garantia.

 

ESTADO: Na denuncia da linha 5 o promotor diz que a T’Trans participou do consórcio perdedor, o Metrô Cinco.

GIAVINA: … não sozinha. O foco é a T’Trans, mas tem a Ansaldo, a PEM e a T’Trans. E a bucha vem em cima da T’Trans. Porra! Agora, forneci para a linha 5. Se tenho preço, não vou fornecer? Ah, para com isso! Uma coisa é fornecer, outra é fazer parte da zona. Tive reuniões? Logico que tive. Para fazer meu preço. Quem estava na reunião? Meu gerente de proposta. Para fazer a proposta, ver o que os caras queriam. Daí a ser o estrategista? Vai pra puta que o pariu. Para com isso.

 

ESTADO: O sr. depôs na promotoria?

GIAVINA: Sim, mas para mim foi normal. Fiquei surpreso. Acho que fiquei supreso porque o promotor viu que eu sei de muita coisa e falou: bota ele no rolo que ele vai abrir a boca. Vai abrir a boca com que? Mais ou menos nessa linha.

 

ESTADO: Que perguntas ele fez?

GIAVINA: Falei não, não, não. Falei que participei no Boa Viagem sim. Mas não cobri ninguém, participei em uma e ganhei. Por que? Tenho preço. Ganhei na pontuação e no preço. É lógico! Tenho experiência para caramba. Reformei mais de 600 carros. Sou o cara que mais reformou trens no Brasil. Agora, eu não podia participar de mais. Não tinha condições financeiras. É só pegar o processo licitatório. Eu não tinha acesso ao mercado financeiro. Uma empresa que não tem acesso ao mercado financeiro vai fazer parte de conluio? Entrei em uma para ganhar por uma questão de sobrevivência. Se não eu ia fechar a fábrica.

 

ESTADO: E na linha 5?

GIAVINA: Forneci a bilhetagem e a telecomunicação que eu tinha condições de fornecer. Já tinha feito isso na extensão norte, na extensão leste. Tinha condições, estava qualificado. Pediram preço para nós e eu dei. Agora na linha 5 o consórcio não era eu. A T’Trans não tinha condições de participar. Quem tinha era a Ansaldo. A Ansaldo está no meio? Está citada? É isso que é incosistente, entende. A Ansaldo não esta citada. Foca lá o Giavina!

 

ESTADO: A MPE também está na leniência da Siemens, mas não entrou no processo do Cade.

GIAVINA: Ela participou de todas! Qual é o faturamento da MPE? R$ 1,4 bilhão! Entende? Pegaram o boi de piranha, a T’Trans, por quê? Porque o Giavina é conhecido no mercado. Eu sou conhecido internacionalmente. Fui coordenador-geral da ferrovia do aço, 1974. Atuo nisso desde 1972, no setor ferroviário. Quem sobrou desse setor? Me cita alguém de 1972 que está atuando hoje? Não tem ninguém.

 

ESTADO: Conhece o consultor Arthur Teixeira?

GIAVINA: É uma figura que participa aí… participou da linha 5… Era um coordenador. Mas também nós aí… qual era exatamente a função dele eu não sei. Ele era um coordenador da linha 5, imagino que da Siemens ou da Alstom. Eu tive duas ou três reuniões de coordenação. Chamavam a gente para participar e ele procurava botar harmonia nas várias interfaces do consórcio. Fazer uma gestão de interface.

 

ESTADO: Ele chegou a sugerir que fosse feito algum repasse?

GIAVINA: Aí você tem que perguntar para a Alstom e para a Siemens. No nosso caso, não. Nos éramos subcontratados. Porque fornecemos sistemas de bilhetagem, de telecomunicação. Eu conheci ele quando era da Mecânica Pesada, diretor. E eu trabalhava Schneider. E a Mecânica Pesada era do grupo. Tinha contato sim

 

[MAS]ESTADO: Houve alguma discussão do sr. com o Everton Rheinheimer?

GIAVINA: Não. Ele não conversava comigo. Ele falou pra mim: T’Trans eu não quero saber. Ele foi radical. Ele conversava com os grandes. Você vê que nas várias denuncias que ele fez, vê se tem alguma coisa da T’Trans. Não tem absolutamente nada. Nada! Inclusive ele era o líder do metrô de Recife e me encheu o saco e eu pedi a rescisão do contrato com a Siemens na gestão dele. Não dava para conversar com esse cara.

 

ESTADO: O sr. ouviu que Rheinheimer tentou extorquir algumas empresas?

GIAVINA: … ouvi isso.

 

ESTADO: De executivos da área?

GIAVINA: Não, ta no dossiê do Cade. Tem uma carta que o cara manda pra ele dizendo: você ta me devendo R$ 1,5 milhão.

 

ESTADO: Mas o sr. ouviu isso de outros executivos?

GIAVINA: Olha a carta. Ele foi demitido por causa dessa carta. Pergunta para a Siemens por que ele foi demitido. Por que ninguém pergunta por que a Siemens demitiu ele? Vocês jornalistas, por que não perguntam? Claro! Agora eles estão defendendo ele. Será que ele não fez chantagem com a Siemens? Um cara que foi demitido agora é defendido?

Mais conteúdo sobre:

CartelCPTM