Empreendedorismo feminino e o assédio sexual no meio corporativo

Empreendedorismo feminino e o assédio sexual no meio corporativo

Danyelle Van Straten*

18 de março de 2021 | 04h30

Danyelle Van Straten. FOTO: DIVULGAÇÃO

Está cada vez mais comum ouvirmos histórias de grandes mulheres que conquistaram seu espaço no mercado de trabalho e no mundo dos negócios, certamente enfrentando muitos problemas e dificuldades até chegarem ao topo ou até se sentirem realizadas com suas trajetórias. Em 2020, com o cenário completamente adverso, elas certamente estão entre as mais afetadas. Além das cargas duplas e muitas vezes triplas que ficam sobre suas costas, muitas tiveram que fechar suas empresas. No entanto, elas também são as que, diante da crise, agiram melhor para se restabelecer dentro do chamado novo normal.

Com o protagonismo feminino nos últimos anos, as mulheres vêm aos poucos ganhando destaque, ainda que de forma tímida, em cargos de alto escalão, na liderança de empresas, em seus próprios negócios, no segmento de franquias e no mercado de trabalho. Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), realizada pelo IBGE, cerca de 9,3 milhões de mulheres estão à frente de negócios no Brasil.

O GEM (Global Entrepreneurship Monitor), que é a principal pesquisa sobre empreendedorismo no mundo, com dados de 49 países, mostrou, em sua última edição (2018), que o Brasil ficou em sétimo lugar no ranking de proporção de mulheres à frente de empreendimentos em estágio inicial, que são aqueles com menos de 42 meses de existência. Dados que mostram o aumento da presença delas no mercado também foram publicados no Relatório Especial de Empreendedorismo Feminino no Brasil, divulgado pelo Sebrae em 2019, que aponta que 48% dos Microempreendedores Individuais são mulheres.

Mesmo com o cenário de crescimento da atuação no mundo dos negócios, um dado que também não parou de aumentar é o do número de mulheres que já passaram por situações de assédio dentro do ambiente corporativo. E infelizmente, no contexto de home office esse pesadelo continuou e fez mais vítimas.

De forma absurda, o assédio sexual no ambiente de trabalho era até pouco tempo algo naturalizado. O que para mim, como mulher e empreendedora do segmento de saúde, beleza e bem-estar, é algo inaceitável. Uma em cada seis mulheres vítimas de assédio sexual no trabalho pede demissão. A sensação de impotência faz com que o silêncio e a solidão sejam os resultados mais recorrentes. Mudar este caminho é o maior desafio para evitar que mais profissionais afastem-se dos seus objetivos. Acredito que passar por esse tipo de situação faz com que a mulher tenha medo e deixe seu sonho de lado.

O assédio sexual é definido por lei como o ato de “constranger alguém com o intuito de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se o agente da sua condição de superior hierárquico ou ascendência inerentes ao exercício de emprego, cargo ou função” (Código Penal, art. 216-A). No entanto, assédio não é apenas uma investida sexual. As formas são diversas, e todas de alguma forma agressiva ou constrangedora. Este problema é recorrente em todo o país e está, de certa forma, institucionalizado em diversos setores da sociedade.

Pesquisa do Data Folha revelou que 41% das ações de assédio são verbais, 39% com assobios, 22% com comentários negativos e públicos sobre a aparência, em 15% dos casos esses comentários são feitos nas redes sociais, 15% acontecem pelo pedido de envio de mensagens de texto com teor sexual, 15% com piadas de teor sexual feitas em público, 8% com beijos forçados, 8% com apalpadas, 5% por fotos tiradas por baixo da saia, e 2% com fotos íntimas vazadas nas redes sociais.

Em outubro de 2020, o LinkedIn se uniu à consultoria de inovação social Think Eva e realizou a pesquisa “O ciclo do assédio sexual nos ambientes profissionais” com mulheres de todo o Brasil. O material tem dados muito importantes que nos dão a dimensão do problema. A pesquisa tem com o objetivo criar ações para combater o assédio no ambiente profissional online e offline.

O levantamento feito no início de 2020, antes da pandemia de Covid-19, com 381 mulheres usuárias de internet no Brasil, revelou que mais de 95% delas afirmam saber o que é assédio sexual no ambiente de trabalho e quase metade (47%) já sofreu alguma forma da violência durante sua trajetória profissional. Vale ressaltar que, apesar dos altos números, só 51% delas falam com frequência sobre o tema, o que mostra um cenário de medo e solidão.

A ideia de que mais da metade das mulheres brasileiras sai de casa todos os dias temendo sofrer algum tipo de violência é alarmante. Indica o elevado nível de normalização de atitudes que agridem e provocam danos sobre suas vidas. Sentir medo não é normal.

A discussão sobre a violência contra a mulher envolve a todos. Homens que assediam fazem isso por diversas razões, incluindo o fato de que a sociedade em que vivemos vê essas ações como algo comum. Esse cenário vem mudando e acredito que as empresas também têm papel fundamental nesse processo de mudança, que deve se iniciar justamente pela conscientização corporativa sobre o tema. É necessário que se oriente, que se ofereça acesso à informação e, principalmente, que se dê apoio a essas mulheres dentro do ambiente de trabalho, independentemente do cargo que ela ocupe .

Temos casos de redes de franquias com capilaridade nacional, que atuam com o público feminino não só como clientes, mas também como franqueadas, que estão desenvolvendo ações para conscientizar suas colaboradoras sobre o tema e fazer com que elas se transformem em agentes propagadores das informações no meio em que vivem. Acredito que essas medidas são muito positivas e trazem o tema para o centro do debate.

Essa transformação estrutural não é algo simples, mas acredito que vivemos um momento oportuno em que as organizações estão cada vez mais atentas e preocupadas com o bem-estar corporativo. Finalmente o cuidado com as pessoas e com suas necessidades passou a ser observado como um aspecto fundamental para o desenvolvimento das empresas.

*Danyelle Van Straten, CEO da rede Depyl Action e diretora da ABF Minas Gerais

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