Empresário diz que pagou ‘na boa fé’ R$ 2,3 milhões para irmãos de ex-deputado petista

Marcelo Simões, da IT7 Sistemas, alegou que Leon Vargas fez avaliação de sua empresa; PF suspeita de propina em contratos do governo federal

Redação

14 Abril 2015 | 04h00

Por Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

O empresário Marcelo Simões, que diz trabalhar com marketing, declarou à Polícia Federal que pagou R$ 2,3 milhões “na boa fé” a Leon Vargas, irmão do ex-deputado federal petista André Vargas (sem partido/PR). Simões e os irmãos Vargas são alvos da Operação ‘A Origem’, 11.ª etapa da Lava Jato, deflagrada sexta-feira, 10.

À PF, Simões, sócio da IT7 Sistemas, disse que Leon Vargas recebeu aquela quantia por ter feito uma “avaliação” de sua empresa em R$ 50 milhões. Segundo Simões, ficou acertado que o irmão do ex-deputado receberia comissão equivalente a 8% ou 10% do valor atribuído à IT7.

André Vargas foi preso nesta sexta-feira. Foto: AlbariI Rosa/AGP

André Vargas foi preso na sexta-feira. Foto: AlbariI Rosa/AGP

A PF tem provas de que a lavanderia de dinheiro do doleiro Alberto Youssef – peça central da Operação Lava Jato – foi usada por André Vargas, entre 2013 e 2014, para o recebimento de R$ 2,3 milhões em dinheiro da IT7 Sistemas, que mantém contratos no governo federal.

São notas fiscais, registros de depósitos e trocas de e-mails envolvendo a contadora do doleiro, Meire Pozza, e a IT7 Soluções, contratada da Caixa Econômica Federal, do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), vinculado ao Ministério da Fazenda, e outros órgãos de governo. A força-tarefa da Lava Jato tem elementos para acreditar que a IT7 – que tem escritório no Paraná e é administrada por Marcelo Simões – era usada pelo ex-deputado e seu irmão Leon Vargas para recebimento de propina em contratos do governo federal.

Nota fiscal da Arbor, da contadora de Youssef, para IT7

Nota fiscal da Arbor, da contadora de Youssef, para IT7

Ao ser indagado pela força tarefa da Operação Lava Jato sobre qual exatamente foi o serviço executado por Leon Vargas para que merecesse um valor tão expressivo, o marqueteiro disse que o irmão de Vargas lhe disse que estava “fazendo levantamentos, bem como prospecção dos valores ativos do empreendimento, a fim de concretizar o negócio”.

Os investigadores perguntaram a Marcelo Simões se ele, efetivamente, “viu estes levantamentos ou documentos, ou ainda, e-mails ou serviço efetivo de Leon Vargas “. “Efetivamente não vi nenhum documento, este pagamento preliminar (R$ 2,3 milhões) foi na boa-fé.”

Questionado sobre a origem do recurso entregue à Leon Vargas, o empresário declarou que “o valor fazia parte do caixa da empresa (IT7 Sistemas)”. Ele disse que fez uma transferência eletrônica e que a empresa “emitiu as notas fiscais respectivas”.

A PF apurou, por meio dos relatos do doleiro Youssef – preso desde março de 2014 – e de sua contadora que foi o irmão de Vargas que pediu, no final de 2013, o repasse de R$ 2,3 milhões em dinheiro. Depois de ser orientada pelo irmão de Vargas e por Simões, da IT7, Meire emitiu então as notas, recebeu e sacou os valores para serem disponibilizados em dinheiro vivo. Ela cumpria ordens de Youssef.

Os valores foram entregues a Vargas entre janeiro e fevereiro de 2014. Nessa época, ele era vice-presidente da Câmara dos Deputados e secretário de Comunicação do PT. Foram anexados ao pedido de prisão de Vargas e Leon, além das notas, as trocas de e-mail, em que Leon e Simões indicam a IT7 para emissão das notas fiscais para a contadora do doleiro.

A contadora e o doleiro não souberam dizer, nos depoimentos, qual a origem do pagamento da IT7. Meire identificou as três transferências eletrônicas bancárias, nos valores de R$ 964,3 mil, R$ 287,1 mil e R$ 1,1 milhão, como sendo relativas a operação para Vargas.

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