Empreiteiro delator diz que pagou R$ 500 mil para tirar grupo de plataforma da Petrobrás

Empreiteiro delator diz que pagou R$ 500 mil para tirar grupo de plataforma da Petrobrás

Em novo depoimento, Ricardo Pessoa, da UTC Engenharia, revelou acerto com lobista Zwi Skornicki para afastar concorrente em 2010

Julia Affonso, Ricardo Brandt, Mateus Coutinho e Fausto Macedo

15 Agosto 2016 | 05h00

Ricardo Pessoa. FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADAO

Ricardo Pessoa. FOTO: ANDRE DUSEK/ESTADAO

O dono da empreiteira UTC Engenharia, Ricardo Pessoa, em novo depoimento à Operação Lava Jato, afirmou que combinou com o empresário Zwi Skornicki de pagar a ele R$ 500 mil para afastar o grupo Keppels Fels de contratos de construção das plataformas da Petrobrás. Ambos são delatores da Lava Jato. A revelação de Ricardo Pessoa, feita pela primeira vez desde que sua delação foi fechada em 2015, é contestada por Zwi Skornicki.

As declarações foram prestadas pelo empreiteiro em 20 de junho deste ano e anexadas aos autos da Lava Jato nesta semana. “Para afastar a Keppels Fels dos pacotes nos quais a UTC tinha interesse, o declarante (Ricardo Pessoa) combinou com Swi (sic) Skornicki de pagar a ele o valor de R$ 500 mil para que este deixasse de apresentar proposta nos dois pacotes que tinham interesse”, relatou Ricardo Pessoa.

“A empresa Eagle pertence ao sr. Swi (sic) Skornicki e o contrato firmado e o único pagamento feito a ela deveu-se a uma facilitação entre dois concorrentes; que, em 2010 foi lançada a concorrência para contratação de empresas para construção de módulos dos FPSOs P58 e P62 (Request for Proposal – RFP n.5 003542098 de 23/03/2010).”

Segundo o empreiteiro, ‘para viabilizar o pagamento realizado por meio de transferência bancária foi feito um contrato com a empresa Eagle, cujo objeto era simulado’.

Ricardo Pessoa declarou que ‘entre todas as empresas que se propunham a apresentar proposta, a única que realmente poderia ser considerada concorrente para a UTC era a empresa Keppels Fels’, representada por Zwi Skornicki, ‘porque tinha instalações apropriadas’.

“O contrato foi formalizado apenas em agosto de 2011, porque apenas perto desta data, a UTC pode cumprir o seu compromisso; Que o pagamento foi feito em 26 de agosto de 2011 para a conta da Eagle Consultoria, Banco 341, agência 1185 no valor líquido de R$ 444.250, e a nota fiscal emitida pela Eagle em 24 de agosto de 2011”, disse Ricardo Pessoa.

O empreiteiro da UTC afirmou que o contrato foi assinado por Walmir Pinheiro, então diretor financeiro da empresa, uma assistente administrativa que ‘desconheciam por completo que o objeto do contrato não tinha respaldo em serviço efetivamente prestado’.

Walmir Pinheiro também é delator da Lava Jato.

“Mesmo Walmir Pinheiro neste caso desconhecia o seu combinado com Swi (sic); que Walmir Pinheiro também ficou responsável em tratar com Bruno Skornicki, filho de Swi, sobre o pagamento; que, no entanto, mais uma vez quer dizer que Walmir Pinheiro não tinha conhecimento sobre qualquer irregularidade no pagamento; Que o declarante junta nesta oportunidade cópia do contrato, nota fiscal, comprovante de pagamento e troca de e-mails para a realização da transferência, bem como histórico da licitação dos módulos da P-58 e P-62”, declarou o empreiteiro.

Ricardo Pessoa afirmou que ‘não relatou estes fatos anteriormente, porque efetivamente não se recordou, o que só foi rememorado após revisitar este assunto e procurar especificamente por alguma informação que tivesse relevância e, eventualmente, tivesse passado despercebido’.

“De forma nenhuma houve qualquer intenção de omitir dolosamente qualquer informação agora revelada; que o depoente gostaria de uma vez mais externar o seu comprometimento de colaborar com o Ministério Público Federal no que for possível, estando a disposição para prestar maiores esclarecimentos”, declarou. “Infelizmente, a memória do colaborador já no alto dos seus 64 anos nem sempre o favorece.”

O empreiteiro declarou que ‘continuará se esforçando para identificar outras informações relevantes, comprometendo-se a narrar sempre que possível qualquer fato novo’.

Em ofício à Lava Jato, a defesa de Zwi Skornicki negou as informações prestadas por Ricardo Pessoa. O lobista se colocou ‘à disposição’ para uma eventual acareação com Ricardo Pessoa.