Em reclusão, refletimos e nos arrependemos

Em reclusão, refletimos e nos arrependemos

Luiz Rodrigues Wambier*

16 de julho de 2020 | 08h00

Luiz Rodrigues Wambier. FOTO: DIVULGAÇÃO

O isolamento social, expressão bem construída, até chique, a que fomos compelidos pelo vírus que causou a pandemia de 2020, é, na verdade, uma certa forma de reclusão. Funciona como se estivéssemos de algum jeito presos, condenados a viver durante longo período escondidos para nos proteger e para proteger os nossos. Escondidos de quem? Do vírus. Daquele vírus que já matou muita gente, e cuja gravidade ainda é desdenhada pelos insensatos.

Para evitar que ainda mais estragos acontecessem, fomos aconselhados, pelos líderes sensatos, a nos isolar, evitando aglomerações, reuniões e todo tipo de encontro que pudesse, ainda que só potencialmente, representar algum tipo de ajuntamento de gente. E, claro, nas inevitáveis situações em que a gente tivesse que encontrar alguém, a recomendação dos sensatos, dos que têm os tais neurônios em diálogo constante, foi e é (e parece que será, por muito tempo) “use máscara”. Aliás, há máscaras para todos os bolsos e gostos. Há até algumas que exibem logomarcas, outras engraçadinhas, outras que protegem arremessar o vírus para longe se ele arriscar delas se aproximar, graças ao composto químico aplicado em sua fabricação. Há também umas que prescindem do incômodo de ter que prendê-las nas orelhas, porque a elas é agregado um certo tipo de cola, para grudá-las momentaneamente nas bochechas. Há de tudo. A dificuldade é a mãe da criatividade, e basta olhar para os lados que veremos (ainda que distanciados) o quanto se criou de novidades, nesse período, a respeito desse novo e obrigatório adereço.

E nos isolamos, na medida em que nossa condição nos permitiu. E ficamos reclusos. O nosso homem médio da classe média (já nosso velho conhecido nestes tempos de pandemia) ficou lá no seu apartamento, com sua família. Em alguns casos, soube ele e sabemos nós, além da família há algum agregado. As prestações do financiamento não estão sendo pagas, felizmente, graças ao alongamento do prazo para sua quitação.

Assim, pensou o nosso amigo, sobra um dinheirinho a mais para suprir as necessidades e os eventuais luxos da galera: mais queijo e presunto, água mineral, porque todos ainda teimam em desconfiar da qualidade da água servida pelo sistema público, refrigerante e, claro, algumas garrafas de vinho, porque aquela prosa do casal, na sexta-feira à noite, regada pelo fruto da videira, passou a ser compromisso sagrado.

Claro que o confinamento trouxe também muitos problemas específicos, além daqueles a que todos estão sujeitos. Todos, quero dizer, bilhão e tanto de pessoas nesse mundão de Deus. Nem se fale daqueles muitos e muitos que ao redor do mundo sofrem com a pandemia e com as mazelas estruturais a que sempre foram expostos: miséria, falta de saneamento, carência de serviços públicos mínimos nas áreas da saúde e da educação, por exemplo, amontoados urbanos criminosamente permitidos ou ao menos assentidos por governantes mais interessados em agradar momentaneamente para garantir o voto na próxima eleição do que em efetivamente promover medidas voltadas a garantir, na prática, a dignidade da pessoa humana.

Nesse plano, dos problemas específicos, localizados, há notícia, por amigos lá do trabalho, alguns dos quais costumavam se encontrar no boteco (chique, lembre, caro leitor) de que um deles foi convidado a se retirar da moradia do casal porque estaria abusando da paciência da esposa; outro, infelizmente, se mostrou violento e engrossou as tristes estatísticas de violência doméstica; outro, ainda, surtou com o vizinho espaçoso e folgado que deixou de praticar o exercício da colaboração para que as coisas no prédio ficassem bem, pois insiste em desrespeitar a regra do “suba sozinho ou apenas com pessoas de sua família”.

Nosso amigo (repito, homem médio da classe média) passou a frequentar as redes sociais com mais assiduidade. Conseguiu um técnico que milagrosamente (para nosso amigo) aumentou o raio de ação e a potência do uaifai. E aí um bom tempo do dia e da noite passou a ser destinado a navegar por esse mundo virtual. Depois, é claro, de trabalhar como um boi na roça (expressão de que nosso amigo gosta muito, porque evoca lembranças de sua velha mãe), auxiliar nas tarefas da cozinha, limpar o chão do banheiro etc. Aliás, sobre a cozinha na pandemia, nosso amigo promete contar coisas antes inimagináveis. E disse que o fará oportunamente.

Lá nas redes sociais percebeu coisas incríveis: seu amigo querido, mergulhador por passatempo esportivo e por necessidade profissional, agora só mergulha em lembranças. E conjuga o verbo da pandemia: ele as posta. Aliás, todo mundo posta alguma coisa todo dia. Reminiscências de um tempo não tão distante, mas que arrebenta de saudades da vida que se levava, nem sempre valorizada. Descobriu também que outro amigo, sujeito culto e, segundo o vulgo, “muito estudado”, engordou muito, porque o incansável exercício de participação em “lives” não emagrece ninguém. Ficou sabendo, ainda, que outro querido amigo sucumbiu ao álcool em excesso. Bem, foi isso que nosso amigo depreendeu da surpreendente quantidade de postagens a respeito de bebidas alcoólicas, que aparentemente, ao menos, estavam sendo consumidas. Percebeu, também, que ao antigo #tbt (throwback Thursday) agora somam-se #tbm (throwback Monday), #tbw (throwbach Wednesday) etc.

E renovou laços de amizade. Isso mesmo. Incrível, não? Pelo singelo contato virtual, por meio de uma ou outra rede social, laços de amizade foram fortalecidos. Um amigo de há muito passou a conversar várias vezes por semana, via WhatsApp, trocando ideias sobre os mais variados assuntos, desde as aventuras culinárias bem ou malsucedidas, até a visível e constante preocupação com os riscos de contaminação. Esse, que ele me contou, chama Osmar, já recebeu o título de “melhor amigo do período da pandemia”. Tomara, pensa ele, que seja para sempre. A amizade, claro, não a pandemia, fez questão de esclarecer.

Outros, entretanto, foram desfeitos. Para aquele amigo renitente, que insiste em apoiar a insensatez de alguns – dizendo, por exemplo, que se recusa a usar máscara – e que ainda por cima quer convencer a todos de que está absolutamente certo, foi imediatamente acionado o “deixar de seguir”. Pena, pensam e conversam a respeito os nossos amigos. A gente gostava dele (ou dela). Mas não dá mais para engolir tanta baboseira, tanta desinformação, tanta teimosia, tanta incapacidade de repensar as próprias verdades e escolhas. Para outros conhecidos e até mesmo amigos, pensaram eles, basta a indiferença diante de tamanha (e teimosa) cegueira diante da realidade.

Nessa frequente visita às redes sociais, muita coisa interessante tem sido vista. Lições de verdade, a respeito de diversos temas. E muito exibicionismo barato. Nosso casal amigo costuma conversar, um com o outro e com os filhos, sobre a necessidade de “peneirar” as informações que circulam nesses ambientes virtuais. Notícias falsas criadas por gente má; notícias deturpadas por quem não as compreende ou sequer se esforça para compreendê-las, notícias mal construídas por pessoas inabilitadas para o ofício de jornalista, dizem eles, devem ser evitadas a todo custo. E dizem mais, se der, evitem o puro exibicionismo, seja de que espécie for, inclusive o de natureza cultural.

Há os entendidos de verdade e os “novos” entendidos, que se põem a falar sobre diversos temas. Os que entendem de verdade dão muito gosto em seguir, ler, ver e, enfim, conhecer algo mais sobre os objetos ou as realidades que expõem.

Assim tem sido, para o nosso casal amigo, em relação aos entendidos no mundo do vinho. Eles não sabiam, por exemplo, que, dependendo da altitude em que estão situadas as vinhas da uva malbec, diferentes são os vinhos que delas resultam. Também pouco sabiam sobre a impressionante crescente qualidade dos espumantes produzidos no Sul do Brasil, e não exclusivamente na região vinícola do Rio Grande do Sul. Esse conjunto de ricas informações tem feito com que nosso casal de amigos tenha feito verdadeiro passeio por novos vinhos, especialmente pelos tintos, de que confessadamente gostam mais.

Já os discursos sobre as virtudes de cada vinho não agradam muito ao nosso já íntimo casal de amigos. Saber que determinado cabernet franc tem aroma de estrebaria foi assustador, assim como foi muito estranho encontrar outra uva tinta com notas de flores da primavera e, simultaneamente, de chumbo e de amora madura. E outro, ainda, descrito como opulento, encorpado e carnudo. Coisa de gente entendida, por certo, mas absolutamente distante do modesto universo do vinho apreciado por nosso casal de amigos.

Tanto na rolagem dos “feeds” das redes sociais quanto nos diversos grupos de “WhatsApp” de que ambos participam, observam, todavia, algumas coisas, frases, observações, postagens etc, que lhes levam a refletir e que fizeram com que, num curioso exercício, listassem alguns tipos bem frequentes: os saudosistas, os desanimados e os arrependidos.

Caneta e bloquinho de papel em mãos, ambos trataram de listar situações em que esses tipos estariam se revelando, claro, segundo seu senso de observação.

Os saudosistas enfrentam a pandemia com os olhos postos naquilo que se passou bem antes do período de reclusão. Como era bom ir a um determinado restaurante, por exemplo, ainda que, lá no passado, quando lá estavam, só reclamavam, fosse do cardápio, do atendimento, da carta de vinhos, da temperatura da comida, da carne que não estava no ponto desejado etc etc. Viajar, ah… viajar!! Que delícia aquela viagem àquele recanto maravilhoso naquela praia paradisíaca. Esquecem os saudosistas, entretanto, que aquela viagem foi por eles mesmo classificada como “um roubo”, porque, afinal, diziam naquela época, esse povo não sabe agradar o turista. Como era bom nos reunir, poder ficar perto uns dos outros, diz outro saudosista que sempre que se reunia numa festa armava discussões intermináveis com o cunhado do irmão, especialmente em razão das opções políticas do sujeito que, ao seu juízo, estavam redondamente equivocadas.

Essas poucas observações, a respeito de alguns conhecidos e amigos, levou o nosso casal a refletir sobre o quanto reclamavam, também eles, de coisas menores, hoje vistas sob o viés de sua absoluta irrelevância. “E aquela prima com quem eu nunca mais falei? Será que ela está bem?”, dizia nossa amiga para seu marido. E ele pensava e falava sobre as muitas vezes em que esbravejava porque o passarinho havia feito cocô no capô do seu carro novo. Ou por que o seu tio repetia várias vezes a mesma piada, nas gostosas (agora, né?) reuniões de família.

O exame acurado das redes e dos grupos, sempre regado por algum bom tinto, daqueles que têm sabor amadeirado e que lembram, (ah… lembram muita coisa, depois eles virão conferir no aplicativo) também lhes permitiu identificar os que, sofrendo como aquele mundaréu de gente que também sofre em razão dos problemas gerados pela pandemia, parece ter desanimado de tudo. A vida se transformou num imenso estoque de mágoas e de reclamações, devidamente expostas nos canais antes referidos. E eles pensavam se esses desanimados haviam sido contaminados pelo vírus ou se alguém da família estava entubado…

Nos grupos da família, o primo mais próximo de nosso amigo lamenta a pandemia e critica o governo, os governos, os cientistas, os laboratórios, os amigos que usam máscara, os que não usam, os que se aglomeram, os que se negam a isso e por aí afora. E não adianta tentar convencer de que todos estão sofrendo, de que há governos sérios desenvolvendo esforços brutais para encontrar saídas viáveis para as questões econômicas decorrentes da pandemia. Para ele, todos estão errados, façam ou não façam o que ele teoricamente acha certo.

Há também o desanimado esquisitão, que reclama de barriga cheia (segundo a opinião do nosso amigo), porque está em quarentena num casarão com todo o conforto e ganhando boa grana com sua atividade, tida por essencial e que não teve qualquer interrupção. Ao contrário, melhorou tanto a performance que, contam os parentes, ele até comprou um carrão novo, à vista, mesmo sem fazer o necessário test drive. Pela internet. Pesquisou, foi lá e pumba, comprou o carro dos sonhos.

Nas redes sociais também foram identificados alguns exemplares tanto dos verdadeiramente desanimados quanto dos desanimados, digamos, fake. E a partir dessas constatações ambos discutem o noticiário que tem dado conta do impressionante número de vítimas psicológicas da pandemia, pessoas que não foram contaminadas pelo covid19, mas que, em razão de todas as limitações impostas ou autoimpostas sofrem, e muito, muitos deles beirando grave estado depressivo.

Ambos constatam que isso tudo é muito triste! E comentam, com um misto de tristeza e indignação, as distorções sociais, fruto de décadas (às vezes séculos) de exploração do homem pelo homem, de corrupção que corrói e drena o recurso público que deveria ter sido aplicado em ações sanitárias ou educacionais. Comentam também a desfaçatez com que políticos que reputavam sérios gastam seu tempo e seu gogó pensando na próxima eleição e não na próxima geração, na geração pós-pandemia. E o papo fica sério! O efeito do vinho, que normalmente descontrai e gera bom humor, faz com que nossos queridos amigos (sim, já desenvolvemos afeição por eles) reflitam sobre a vida, sobre questões sociopolíticas e econômicas relevantes, sobre as lições legadas pela História e por tantos outros elementos de reflexão.

E, de repente, aberta a segunda garrafa de um vinho português do Alentejo, recomendado por uma amiga do casal, que, segundo ela própria, entende muito do riscado, nossos amigos falam sobre os arrependimentos. Essa é uma conversa difícil, ambos com isso concordam, porque expõe feridas, decisões mal tomadas, caminhos não escolhidos, opções adotadas que se mostraram erradas, conversas não tidas, diálogos interrompidos, preferências equivocadas. E se a gente tivesse ficado lá e não aqui? E se tivéssemos dedicado mais tempo aos estudos? E se não tivéssemos deixado de visitar a vovó? E se… e se…

E a prosa vai longe e se aprofunda, ao ponto de ambos se perguntarem não só sobre as decisões que tomaram ou que não tomaram, mas sobre os efeitos daquilo que escolheram fazer. Renunciar àquela carreira bem-sucedida no banco para trabalhar na empresa em que estou, foi correto? E se eu tivesse ficado lá? E se eu, disse ela, não tivesse optado por continuar trabalhando quando as crianças nasceram? Aquela troca da casa que herdei da mamãe por este apartamento valeu a pena? Terá valido a pena esse voto nesse candidato? Aquele engajamento todo – ela lembra que até carreata haviam feito – terá sido em vão?

E uma certa melancolia os alcança. E resolvem mudar de tema, falar das alegrias geradas pelas escolhas feitas, especialmente por aqueles que dizem respeito à família e à profissão.

Outra garrafa? Não, já é demais. Só uma tacinha de um bom Porto. E vamos combinar, tá? Na próxima prosa depois do trabalho insano da semana (em romiófici, claro) a gente vai falar de nossas aventuras na cozinha e dos livros que leremos nesta semana. Fechou?

*Luiz Rodrigues Wambier é doutor em Direito pela PUC-SP. Professor no programa de mestrado e doutorado em Direito do Instituto Brasiliense de Direito Público – IDP. Sócio do Wambier, Yamasaki, Bevervanço e Lobo Advogados

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