Empresário admite repasse de R$ 130 mil não declarados em inquérito de caixa dois em Guarulhos

Empresário admite repasse de R$ 130 mil não declarados em inquérito de caixa dois em Guarulhos

Cristiano Horcel, dono de lojas de essências em São Bernardo do Campo, afirmou à Promotoria que não comunicou o Imposto de Renda nem lançou na contabilidade repasse em outubro de 2016 a um veículo de comunicação de Guarulhos

Luiz Vassallo

04 Setembro 2018 | 15h30

Loja de óleos essenciais atualmente aberta em nome de Cristiano Horcel, dono da Arte Feita. Foto: Luiz Vassallo

Cristiano Melges Horcel, dono de lojas de essências em São Bernardo do Campo, afirmou ao Ministério Público que não declarou ao Imposto de Renda nem registrou nos livros de contabilidade de seu comércio, repasse de R$ 130 mil em outubro de 2016 a um jornal de Guarulhos investigado por suposto caixa dois ao prefeito Gustavo Henric Costa (PSB) nas eleições daquele ano.

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O caso, revelado pelo Estado, é alvo de investigação do Ministério Público. De acordo com o empresário Décio Pompeo Jr., que era sócio oculto do jornal Guarulhos Web, o irmão do prefeito, Felipe Costa, o vereador tucano Geraldo Celestino (PSDB), e o então coordenador da campanha, Léo Lago, pediram para que o veículo custeasse uma pesquisa eleitoral. Em troca, receberia os pagamentos ‘por fora’.
O Estado obteve acesso a dados bancários da empresa que geria o portal em 2016, que revelam uma transação de R$ 130 mil da loja de essências de Horcel, e outra transação de R$ 20 mil de uma pessoa identificada como ‘Beatriz’.

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Um dos antigos sócios ocultos do jornal, Ernesto Zanon, que hoje é diretor de Comunicação da cidade, afirmou que os R$ 20 mil teriam sido providenciados por um empresário que se responsabilizou por arcar com a pesquisa eleitoral. Os outros R$ 130 mil, repassados em três vezes, teriam sido um empréstimo de Cristiano Melges Horcel, de quem é amigo. Segundo Zanon, os valores foram restituídos após vender o jornal por R$ 900 mil pagos em dinheiro vivo.

Horcel foi foi convocado a prestar esclarecimentos. Ele também disse que o montante pago a Zanon por meio de repasse de sua loja à empresa mantenedora do jornal se tratava de empréstimo.

Segundo Horcel, ele não teria ficado nem com cópia do termo de compromisso firmado com Zanon, que o teria proposto um projeto de ‘sucesso’.

Ele disse ao MP que ‘não fez qualquer anotação destes empréstimos na contabilidade da pessoa jurídica Artefeita Artesanato LTDA’ e que ‘não fez constar tal empréstimo nas declarações de tributos da pessoa jurídica ou das pessoas físicas, sócias da Artefeita’.

“O contador não foi informado das retiradas e posteriormente das entradas dos valores do empréstimo, apenas apresentava os extratos bancários para a contabilidade”, afirmou.

Horcel ainda revelou que não ‘entregou qualquer cópia do termo de empréstimos ou das notas promissórias para o contador da empréstimo’.

E ainda disse que ‘tomou conhecimento da necessidade de documentação desses empréstimos e procurou assessoria jurídica’ dos advogados que o acompanharam na oitiva.

Ele afirmou ter depositado o dinheiro em uma nova pessoa jurídica, também vinculada à loja de essências, mas disse não ter ’em mãos informações de datas ou valores exatos depositados, mas se solicitados tem interesse de fornecer’.

COM A PALAVRA, GERALDO CELESTINO

O vereador negou acerto para caixa dois e afirmou que irá se manifestar ao Ministério Público, se for chamado para eventuais esclarecimentos.

COM A PALAVRA, ERNESTO ZANON

A defesa não quis se manifestar.

O Diretor de Assuntos para Imprensa da Prefeitura de Guarulhos, Ernesto Zanon, negou taxativamente suposto acerto para caixa dois na campanha do chefe do Executivo municipal, Gustavo Henric Costa, o Guti (PSB), em 2016, em depoimento à Promotoria Eleitoral na cidade. Ele prestou declarações nesta quarta-feira, 1, e juntou aos autos do inquérito documentos que corroboram com sua versão.

O caso, que foi revelado pelo Estado, é investigado na Justiça Eleitoral. A Promotoria de Guarulhos ficou incumbida de tomar depoimentos dos citados. A investigação nasceu com base em declarações do empresário Décio Pompeo Jr.

Ele afirmou à imprensa e ao Ministério Público que, à época em que era sócio oculto do jornal GuarulhosWeb – que também tinha Zanon como sócio oculto -, foi chamado por apoiadores e agentes da campanha do então candidato para que o veículo de imprensa recebesse um suposto pagamento por fora para custear pesquisas eleitorais.

Zanon rebateu a versão de Décio ao Ministério Público e disse que chegou a ouvir do empresário que ele iria “ferrar todo mundo!” após um conflito entre os sócios do jornal em que alegou ter se sentido prejudicado.

Ele afirmou, no início de seu depoimento, que ‘é jornalista e atualmente exerce o cargo em comissão de Diretor de Assuntos para Imprensa da Prefeitura Municipal de Guarulhos, Gustavo Henric Costa, conhecido como Guti’. “Na época da campanha eleitoral de 2016, trabalhava no portal de notícias pela internet “GuarulhosWeb”, além de ser sócio oculto da empresa, que estava em nome de sua esposa, Simone Singh Carlos, que havia sido constituída como empresa individual em 2015, mas ela não participava da administração e nunca foi à sede da empresa”.

Ele narra como Décio Pompeo passou a integrar a sociedade em 2014, quando ‘foi admitido como sócio oculto’. “Afirma que Décio Pompeo aportou recurso em 2014, na condição de sócio oculto do portal “GuarulhosWeb””.

Ele ainda mencionou ter recebido a ‘sugestão’ de um empresário e amigo de nome ‘Joel Reis para fazer e publicar pesquisa eleitoral no primeiro turno das eleições de 2016, mas achou que havia muitas pesquisas e o cenário estava muito confuso, além de estar envolvido como assessor do candidato a prefeito Carlos Roberto, do PSDB. “Por isso, resolveu não encomendar nenhuma pesquisa no primeiro turno”.

“Porém, no segundo, resolveu contratar e publicar pesquisas, sendo que a primeira pesquisa, no valor total de R$ 20 mil (pesquisa e veiculação), foi paga por seu amigo Joel Reis, que tinha interesse no negócio, sendo que o depósito do valor devido foi feito por Rosana”, afirmou.

Zanon afirmou então que ‘contratou a empresa Intereativa Pesquisas, sediada em Piracicaba, de propriedade de Alejandro Encuesta’.

“O declarante encomendou duas pesquisas, uma no começo e outra na véspera do segundo turno, pagando R$ 15 mil cada uma delas, as quais foram publicadas no portal “GuarulhosWeb” e em jornais impressos em duas edições. Os depósitos que aparecem no extrato da conta corrente de sua esposa Simone Singh Carlos, totalizando R$ 130 mil, não têm qualquer relação com as pesquisas”.

Afirmou ainda que o ‘valor foi objeto de um contrato de empréstimo que o declarante celebrado com o dono da empresa “Artefeita Artesanato”, sediada em São Bernardo do Campo, de propriedade de seu amigo Cristiano Horcel, que é jornalista, trabalhou com o declarante no jornal Tribuna de Guarulhos, e na revista Livre Mercado, e é pai de Beatriz Holim Horcel, que figura como sócia da empresa “Artefeita Artesanato Ltda”‘.

“Em garantia do empréstimo, foram dadas quatro notas promissórias, por sua esposa Simone, com aval do declarante e do sócio Danilo, porque Décio Pompeo Júnior não sabia dessa negociação e nem queria saber, dizendo “-Se vira!””, disse.

Ele ressaltou ter quitado ‘todas as notas promissórias, pagando os juros contratados’.

“Mas, os negócios não deram o resultado esperado e o declarante se viu endividado, sendo obrigado a colocar o portal à venda, o que se concretizou em setembro de 2017, pelo valor de R$ 900 mil, que foi pago da seguinte: R$ 300 mil no ato e 6 parcelas de R$ 100 mil”, narrou.

Segundo Zanon, o ‘valor seria rateado à base de um terço para cada um dos sócios ocultos do portal (o declarante, Décio Pompeo Jr. e Danilo Rogério Sanches)’.

“O portal foi vendido para Maria Carolina Schneider Massutani, que fez todos os pagamentos devidos, com a ressalva de que as duas últimas parcelas foram pagas apenas ao declarante e ao sócio Danillo, porque a compradora do portal alegava descumprimento do contrato por quebra de cláusula de não concorrência por parte do ex-sócio Décio Pompeo Jr., que montou o portal de notícias G7 News, similar ao GuarulhosWeb, e concorrente”, alegou.

De acordo com Zanon, ‘Décio entendia que não devia cumprir a referida cláusula contratual porque ele não constava como sócio do portal “GuarulhosWeb”, alegando o mesmo em relação ao portal G7 News, dizendo que também não figura como sócio do portal’.

O diretor de comunicação de Guarulhos ainda afirmou que a ‘partir do momento em que Décio não recebeu as duas últimas parcelas que entendia serem devidas, houve rompimento da relação de amizade entre o declarante e ele, o qual afirmou expressamente que ia “ferrar todo mundo!”‘.

E ainda reforçou que ‘as mencionadas pesquisas não foram solicitadas e nem custeadas pelo então candidato Guti ou por seus assessores na época’ e que ‘Léo Lago, embora fosse assessor de campanha de Guti, não tem nada a ver com os fatos aqui tratados’.

Documentos. Além de seu depoimento, Zanon juntou documentos, como a constituição da empresa que administrou o GuarulhosWeb, um instrumento particular de compra e venda da empresa celebrado entre Simone Singh Carlos, Maria Carolina Schneider Massutani, em que figuram como anuentes, além dele, Danillo Sanches, Décio Pompeo Jr.

Ainda apresentou ao Ministério Público cópias de notas promissórias do empréstimo entre Simone Singh e a empresa ArteFeita, de Cristiano Horcel, cópias dos registros de pesquisas eleitorais, notas fiscais emitidas pela empresa Interativa, que realizou a pesquisa eleitoral, cópias das edições impressas do jornal e folhas com o teor de pesquisas publicadas pela concorrência.

COM A PALAVRA, SEIKEN MASSUTANI

“Não tenho conhecimento de qualquer depoimento do Senhor Décio, até porque não sou e nunca foi do meio político. Sobre meu negócios particulares só dizem respeito a mim e minha família. Eu nunca recebi qualquer intimação da justiça ou do Ministério Público e caso receba atenderei prontamente, pois sou pessoa cumpridora dos deveres legais”.

COM A PALAVRA, A PREFEITURA DE GUARULHOS

A Prefeitura não se manifestou até o fechamento da reportagem. Após o primeiro depoimento formal no âmbito das investigações, a Prefeitura se pronunciou:

“Conforme já se manifestou anteriormente, o prefeito de Guarulhos afirma que jamais teve apoio de órgão de imprensa durante o período eleitoral. De forma oposta teve sim sua campanha prejudicada pela divulgação de diversas pesquisas eleitorais que divergiram dos resultados apurados na eleição de 2016. O prefeito ainda reitera que seu apoio veio da população que de forma viral propagandeava suas ideias através das redes sociais. Sua campanha pautou-se pela ética e teve que percorrer caminhos não onerosos, haja vista ter sido uma das campanhas de menor custo dentre todas as demais.

“Ernesto Zanon afirma que já prestou os devidos esclarecimentos ao Ministério Público Estadual, apresentando provas documentais sobre as movimentações financeiras realizadas pelo portal GuarulhosWeb ao longo do segundo turno das eleições de 2016 e que as denúncias são incabíveis.

Informa que as denúncias partem de um comerciante de carros usados que, à época das eleições, propagava a lisura e independência do portal que contratou, com recursos próprios, as pesquisas.

Porém, o mesmo – a cada momento – envolve diferentes pessoas em sua peça ficcional que tem como pano de fundo uma disputa comercial. Zanon reitera ainda que, no momento oportuno, tomará as medidas judiciais cabíveis contra o comerciante”.

COM A PALAVRA, FELIPE COSTA

A reportagem não localizou Felipe Costa, irmão do prefeito. A Prefeitura afirmou não ter os contatos dele também. A reportagem também tentou contato por meio de sua empresa, mas não obteve retorno. Desde a semana passada, a reportagem tem reiterado

A Prefeitura não se manifesta em relação a Leonardo Lago, que não faz parte da administração, e sobre Felipe Costa, irmão do prefeito, que não mantém qualquer relação com a administração municipal.O espaço está aberto para manifestação.

COM A PALAVRA, LÉO LAGO

“Em nenhum momento eu me reuni com sr. Décio Pompeo para falar de um custeamento de pesquisas, muito menos de reembolso na campanha… Conheço o sr. Décio, porém jamais tratei disso com ele.”

COM A PALAVRA, GUARULHOS WEB

O jornal não se pronunciou. Quando o Estado revelou o caso, o veículo afirmou:
“O GuarulhosWeb é um portal de notícias criado em 1999 pelo jornalista Ernesto Zanon e por Danilo Sanches, sendo o primeiro site de notícias online na cidade de Guarulhos. Desde então, passou por diversas fases, sempre pautado pela credibilidade de seus proprietários, respeitados no meio jornalístico e político do município.

Tanto que em 2003 o GuarulhosWeb foi contratado pelo Jornal da Tarde, do grupo Estado, para produzir diariamente uma página com notícias de Guarulhos veiculadas naquele periódico. A parceria durou dois anos até o final de 2004.

Em 2005, o GuarulhosWeb se integrou ao grupo Mídia Guarulhos, sendo responsável pelas produções editoriais do grupo como Jornal do Farol, Jornal do Farol Autos e Revista do Farol. Em 2008, junto ao grupo, foi responsável pelo lançamento do jornal diário Guarulhos Hoje, que circula até os dias de hoje e se tornou o principal da cidade.

Em paralelo às atualizações editoriais do portal, o GuarulhosWeb produziu ao longo de todo este tempo diversas publicações impressas, como a revista de bolso GuarulhosWeb Impresso, o jornal semanal GuarulhosWeb Tablóide e, posteriormente, desde 2014 novamente em formato de jornal o GuarulhosWeb Impresso. A partir de 2015, devido ao foco online prevalecer, o jornal impresso passou a circular eventualmente em datas específicas comemorativas ou momentos de grande importância para o cenário local.

Em outubro de 2016, o GuarulhosWeb Impresso teve quatro edições durante o período entre o 1º e o 2º turno das eleições municipais, sendo responsável pela contratação de duas pesquisas eleitorais devidamente registradas na Justiça Eleitoral, quando houve o acerto dos resultados das urnas, o que confirmou a credibilidade do veículo e do instituto contratado. Depois dessas edições, houve edições comemorativas também nos aniversários de Guarulhos em 2016 e 2017.

Em 2017, devido a problemas financeiros enfrentados pela então proprietária Simone Singh Carlos, o portal foi vendido, e em setembro ganhou nova personalidade jurídica, passando a se chamar GuarulhosWeb Editora Ltda.

Em 2012, Ernesto Zanon deixou de ser proprietário, passando a atuar apenas como editor e colaborador, posição que ocupou até dezembro de 2016. Em 2015, Danilo deixou a sociedade, quando a empresa passou a ter como única dona a senhora Simone, e passou a atuar como administrador.

Nestes 18 anos de história, o GuarulhosWeb se consolidou como o principal site de notícias online de Guarulhos, acumulando recordes seguidos de visualizações, tornando-se referência de imprensa para a população local e também para a grande imprensa. Durante a recente cobertura da crise gerada pela greve dos caminhoneiros, no final de maio, o portal chegou a ter mais de 325 mil visualizações em um só dia, terminando o mês com nada menos do que 2,7 milhões de acessos”.

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