Empreiteiro vai delatar pelo menos dois senadores por propinas

Empreiteiro vai delatar pelo menos dois senadores por propinas

Otávio Marques de Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez, preso desde 19 de junho na Lava Jato, está fechando acordo de colaboração com a Procuradoria-Geral da República

Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, Fausto Macedo, Julia Affonso e Mateus Coutinho

27 Novembro 2015 | 14h28

Otávio Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez. Foto: Marcos de Paula/Estadão

Otávio Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez. Foto: Marcos de Paula/Estadão

Por Iuri Pitta, Ricardo Brandt, Fausto Macedo, Julia Affonso e Mateus Coutinho

O presidente do Grupo Andrade Gutierrez, Otávio Marques de Azevedo, vai apontar desvios que envolvem a empresa em contratos da Petrobrás e o pagamento de propina a pelo menos dois senadores, além de irregularidades em obras do setor elétrico e da Copa do Mundo realizada no ano passado, no Brasil. A empreiteira – a segunda maior do País, atrás da Odebrecht – e a Procuradoria-Geral da República negociam um acordo de delação premiada do executivo e um de leniência da empresa, além de pagamento parcelado de multa de R$ 1 bilhão, a maior a ser aplicada a uma empreiteira investigada pela Operação Lava Jato até agora.

Azevedo está preso desde 19 de junho, quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Erga Omnes, 14.ª fase da Lava Jato, cujo nome é uma expressão em latim que significa “vale para todos”. Naquele dia, a força-tarefa deteve a cúpula das duas maiores empreiteiras do País. A Andrade Gutierrez também foi alvo no mês seguinte da 16.ª etapa da Lava Jato, nomeada Radioatividade, que teve como foco contratos da estatal Eletronuclear relacionados à usina de Angra 3, no Estado do Rio.

As negociações de Azevedo e da Andrade Gutierrez com a força-tarefa do Ministério Público Federal se prolongam há cerca de dois meses. O executivo vai citar os nomes de “autoridades com foro privilegiado” que teriam recebido valores ilícitos porque, de alguma forma, abriram caminho para a empreiteira fechar contratos com a Petrobrás. Entre essas autoridades estão pelo menos dois senadores, cujos nomes são mantidos sob sigilo. Um dos principais projetos da Andrade Gutierrez na estatal é o Complexo Petroquímico do Rio (Comperj).

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Além disso, o presidente da Andrade Gutierrez vai falar de esquemas de corrupção e irregularidades em contratos de outras obras públicas. Entre elas está a construção da Usina de Belo Monte, no Pará, cujo orçamento supera os R$ 30 bilhões. A empreiteira também atuou em obras de reforma ou construção de quatro estádios da Copa de 2014: Maracanã, no Rio; Mané Garrincha, em Brasília; Beira-Rio, em Porto Alegre; e Arena Amazônia, em Manaus.

O valor da indenização a ser paga pela Andrade Gutierrez – R$ 1 bilhão – supera o estipulado há três meses a outra empreiteira investigada pela Lava Jato. Ao assinar acordo de leniência, a Camargo Corrêa concordou em pagar R$ 700 milhões de multa pelo envolvimento no esquema de cartel e pagamento de propinas na Petrobrás. A empreiteira, que teve executivos presos pela Lava Jato em novembro do ano passado, também firmou acordo com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), após prestar informações sobre o cartel que atuou em Angra 3, pelo qual pagou outros R$ 100 milhões.

Transferência. Nesta sexta-feira, 27, Azevedo e outros dois executivos da Andrade Gutierrez – Elton Negrão e Flavio David Barra – foram transferidos do Complexo Médico Penal em Pinhais, na região metropolitana de Curitiba, para a carceragem da PF na capital paranaense, base de atuação da Lava Jato.

Azevedo e Barra, que dirige a unidade de negócios de energia da Andrade Gutierrez, são réus em processo relacionado ao esquema da Eletronuclear, recentemente transferido da 13.ª Vara Federal em Curitiba para o Rio de Janeiro.

Além disso, a empreiteira foi citada em delações de outros colaboradores da Lava Jato, como o ex-diretor de Abastecimento da Petrobrás Paulo Roberto Costa e o lobista Fernando Soares, o Fernando Baiano. Há duas semanas, Azevedo ficou em silêncio durante interrogatório na Justiça Federal no Paraná, em processo relacionado a contratos da Petrobrás, no qual responde a ação criminal por corrupção e lavagem de dinheiro. Na ocasião, limitou-se a agradecer à família diante do juiz Sérgio Moro.

A reportagem tentou falar ontem com o criminalista Celso Vilardi, que representa o executivo e participa das negociações de colaboração da empreiteira. Ele disse que não poderia se manifestar sobre o assunto.

A Andrade Gutierrez informou por meio da assessoria de imprensa que não vai comentar os acordos negociados pela empresa e por seus executivos com o Ministério Público.