Empatia organizacional, peça-chave para a lucratividade e a valorização das empresas

Empatia organizacional, peça-chave para a lucratividade e a valorização das empresas

Marie Bendelac Ururahy*

15 de fevereiro de 2021 | 05h30

Marie Bendelac Ururahy. FOTO: DIVULGAÇÃO

A valorização do indivíduo e de suas ideias – em contraponto à supervalorização do capital e da tecnologia – ganha importância cada vez maior para as empresas. Como gerar engajamento em um ambiente altamente competitivo, com prazos apertados, cobranças e pressão diária por resultados melhores? A palavra empatia passa a ter papel-chave neste cenário. Lidar com desafios exige capacidade de diálogo, de se expressar de forma clara e, sobretudo, de ouvir o outro com atenção.

A tarefa não é simples. Mudar a cultura organizacional exige intenção, motivação. É preciso enxergar algum benefício. As lideranças tentam fazer o melhor possível com os recursos de que dispõem. Apesar dos avanços, a maioria das empresas ainda engatinha quando se trata de usar as ferramentas da empatia e da Comunicação Não-Violenta (CNV). É um processo que demanda tempo, energia e investimentos. O mais fácil é não fazer – ficar na inércia.

O esforço, no entanto, pode ser muito bem recompensado. Não é à toa que a CNV tem mudado os padrões de relacionamentos em mais de 100 países, tanto em relação à sua utilidade individual quanto nos ambientes corporativos e institucionais. E contribui também para mudar os resultados das empresas. Na gigante de tecnologia Microsoft, um dos primeiros atos de Satya Nadella, depois de se tornar CEO, em 2014, foi pedir aos executivos da empresa que lessem o livro “Comunicação Não-Violenta”, de Marshall Rosenberg. O gesto sinalizou uma mudança de rumos no comando da empresa.

Durante décadas, a Microsoft era dominada pelo espírito beligerante de seus executivos, que se envolviam em brigas de poder e disputas corporativas. Nadella interrompeu este ciclo. O foco no espírito colaborativo, apoiado em conceitos da CNV, abriu caminho para um novo cenário. A empresa transformou não apenas sua estratégia de negócios, mas também a cultura interna, com base em valores como confiança e empatia. A mudança de postura criou mais de U$ 250 bilhões de dólares em valor de mercado para a Microsoft. Ao completar seis anos no comando da empresa, o retorno total gerado para os acionistas passou de US$ 1 trilhão.

O exemplo da Microsoft mostra como a mudança de cultura faz a diferença nas empresas. Desenvolver a capacidade de influenciar, mas sem manipular.  O modo autoritário de gerenciar pessoas está com os dias contados. Ele não tem a menor chance de promover engajamento. Hoje, até 75% da força de trabalho reside nas novas gerações, formadas em sua maioria por millenials. Esses jovens são movidos pela força do propósito, precisam ver sentido no que fazem. Querem espaço para que suas ideias sejam ouvidas e aproveitadas. Cultivam ideais de autonomia e propósito. Caso contrário, não permanecem nas empresas.

Daí a força da empatia organizacional, que se torna possível com uma gestão de pessoas focada nas aptidões humanas, em suas necessidades e sentimentos. Com um ambiente que favoreça a cooperação e os diálogos construtivos. As organizações buscam pessoas engajadas, que trabalhem com adesão aos propósitos da empresa. Neste caso, a empatia organizacional é um diferencial na gestão de negócios, já que permite harmonizar as necessidades do indivíduo com as necessidades da empresa. Um jogo de ganha-ganha. Um colaborador que tem suas necessidades supridas, inclusive de sentido e propósito, certamente será mais engajado do que um colega pouco satisfeito no seu trabalho, que está ali apenas para garantir seu sustento.

Sem engajamento, colaboradores correm o risco de não sair do modo automático, não colocam energia no que fazem ou – o que é pior – fazem apenas por submissão, de má vontade. Sem estímulo, podem até deixar de cumprir suas tarefas. As empresas pagam um preço alto pelo desengajamento de seus colaboradores. Elas deixam de crescer e não alcançam metas de produtividade e de lucros. Esse ambiente de baixa adesão vem acompanhado de estresse. Funcionários desengajados, muitas vezes, não levam a cabo suas tarefas e acabam sobrecarregando os colegas. Tudo isso pode levar a doenças, desequilíbrio, desgaste emocional. Uns fazem pouco, outros fazem demais.

O desafio, atualmente, é trazer mais equilíbrio para cada estrutura, cada equipe, com pessoas que se alinham em torno de um propósito bem definido. É fundamental ter confiança em uma diretoria. É como um time de atletas de alta performance. Precisam estar bem alinhados, em sintonia, com uma comunicação clara. Todos precisam ser capazes de compreender qual o papel do outro e se apoiarem mutuamente, em vez de julgar. Esse é o caminho para valorizar as empresas e aumentar a lucratividade de forma humanizada.

*Marie Bendelac Ururahy é especialista em empatia e comunicação não violenta e criadora do Método Conecta

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.