Em meio ao caos, as lições de Schopenhauer

Em meio ao caos, as lições de Schopenhauer

Antoine Abed*

30 de maio de 2020 | 04h00

Antoine Abed. FOTO: DIVULGAÇÃO

É difícil acreditar que há apenas 60 dias nossa sociedade transcorria de maneira ordenada e sem solavancos. Parecia que não tínhamos tantos problemas com o que nos preocupar. Com a chegada do coronavírus mudamos radicalmente a forma como vivemos e, pior ainda, não conseguimos visualizar o fim dessa terrível pandemia. Entretanto, por qualquer que seja a característica de uma crise, não podemos dizer que ela representa um momento escasso em nossas vidas se tivermos um pouco de contato com o pensamento do filósofo alemão Arthur Schopenhauer.

Segundo ele, por mais que estejamos vivendo de maneira ordenada e sem grandes traumas, não podemos afirmar que nossa existência é um mar de rosas. Sempre seremos surpreendidos por infortúnios que nos abalarão e nos obrigarão perceber que a vida, na verdade, é composta de uma sucessão de momentos desagradáveis e é exatamente em razão disso que aprendemos e nos tornamos mais preparados para viver melhor. Como disse certa vez, “o sentido mais próximo e imediato de nossa vida é o sofrimento, e se não fosse assim, nossa existência seria o maior dos contra-sensos”.

Schopenhauer sempre se manifestava de forma a colocar sob os holofotes as verdadeiras angústias e sofrimentos que a existência nos impõe. Sendo um expoente da corrente irracionalista, ele estuda e enfatiza o papel do instinto, do sentimento e da vontade em oposição à razão, trazendo pensamentos para apontar que o mundo em si não possui estrutura racional, sentido ou propósito. Seu pensamento pode incomodar num primeiro momento, mas, certamente, a reflexão proposta por ele encontrará eco após entendida.

Ele afirma que nossa receptividade para a dor é quase infinita e que o mesmo não ocorre com nossa receptividade para o prazer, que tem limites estreitos. “É a infelicidade em geral que é a regra, embora a infelicidade individual apareça como exceção.” Se aplicarmos esse pensamento para o momento atual, poderemos enxergar muito claramente o que ele identifica. Milhares somos os que vivemos de maneira infeliz mas, com essa dor provocada pela insatisfação, acabamos nos superando e nos tornamos mais sábios e equilibrados. Bom deixar claro que momentos de felicidade existem, porém, são rápidos e escassos.

O filósofo enxerga o mal e a dor como algo positivo, pois é a partir daí que temos a oportunidade de conhecer verdadeiramente a essência humana. “É aí que se encontra o fundamento da negatividade da felicidade e do bem estar, que tantas vezes fiz ressaltar, em oposição à positividade da dor”. Segundo Schopenhauer, a felicidade não é a verdadeira natureza humana, pois “nada notamos e aprendemos corretamente quando tudo se passa em conformidade com nossa vontade, e vice-versa”.

Em época de crise e sofrimento, como atualmente vivemos por causa da pandemia, o pensamento de Schopenhauer pode ajudar a iluminar um pouco mais nossas mentes e oferecer alguma tranquilidade sobre a real essência do homem. Exemplos não faltam, mas o que se destaca no momento são as dicas de gurus da internet, pessoas que supostamente conhecem a fórmula de como se comportar durante o isolamento, que sugerem maneiras de melhor aproveitar a quarentena. Em uma pesquisa rápida pela web encontraremos, entre os mais repetidos conselhos, a leitura de um livro, praticar exercícios, meditar e, a mais difundida de todas, matricular-se em um curso on-line.

Porém, esse pensamento não leva em conta situações que constituem a sorte no curso da vida e que atrapalham determinadas orientações e ambições a fim de aproveitar o tempo disponível. Podemos nos sentir travados ou bloqueados por um mix de sentimentos que não nos deixam progredir e realizar o que fora planejado de forma natural, o que, no fim, proporcionará mais dor e sofrimento pela incapacidade de acompanhar o restante dos indivíduos que tiveram sucesso.

Temos de que levar em conta a angústia provocada pela situação do mundo, a dor provocada pela saudade de não poder abraçar seus pais, nostalgia do passado e medo do futuro. Se Schopenhauer encontrasse um desses indivíduos sofrendo com tantas incertezas, ele provavelmente diria para não se cobrar tanto, afinal, tudo isso que estamos passando é natural e necessário para nossa existência, assim como o navio precisa de lastro para navegar com firmeza.

Por fim, sejamos corajosos para enfrentar todas as dificuldades que nossa existência nos aflige. Como alerta Schopenhauer, o viver está atrelado a sucessivos instantes desagradáveis, o que nos faz perceber que essas circunstâncias são inerentes à vida humana, sempre aconteceram e continuarão a acontecer.  Por isso, levante a cabeça, erga as mangas e entenda que a dor é o combustível que proporcionará ao ser humano crescimento e superação. Como disse Cervantes: “Quem perde seus bens perde muito; Quem perde um amigo perde mais; Mas, quem perde a coragem perde tudo”.

*Antoine Abed é presidente-fundador do Instituto Dignidade e autor da obra Ensaio Sobre a Crise da Felicidade

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