Empresa é condenada por obrigar trabalhador a andar em brasas

Segundo distribuidora de medicamentos, o procedimento não teve "conotação dramática" e ocorreu em clima de descontração e alegria

Redação

26 de setembro de 2014 | 17h24

Por Mateus Coutinho e Julia Affonso

A Distribuidora de Medicamentos Santa Cruz Ltda. foi condenada a indenizar em R$ 50 mil um trabalhador que foi obrigado a andar com os pés descalços num corredor de carvão em brasas durante “treinamentos motivacionais”. A decisão é do Tribunal Superior do Trabalho.

O caso causou espanto entre os ministros na sessão de quarta-feira, 24, do Tribunal. O presidente da Turma, ministro Lelio Bentes Corrêa, se disse “chocado e estarrecido”. “Em 12 anos de TST, nunca vi nada parecido”, afirmou

O trabalhador disse que foi obrigado, junto com outros colegas, a caminhar em um corredor de dez metros de carvão incandescente durante um evento da empresa. Ele afirma que a participação no treinamento comprometeu não só sua saúde, mas a integridade física de todos que participaram da atividade.

A empresa confirmou à Justiça que realizou o treinamento com a caminhada sobre brasas., mas disse que a atividade foi promovida por empresa especializada, e que a participação não foi obrigatória. Uma das testemunhas destacou que todos, inclusive trabalhadores deficientes físicos, tiveram que participar do treinamento e que alguns tiveram queimaduras nos pés.

Segundo a distribuidora, o procedimento não teve a “conotação dramática” narrada pelo trabalhador, e ocorreu em clima de descontração e alegria, sem nenhum incidente desagradável ou vexatório. Lembrou ainda que o treinamento foi realizado dois anos antes da reclamação trabalhista e que, assim, não seria cabível condenação por dano moral, uma vez que, na época, o trabalhador não falou nada e continuou a trabalhar para a empresa.

O trabalhador era supervisor de vendas da empresa. Segundo ele, todo mês a empresa submetia os supervisores a um ranking de vendas, em campanha intitulada “Grande Prêmio Promoções”, em que o primeiro colocado tirava uma foto ao lado de uma réplica de Ferrari, e o pior colocado ao lado de um Fusca. As fotos eram afixadas no mural da empresa e enviadas por e-mail para todos da equipe. O funcionário com pior desempenho também era obrigado a dançar músicas constrangedoras na frente de todos, como “Eguinha Pocotó”. A empresa negou as alegações, mas depoimentos testemunhais comprovaram a exposição.

Condenação. O juiz entendeu que a empresa ultrapassou todos os limites do bom senso, por expor o empregado ao ridículo e à chacota perante os demais colegas. “Ato repugnante, vergonhoso e humilhante e que beira ao absurdo, sendo, por óbvio, passível de indenização por dano moral,” destacou, ao condenar a empresa em R$ 50 mil a título de dano moral, sendo R$ 10 mil em decorrência das humilhações sofridas nas campanhas e R$ 40 mil pela caminhada sobre o carvão em brasas.

COM A PALAVRA, A DEFESA.

A reportagem tentou contato com o advogado da empresa, mas ele estava em reunião e não podia atender. Contatada, a empresa afirmou que somente o advogado comentaria o caso.

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