Empresário delator ligado ao PT confessa que ‘mentiu’ para Moro

Empresário delator ligado ao PT confessa que ‘mentiu’ para Moro

Em depoimento gravado em vídeo e áudio pelos procuradores da Lava Jato, nesta quinta, 28, Fernando de Moura afirma que o que vale é o que disse em colaboração premiada e não o que declarou na Justiça sexta-feira passada

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Julia Affonso e Fausto Macedo

28 de janeiro de 2016 | 19h54

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O Ministério Público Federal requereu ao juiz Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, nesta quinta-feira, 28, que ordene novo interrogatório do delator Fernando Antonio de Moura, empresário ligado ao PT, em razão de ‘flagrante contradição’ no depoimento que ele prestou na sexta-feira, 22, e um trecho de sua colaboração premiada, firmada em agosto de 2015. O pedido é subscrito por onze procuradores da República que compõem a força-tarefa da Lava Jato. Eles destacam ‘a prova falsa produzida por Fernando Moura em juízo’.

Nesta quinta, Moura foi ouvido pelos procuradores e confessou ‘ter mentido’ para Moro. Com isso, ele tenta salvar os benefícios que poderia ter como colaborador da Lava Jato. Os procuradores entregaram ao juiz o depoimento gravado do empresário.

O trecho dos relatos de Moura que irritou os procuradores é relativo ao motivo de sua saída do País, em 2005, supostamente por sugestão do ex-ministro chefe da Casa Civil José Dirceu – réu e preso da Lava Jato por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Na delação que firmou para se ver livre da prisão, o empresário afirmou em agosto de 2015 que ‘resolveu se mudar para Paris após receber a ‘dica’ de José Dirceu para ‘cair fora”.

Na sexta-feira passada, diante do juiz Sérgio Moro, em audiência formal no processo em que também é réu, Fernando Moura apresentou uma versão diferente. O juiz perguntou: “O sr mencionou que na época do Mensalão o deixou o país por qual motivo?’ O delator respondeu: “Eu deixei o pa … ai nessa declaração, até ai que depois que eu assinei que eu fui ler, eu disse que foi que o Zé Dirceu que me orientou a isso. Não foi esse o caso. Eu, eu saí, porque saiu uma reportagem minha na Veja, em março de 2005.”

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Sérgio Moro lembrou ao empresário que na delação ele deu aquela versão, atribuindo a Dirceu a ideia de deixar o País. “Falei isso?”, questionou Moura. “Falou”, disse Moro. “Assinei isso?”, perguntou o empresário, rindo. “Devem ter preenchido um pouquinho mais do que eu tinha falado. Mas se eu falei, eu concordo.”

“Não, não é assim que a coisa funciona”, repreendeu Moro.

“Se eu falo e depois é colocado no papel, eu nem leio. Eu até pergunto para o advogado, ‘é isso aqui?’. Falou: ‘é’”, afirmou.

Para investigar a contradição de Moura, os procuradores da Lava Jato abriram ‘procedimento de apuração de violação de acordo de colaboração premiada’.  “Durante seu depoimento, cujo arquivo eletrônico segue encaminhado na data de hoje (quinta, 28) à Secretaria desse Juízo, Fernando de Moura relatou ter mentido ao Juízo da 13ª Vara Federal de Curitiba, durante o seu interrogatório, no dia 22 de janeiro de 2016”, destacam os procuradores no pedido de reinterrogatório do empresário delator.

“Afirmou que os procedimentos adotados durante a fase de celebração de seu acordo, assim como durante a colheita de seus termos de colaboração, observaram estritamente a legalidade. Aduziu, ainda, que todos os fatos revelados por ocasião da colheita desses termos de colaboração no dia 28 de agosto de 2015 são verdadeiros, ao contrário, do que foi dito por ele em seu interrogatório judicial.”

Para os procuradores da Lava Jato ‘a contradição entre as informações prestadas pelo colaborador Fernando Moura no anexo de seu acordo com as declarações que foram por ele prestadas em juízo por ocasião de seu interrogatório são evidentes’.

Os procuradores destacam que o acordo de delação ‘perderá efeito, considerando-se rescindido nas hipóteses de o colaborador descumprir, sem justificativa, qualquer das cláusulas, parágrafos, alíneas ou itens em relação aos quais se obrigou’, ou no caso de ‘sonegar ar a verdade ou mentir em relação a fatos em apuração, em relação aos quais se obrigou a cooperar’.

Eles sugerem esta sexta-feira, 29, como data para o novo interrogatório de Moura ‘juntamente com os últimos dois réus a serem interrogados, ocasião em que este Juízo e as defesas nessa ação poderão formular todos os questionamentos pertinentes ao réu colaborador’.

José Dirceu será interrogado nesta sexta. Seus advogados disseram que ele não vai ficar em silêncio, como outros acusados no mesmo processo.

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