Em meio à pandemia, Nelson Teich assume desafio de salvar vidas sem deixar a economia morrer

Em meio à pandemia, Nelson Teich assume desafio de salvar vidas sem deixar a economia morrer

André Rosa*

20 de abril de 2020 | 07h00

André Rosa. FOTO: ARQUIVO PESSOAL

Luiz Henrique Mandetta teve que deixar o paciente – Brasil – após 16 meses de gestão. A exoneração do agora ex-ministro foi anunciada após constantes impasses entre o médico e o presidente da República Jair Bolsonaro em meio à pandemia da covid-19. Mandetta adotou a política do isolamento, a chamada quarentena, para frear o avanço do coronavírus, enquanto Bolsonaro se preocupou com os impactos da queda brusca da economia e empregos por conta das portas fechadas dos comércios. Após muitos rumores e quedas de braço, Mandetta deixa o cargo de ministro da Saúde, que agora passa a ser do renomado médico Nelson Teich.

Nelson Luiz Sperle Teich é graduado em medicina pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), especialista em oncologia pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) e em negócios pelo Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, Ibmec.

De origem fluminense, Teich é considerado pela classe médica e por empresários do setor como um profissional de perfil técnico, e as suas ações baseiam-se, preliminarmente, por dados consistentes, e com bom perfil para negociações. Em pronunciamento, defendeu o que chama de isolamento inteligente, com testagem em massa e coleta de dados eficientes para conhecer a doença e, assim, formular a política pública mais voltada aos resultados científicos.

O novo ministro tem forte elo entre o secretário de Comunicação da Presidência, Fábio Wajgarten e o empresário Meyer Nigri, da Tecnisa. Ambos apoiavam a vinda de Teich desde o início da formação da pasta, sendo preterido à época por Henrique Mandetta – que tinha trânsito no Congresso junto à Câmara dos Deputados e ao Senado Federal, no qual os presidentes Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre sempre foram fortes apoiadores do ex-ministro.

Outro ator próximo de Teich é do secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos do Ministério da Saúde, Denizar Vianna. Ambos foram sócios na MDI – Instituto de Educação e Pesquisa. Ademais, até a pouco tempo prestava serviços de consultoria para Denizar no âmbito do Ministério da Saúde.

Agora empossado por Jair Bolsonaro, o ministro agradou a ala militar e assessores de Bolsonaro ao levar dados e um plano de ação para o enfrentamento da crise. Pesa a favor do novo comandado um perfil discreto e técnico e por acreditar que saúde e economia precisam ser discutidas e avaliadas conjuntamente. Talvez o ministério ganhe corpo com a ala militar em postos estratégicos.

Também favorece o ministro a aceitação de empresários do setor de saúde e da comunidade médica.

Mas vale lembrar que em artigos publicados, Teich defendeu o isolamento horizontal como melhor medida a ser tomada até conhecer melhor o funcionamento do coronavírus. Assim como seu antecessor.

Também é importante destacar que o momento atual, de incerteza no país frente à maior pandemia já vivenciada mundialmente nos últimos anos, Teich encontrará um desafio muito maior do que os ministros de Estado se deparam, de costume, quando assumem um cargo de tamanha importância e passam a integrar um governo. O desafio de agora é estar à frente do Sistema Único de Saúde do Brasil, em um primeiro contato com o setor, perante uma pandemia.

Em seu primeiro discurso, o novo ministro destacou que ainda há uma pobreza de informações sólidas sobre a covid-19, evolução e tratamentos. Mas afirmou que pretende ter acesso a medicamentos de combate à doença o quanto antes. Também lembrou que o combate à covid-19 não pode descuidar da atenção de outros problemas atuais da população brasileira, como a dengue e influenza.

Resta observarmos se as atitudes e primeiros passos de Nelson Teich serão alinhados com as estratégias políticas para o momento, seja do próprio presidente ou de governadores, como também de especialistas, da OMS e da ciência.

Somente o tempo e as condutas do novo ministro da Saúde poderão mostrar se veremos o fim do período de incertezas no Brasil e mitigação das perdas econômicas. A busca por uma alternativa para poupar vidas e ao mesmo tempo evitar o aumento do desemprego da população e fechamento de empresas não será fácil, mas certamente é possível.

*André Rosa é cientista político (UnB), especialista em Relações Governamentais (IBMEC) e mestrando em Psicologia Política (UCB)

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