Empreiteiro diz que contratos da Petrobrás ‘afugentam todas as multinacionais’

Gérson Almada, vice-presidente da Engevix Engenharia, relata à Justiça que 'pessoa normal não assina com a estatal'

Redação

18 de março de 2015 | 15h51

Por Julia Affonso, Ricardo Brandt, enviado especial a Curitiba, e Fausto Macedo

O empreiteiro Gérson de Mello Almada, preso na Operação Lava Jato, declarou à Justiça Federal nesta terça feira, 17, que “todo mundo que for normal não assina contrato com a Petrobrás”. Vice-presidente da Engevix Engenharia, Almada disse em audiência que contrato com a estatal “é unilateral”. “Quando a gente vê que isso acontece, por que a gente assina? Porque a gente sabe que eles (direção da Petrobrás) também não vão aplicar ou eles vão ter falhas para a gente fazer”.

“Qualquer advogado aqui presente não deixa um cliente assinar”, acrescentou o empreiteiro, perante o juiz federal Sérgio Moro, que conduz todas as ações da Lava Jato, em Curitiba (PR).

VEJA TRECHO EM QUE O EXECUTIVO FALA SOBRE OS CONTRATOS DA PETROBRÁS

Segundo ele, “estes tipos de contratos afugentam todas as multinacionais (do exterior)”.

“Por que as multinacionais não estão aqui num mercado de US$ 30 bilhões?”, indagou Gérson Almada “Por que todo mundo não vem aqui e faz fila para tentar concorrer? Justamente pela unilateralidade dos contratos Petrobrás. Nós tentamos várias vezes nos associar a empresas de fora e tivemos que não apresentar proposta, porque eles (dirigentes da estatal brasileira) não aceitam.”

Almada foi preso no dia 14 de novembro de 2014 pela Juízo Final, sétima etapa da Lava Jato que mirou exclusivamente o cartel de empreiteiras que se apossou de contratos bilionários da Petrobrás. Em fevereiro, o próprio empreiteiro pediu para depor, alegando que tinha “contribuição relevante” para a Lava Jato.

Em seu depoimento, nesta terça, 17, ele revelou como operava o “pedágio” na Petrobrás. “Você entrou numa rodovia, você tem que pagar aquele pedágio. Todas as empresas exerciam isso de uma forma ou de outra.”

VEJA TODOS OS DEPOIMENTOS DE ALMADA À JUSTIÇA

 

Em uma provável referência aos operadores de propinas na estatal, Gérson Almada disse, ainda. “Na época, todo mundo, mais ou menos deixava se transparecer que teria grande proximidade com esses diretores (da Petrobrás). Todo mundo era amigo deles, em termos de decisão, do que ia acontecer. O pedágio eu uso porque é alguma coisa que você paga para usar a rodovia. Se você vai andar bem, se teu carro vai quebrar, se você vai se matar o problema é seu. O máximo que tem é um socorro que vai te levar para o início da estrada, para você se virar.”

Na audiência foi perguntado ao empreiteiro se o pedágio lhe trazia alguma vantagem. “Não, não trazia nenhum benefício. Mas eu usava para não ter malefícios. Sempre atrás desses relacionamentos (com diretores da Petrobrás). Existia a grande força econômica da Petrobrás em aplicar multas, em aplicar o contrato. Se ela quisesse aplicar aquele contrato não existiria nenhuma empresa viva nesse País. A força desse contrato, sabedor disso, tendo uma garantia que essas aplicações poderiam ser conversadas, era uma vantagem.”

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