Em tempos de coronavírus, a epidemia da desinformação e seus impactos na saúde pública e no mercado de capitais

Em tempos de coronavírus, a epidemia da desinformação e seus impactos na saúde pública e no mercado de capitais

André Vasconcellos e Daniel Soranz*

24 de julho de 2020 | 05h00

Em 31 de dezembro de 2019, a Organização Mundial de Saúde (OMS) emitiu o primeiro alerta de uma nova doença, depois que autoridades chinesas notificaram casos de uma misteriosa pneumonia na cidade de Wuhan. No dia 9 de janeiro de 2020, foi anunciado pela OMS que os casos de pneumonia estariam ocorrendo devido a um novo Coronavírus, tipo semelhante ao da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) e ao da Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS).

Quando a China comprovava que a transmissão entre pessoas já havia ocorrido, diagnósticos positivos para o novo Coronavírus (COVID-19) se multiplicavam em diversos países, principalmente, na Europa e na Ásia. No Brasil, já foram confirmados centenas de milhares de infectados até a presente data e, segundo dados da Agence France-Presse (AFP), mais de 3 bilhões de pessoas em quase 70 países foram instados a permanecer em casa para combater a disseminação desse novo vírus, que nunca havia sido identificado em seres humanos.

Essa pandemia já afeta a economia mundial e, certamente, causará impactos sem precedentes, refletindo, em alguma extensão, nas atividades empresariais e nas relações de consumo. Entretanto, diferentemente do novo Coronavírus que tende a arrefecer nos meses seguintes, acredita-se que ainda não é possível mensurar com clareza os efeitos econômicos decorrentes da propagação do COVID-19 e a eficácia das medidas governamentais utilizadas para mitigá-la.

Ao redor do mundo, eis a situação: empresas aéreas, setor hoteleiro e de turismo com projeções negativas, parques industriais com operações suspensas, cadeia global de produção severamente atingida pelo desaquecimento mundial, ambiente generalizado de incertezas e bolsas de valores ao redor do mundo em verdadeira hemorragia. Assim, a oferta global de produtos vem sendo afetada ao passo em que as cadeias de suprimentos, que possibilitam a produção desses bens, estão praticamente paralisadas.

No mercado financeiro, na tentativa de frear o impulso de venda e, ao mesmo tempo, dar tempo aos investidores para compreenderem o que está ocorrendo, ressurge o circuit breaker o qual já foi colocado em prática sucessivas vezes nas últimas semanas em bolsas de valores ao redor do mundo, inclusive no Brasil. A cada nova epidemia, a sociedade vai reagir dessa forma?

Se esse é o “novo normal”, como será a próxima epidemia? Na União Europeia, o lockdown se torna uma prática comum no continente que simbolizou o espírito da globalização e das fronteiras abertas, com o trânsito livre de pessoas a partir dos anos 90. Cortes nas taxas de juros são anunciados pelos principais bancos centrais ao redor do mundo, mas não se percebe o efetivo anúncio de construções de unidades hospitalares e de investimentos maciços na saúde pública nos pronunciamentos dos principais líderes mundiais.

André Vasconcellos e Daniel Soranz. Foto: Acervo pessoal

O fato é que, infelizmente, os danos econômicos causados pela pandemia não podem ser abolidos totalmente por meio de “truques” fiscais ou monetários. Faz-se necessário prover desonerações e desobstruir obstáculos governamentais, principalmente, sobre a indústria farmacêutica. E, para nós, resta torcer pela urgente descoberta da vacina e de medicações eficazes. Entretanto, lembre-se sempre de que todo remédio apresenta efeitos colaterais e, na gestão pública, não é diferente.

O megainvestidor Warren Buffett, certa vez, afirmou que “o mercado é um dispositivo de transferir dinheiro dos impacientes para os pacientes”. De fato, trata-se de uma máxima econômica, entretanto, com a pandemia do novo Coronavírus, assolando países e suas economias, os pacientes que mais precisam são aqueles que superlotam os sistemas de saúde pelo mundo.

É necessário salientar que a disseminação de informação e de desinformação parece ser mais acelerada que a própria contaminação de seres humanos pelo COVID-19, servindo às mais diversas finalidades sociais, institucionais, econômicas e políticas. A popularização de Fake News, relacionadas à pandemia do novo Coronavírus, tem trazido à tona uma recente preocupação com a veracidade e a confiabilidade das informações propagadas na sociedade, nitidamente em estado febril, as quais acabam formando opiniões e construindo pretensos conhecimentos, baseados em informações falsas ou imprecisas, inclusive no mercado financeiro.

Se alguma vez a informação já foi escassa, hoje a situação é diametralmente oposta. Vive-se dentro de uma infosfera, que produz constantemente uma grande quantidade de informações, de forma que o próprio indivíduo parece não dar conta de interpretar e refletir sobre a carga informacional disponibilizada diariamente ao seu aparato cognitivo: eis uma das maiores enfermidades do século XXI. Fato que se comprova, no mercado financeiro, pela pouquíssima distinção entre os papéis em queda vertiginosa quando a pandemia se instalou no país. Para onde foi aquela abundância de liquidez forte no mundo, em que grandes fundos globais com bilhões de dólares, estavam interessados em investir em companhias disruptivas e promissoras?

Aliás, o que é mais importante: saúde humana ou saúde econômica? Eis que o debate público se perde nessa falsa dicotomia que não contribui para a geração de riqueza sustentável em uma sociedade. Por isso, o principal remédio para combater essa pandemia de desinformação é a educação, no sentido mais amplo que a palavra pode nos proporcionar. E, para prevenir o contágio, recomenda-se: (i) lavar as mãos para as diferenças político-partidárias; (ii) evitar aglomerações de especuladores; (iii) proteger-se de falsas notícias; (iv) ser consciente e não propagar informações não oficiais.

*André Vasconcellos é Diretor do IBRI e especialista em direito societário e mercado de capitais. Daniel Soranz é Pesquisador da FIOCRUZ e especialista em epidemiologia e saúde pública.

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