Emissário de Youssef detalhou repasses de empreiteiras a doleiro

Emissário de Youssef detalhou repasses de empreiteiras a doleiro

Rafael Ângulo Lopez afirmou à Procuradoria que foi quatro vezes à Camargo Corrêa em 2012, 'três vezes para retirar dinheiro'

Redação

04 de dezembro de 2015 | 19h08

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

Alberto Youssef está preso desde março de 2014. Foto: Vagner Rosario/Futura Press

Beatriz Bulla, de Brasília e Valmar Hupsel Filho 

Rafael Ângulo Lopez, funcionário de Alberto Youssef e entregador do dinheiro intermediado pelo doleiro no esquema de corrupção investigado na Operação Lava Jato, detalhou em delação premiada a forma de entrega de dinheiro envolvido no esquema a executivos e políticos. No último dia 26, o ministro Teori Zavascki retirou o sigilo dos depoimentos do funcionário do doleiro. Ao Ministério Público, Ângulo relata, por exemplo, ter ido quatro vezes à Camargo Corrêa em 2012, sendo três delas para retirar dinheiro.

As entregas de valores na empreiteira eram feitas por com João Auler –  ex-presidente do Conselho de Administração da empreiteira – ou Dalton Avancini, ambos condenados pelo juiz federal Sérgio Moro. Os valores ficavam entre R$ 200 e R$ 400 mil. Em 2013, foi à construtora duas vezes para entregar em cada uma das vezes R$ 50 mil a Eduardo Leite, ex-diretor vice-presidente da empresa.

Além de citar a Camargo Corrêa – cujos executivos que ocuparam cargos de comando,condenados por corrupção e lavagem de dinheiro, fizeram delação premiada -, Rafael Ângulo Lopez faz menção a operações junto à Galvão Engenharia, a Sanko Sider, a Braskem e a OAS. A delação de Rafael Ângulo, fechada em dezembro do ano passado, foi mantida em sigilo pelo Supremo Tribunal Federal (STF) até agora. A pedido da Procuradoria-Geral da República (PGR), Zavascki retirou o sigilo dos depoimentos. Ainda há outras delações premiadas ocultas no sistema do STF, como os depoimentos do dono da UTC, Ricardo Pessoa, e do lobista Fernando Soares, conhecido como Fernando Baiano.

Teori Zavascki. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Teori Zavascki. Foto: Dida Sampaio/Estadão

Sobre a Galvão Engenharia, o funcionário de Youssef narrou que a MO Consultoria, uma das empresas controladas pelo doleiro, emitia notas contra a Galvão Engenharia. Posteriormente, segundo Ângulo, eram realizados saques programados entre R$ 30 mil e R$ 80 mil por Waldomiro Oliveira, tido como laranja de Youssef à frente da MO. Era Rafael Ângulo quem acompanhava Waldomiro nos saques.  Parte do dinheiro ficaria com Waldomiro, outra parte com Youssef e o restante era repassado pelo doleiro a “políticos, representantes de empreiteiras e pagamentos de contas pessoais e de terceiros”, segundo os depoimentos.

Confira a íntegra dos documentos:

Documento

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Outra empresa de fachada usada por Youssef, a GDF Investimentos, serviu para realizar mais uma operação investigada na Lava Jato. A empresa emitiu notas fiscais para a Sanko Sider para que o doleiro recebesse dinheiro por ter intermediado venda de tubos de aço para a Camargo Corrêa. A venda teve intermediação com Eduardo Leite, um dos dirigentes da empresa. Ângulo disse ter feito entregas de dinheiro em espécie para o executivo, quem retirava os valores no escritório. A delação do funcionário de Youssef traz uma planilha parcial de repasses a Leite, com 40 entregas que vão de R$ 20 mil a R$ 500 mil entre junho de 2010 e fevereiro de 2014.

Sobre a OAS, Ângulo diz que a empresa tinha uma “conta corrente” com Alberto Youssef em que transitavam dólares, euros, reais e que “inclusive se levava dinheiro em dólar para o exterior”. O fluxo de dinheiro, segundo Ângulo, oscilava entre R$ 300 mil e R$ 500 mil.

A petroquímica Braskem, controlada pela Odebrecht, também é citada por Ângulo. Ele diz ter comparecido “inúmeras vezes” na empresa e posteriormente na Odebrecht para entregar contas para depósitos fora do Brasil ao executivo Alexandrino de Alencar. Youssef e o ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa já haviam dito em delação que a Braskem pagou vantagens ao PP para ser beneficiada na compra de produtos da Petrobras.

As investigações relacionadas aos executivos correm na Justiça Federal do Paraná, conduzidas pelo juiz Sérgio Moro. A delação de Ângulo só foi encaminhada ao Supremo, portanto, em razão da menção a políticos com foro privilegiado, como o senador Fernando Collor (PTB-AL).

A Construtora Camargo Corrêa, em nota, reitera desde o início das investigações que se coloca à disposição das autoridades e tem empreendido esforços para sanar irregularidades. Dois executivos da empreiteira citados por Rafael Ângulo – Eduardo Leite e Dalton Avancini – firmaram acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal.

A OAS vem negando envolvimento de seus executivos em irregularidades. A Galvão Engenharia tem reiterado convicção de que a inocência dos executivos do grupo será reconhecida pela Justiça.

Alexandrino Alencar, apontado nos depoimentos de Ângulo como referência na Odebrecht e na Braskem, já admitiu em depoimento em maio à Polícia Federal que recebeu o funcionário de Youssef em “quatro ou cinco oportunidades”.

A defesa da Sanko Sider não foi localizada.

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