Empatia corporativa: lições da covid-19 para muito além da pandemia

Empatia corporativa: lições da covid-19 para muito além da pandemia

Cláudia Danienne*

20 de abril de 2020 | 03h30

Cláudia Danienne. FOTO: DIVULGAÇÃO

Quando a pandemia passar, qual será a contribuição efetiva que sua empresa deixará para a sociedade e para seus profissionais? Esta crise levará sua empresa a um desenvolvimento humanizado genuíno, ou será preciso uma nova onda para que as ações de cuidado com o outro voltem a ser praticadas? Se toda crise é também uma oportunidade, este pode ser um bom momento para implantar uma cultura verdadeiramente comprometida com o cuidado e responsabilidade com os indivíduos.

Já é consenso que a avassaladora pandemia de covid-19 vai mudar radicalmente o mercado corporativo no que tange a business. Os efeitos de curto prazo já são presenciados na suspensão de atividades de empresas, na aceleração de políticas de home office (nem sempre aplicado da melhor maneira, dada a situação emergencial em que foi adotado, mas emplacou), na migração de atividades para o meio digital (deliveries, e-learning…).

Neste primeiro momento, também chama a atenção comportamentos de solidariedade e boas ações. Além das atitudes individuais de pessoas que se voluntariam a ajudar os mais necessitados, também podemos perceber empresas indo muito além de seu core business para somar esforços contra a doença, como montadoras de automóveis que converteram sua produção para equipamentos médicos, empresas de cosméticos que passaram a produzir álcool gel, parcerias organizacionais que não aconteciam em prol de resultados benchmark, etc.

A ajuda é necessária e super bem-vinda. Está sendo rápida e providencial em seu propósito. Mas, passada a crise aguda, cairá bem uma reflexão sobre nosso comportamento individual e corporativo. Legado não é balela. O quanto de tudo isso ficou como comportamento genuíno?

Tenho recebido dezenas de convites para participar de webinar, depoimentos, video conference, feedbacks de compras virtuais. Alguns chamam a atenção pelo acolhimento e proximidade da linguagem – principalmente quando são fruto, veja que paradoxal, de uma inteligência artificial. Ou seja, as programações estão buscando aproximar o interlocutor, ao invés da antiga (“pero no mucho”) mensagem fria e protocolar. Estão zelosos com o tom, com a empatia – exemplo de uma varejista: “Oba! Tudo certo e a sua encomenda chegará em 48h. Se não tiver como pegar, avise alguém próximo para receber para você :). Esperamos que curta o seu produto.” Carinha sorriso, interjeições e inúmeros outros pontos de afetividade na mensagem.

Por outro lado, em algumas abordagens feitas diretamente por Whatsapp, com primeira pessoa enviando o convite, sequer perguntam como está, como vai a família neste momento crítico que o mundo passa. Pessoalmente, acho no mínimo curioso lembrar de enviar um convite e, mesmo diante de uma calamitosa pandemia, optar pela impessoalidade. Negócios são negócios, mas incluir 5 palavras não vai perder o foco. Um simples “Tudo bem com todos aí?” demonstra preocupação e a consciência de que, no final, relações são formadas por pessoas. Fica a reflexão.

A adoção do home office também tem de ser encarada em todas as suas perspectivas e implicações. Outro dia uma amiga comentou que, sem querer, no meio da reunião, sua filha apareceu na tela do computador querendo mostrar o desenho que tinha feito. Do outro lado da telinha, sua líder – (?) perdoem, mas aqui Interrogo mesmo- ao invés de ser empática com a criança e com a profissional, buscou rapidamente terminar a reunião e solicitou o reagendamento com um olhar fulminante. Um trauma para todos. Ora, será que não passou pela cabeça que filhos estão em casa? Que muitas das vezes o ambiente não permite que se consiga isolar e ter 100% de privacidade? Um pouco de inteligência emocional e de empatia sempre funcionam muito bem. Temos que pensar em comportamento. Se líderes ou não, humanizar faz sim a diferença.

Por fim, vale refletir sobre as empresas que, em busca de visibilidade, empenham grandes esforços em “pseudo campanhas de responsabilidade social” externas sem uma escuta atenta a seus quadros internos. Sintomático que não tenham primeiramente checado suas estruturas e a saúde física e psicológica de seus colaboradores internos. As demissões já começaram e é provável que alguns colaboradores tenham familiares desempregados, sem perspectivas e até falecidos. Em crise mais do que nunca é crucial termos disciplina para pensarmos e agirmos com equilíbrio atitudinal – um olhar no bottom line (financeiro) e o mesmo olhar em Gente (não requer explicação). EQUILÍBRIO na gestão.

O que pode ser ampliado e/ou implementado como um projeto interno de voz ativa a quem ali atua? Talvez educação preventiva em palestras breves? Quem sabe, ensinar a fazer máscaras em casa? Ou ter um funding para cenários de emergência com novas políticas de auxílio a força laboral? Apoio psicológico? Kit cesta alimentação básica? Muito pode ser desenvolvido… E não interprete como investimento meramente financeiro.

A corresponsabilidade com o outro se impõe neste momento, mas precisa ser genuína ou não teremos aprendido nada com a crise. Esta pode ser uma boa oportunidade para buscar novas perspectivas. Fomento a novos projetos e investir no humano não significa apenas recursos monetários – muito além disto, reconheça boas práticas, valorize atitude, humanize a abordagem, dissemine a importância da criatividade ainda mais na crise, inove na forma.

Já dizia Einstein: “A mente que se abre a uma nova ideia, jamais volta ao seu tamanho original”! Faça a sua parte e acredite – vai passar e temos a possibilidade de construir um mundo melhor!

*Cláudia Danienne é CRHO da Degoothi Consulting

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