Em quanto a crise da Covid-19 impactou a vida de PMEs ?

Em quanto a crise da Covid-19 impactou a vida de PMEs ?

Sérgio Ribeiro de Carvalho*

13 de abril de 2021 | 07h43

Sérgio Ribeiro de Carvalho. Foto: Reprodução

A crise desencadeada pela Convid-19, aumentou – especialmente a partir de julho de 2020 – em torno de 20% o número de sócios das empresas de pequeno e médio portes (PME) com vontade de vender suas companhias. Observo, nas reuniões frequentes, essa vontade, essa determinação e, às vezes, até ansiedade.

As causas que levaram a este desejo dos empresários em antecipar ou mesmo colocar na agenda de curto prazo a decisão de vender a empresa, podem ser tanto do ponto de vista financeiro, face à recessão que afetou 90% das empresas, até o lado psicológico.

No campo financeiro é óbvio que a recessão, sentida fortemente pelas PMEs, trouxe queda de vendas, perda de liquidez e risco de solvência. Este conjunto de golpes certeiros de forças negativas jogaram à lona a capacidade de muitos em reorganizarem as finanças da empresa e pessoais e a solução inescapável. Em muitos casos, é a venda de suas quotas, que pode se dar por dois canais.

O primeiro é o da venda parcial, ou seja, aceitar a entrada de um sócio ou fazer a cisão da companhia e, assim, a consequente venda da “fatia” saudável e mais atraente. Já o segundo canal é a venda total, com o intuito de interromper o prejuízo crescente – isso se encontrar um comprador.

A pandemia do Coronavírus fez com que o campo psicológico (destaque para a automotivação) e até mesmo o medo do que reserva o futuro, ganhassem forte e crescente relevância no desejo de venda da empresa. Ouço frequentemente depoimentos como: “eu já não estava muito satisfeito, agora, com essa ameaça à vida, eu quero vender” e “veja só, a vida não vale nada, quero curtir os anos que me faltam e não tenho sucessores”, ou ainda “eu e meu sócio já estávamos divergindo e em conflito, agora, com a Covid, chegou a hora de definir nossos rumos quanto a quem fica ou sai da empresa”.

Todo ano, em todos os setores empresariais, há criação e venda de empresas. Mas qual é o efeito econômico da decisão antecipada de venda?
A resposta é difícil de ser dada com segurança. Isso porque não se tem clareza nem mesmo do porte das PME e sua participação na economia diante da diversidade das fontes de informações, como IBGE, Sebrae, etc., e dos seus respectivos critérios de classificação.

Estimo, informalmente, apenas baseado na experiência e no cruzamento de dados daquelas instituições, que temos no Brasil em torno de 200 mil empresas ativas, que faturam anualmente na faixa de R$ 10 milhões a R$ 80 milhões. Destas, regularmente, cerca de 5% são vendidas ou até mesmo encerradas em um determinado ano, ou seja, em torno de 10 mil empresas.

Se a crise da Covid-19 aumentou em 20% as empresas colocadas à venda, então temos um acréscimo de 2.000 PME à venda, além do ponto médio anual. Considerando que o valuation médio destas instituições é em torno de R$ 50 milhões, estamos falando de R$ 100 bilhões, que trocaram de dono, “exclusivamente” como efeito da pandemia. Este valor equivale a quase 50% da soma do lucro operacional em 2020 de todas as empresas negociadas na B3.

O impacto emocional, “alívio” por interromper perdas da empresa e “frustração” por não continuar com a empresa não são quantificáveis e muito menos monetariamente, mas, certamente foram, e continuam sendo, gigantes.

*Sérgio Ribeiro de Carvalho, sócio fundador e CEO da QV1000

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