Em empresa de amigo, PF apreendeu projeto de obra em casa da filha do presidente

Em empresa de amigo, PF apreendeu projeto de obra em casa da filha do presidente

Nome de Maristela Temer consta em três itens recolhidos na Operação Patmos, na sede da Argeplan, que pertence ao coronel João Baptista Lima Filho, suposto recebedor de R$ 1 milhão de propina da JBS, em 2014, em benefício do presidente

Ricardo Brandt, Fausto Macedo, Luiz Vassallo e Breno Pires

02 de junho de 2017 | 20h10

A Polícia Federal apreendeu nas buscas feitas na empresa Argeplan Arquitetura e Engenharia, que pertence a João Baptista Lima Filho, amigo e ex-assessor de Michel Temer, documentos de um projeto de reforma de um imóvel, em São Paulo, com o nome de uma das filhas do presidente, Maristela Temer.

“Caixa de arquivo azul com documentos referentes a um projeto de reforma de imóvel c/ nome Maristela Temer, na Rua (…), Alto de Pinheiros/SP”, registra o item 7 do auto de apreensão da Operação Patmos, desdobramento da Lava Jato, deflagrada no dia 18, que tem como alvo Temer, o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ) e o senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG).

São três itens relacionados ao “projeto de reforma” e ao nome “Maristela Temer”, localizados na sala de arquitetura e no cofre da empresa.

“Saco plástico contendo pasta suspensa com edital de concorrência p/ serviço de construção recibo de pagamento em nome de Maristela de Toledo Temer Julia e Projeto de Reforma”, lista o item 10.

 

A página do Street View Google, na internet, registra uma foto de 2014 do endereço, com um imóvel de dois andares, em obra. Não há placas da Argeplan no local.

A assessoria de imprensa da Presidência da República confirmou que a casa foi comprada pela filha de Temer e que ela reformaria o imóvel, por isso buscou a Argeplan. Informou ainda que Maristela acabou executando a reforma com outro prestador de serviço e pagou com recursos próprios.

O presidente Temer é alvo de investigação da Procuradoria-Geral da República (PGR), aberta na semana passada, por ordem do ministro Edson Fachin, relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF). O inquérito é resultado da delação premiada dos donos do Grupo J&F – controlador da JBS. Eles acusam o presidente de ser beneficiário de R$ 15 milhões de propinas, na eleição de 2014, da “conta-corrente” da ex-presidente Dilma Rousseff, controlado pelo ex-ministro Guido Mantega.

As buscas na Rua Juataba, número, 68, na Vila Madalena, em São Paulo, sede da Argeplan, tinham como alvo o amigo do presidente. Coronel reformado da Polícia Militar, ele é sócio da empresa.

O endereço foi apontado pelos delatores da J&F como local de entrega de uma caixa com R$ 1 milhão de propina, em dinheiro vivo, em 2014 para uma pessoa indicada pelo presidente Temer conhecido como “Coronel”. O dinheiro seria parte dos R$ 15 milhões da campanha, que o peemedebista recebeu em espécie – a maior parte foi repassado em forma de doação oficial ao PMDB e uma parte para Cunha.

Documentos. Os policiais que fizeram buscas na Argeplan recolheram ao todo 14 itens de interesse das investigações da Lava Jato, no Supremo, que apuram suposto envolvimento de Temer com crimes de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e obstrução à Justiça.

A ordem de Fachin era para “coletar provas referentes à prática de crimes contra a administração pública e a administração de justiça, além de outros a eles correlatos, como organização criminosa”.

Lima Filho é figura central nessa apuração da Lava Jato, iniciada em Curitiba, nos processos de corrupção na Petrobrás, que se estenderam para as obras da Eletrobrás. A Argeplan tem negócio na construção da Usina Termonuclear Angra 3, no Rio, negócio de mais de R$ 14 bilhões, que teve pagamento de propinas para membros do PMDB já comprovada.

O ex-presidente da Eletronuclear Othon Pinheiro da Silva foi condenado em agosto de 2016, a 43 anos de prisão, pelo juiz federal Marcelo Bretas, da Lava Jato, no Rio, por receber propinas desviadas de Angra 3, como agente público indicado pelo PMDB, na estatal.

Lima conhece Temer desde os anos 1980, quando o peemedebista era secretário da Segurança Pública de São Paulo, durante o governo de Franco Montoro (1983-1987), então no PMDB. Foi depois responsável por obras na Polícia Militar, período em que se construiu o Hospital da PM, na zona norte, e o centro administrativo. Em 1992, quando Temer voltou à pasta após o massacre do Carandiru, Lima voltou a trabalhar com o amigo. Já coronel e formado em arquitetura, ficou em um cargo na Secretaria de Segurança Pública.

Citado por delatores da J&F, em março, o amigo de Temer voltou ao foco como suposto preposto do presidente no recebimento de propinas, durante a eleição de 2014.

Nas buscas do dia 18, na sala do coronel Lima, na Argeplan, a PF recolheu ainda recortes de notícias sobre “corrupção e casos de propina”, reportagens sobre Temer e ainda uma “planilha” com movimentações bancárias da campanha de 2002 de deputado.

“Saco plástico com envelope pardo contendo planilha com movimentações bancárias, programação de pagamento, do escritório político – Deputado Michel Temer, históricos de pagamento e de candidatura da eleição de 2002”, registra o item 11 do auto de apreensão.

 Cofre. Três itens encontrados no cofre da Argeplan, na sala do financeiro da empresa, foram apreendidos pelos agentes da Lava Jato, como elementos de interesse para as investigações.

Um deles é um HD externo de memória digital “com diversas informações sobre a reforma no apartamento de Maristela Temer”. O material está sob análise da PF.

Além disso, foi recolhido outro HD com “as imagens extraídas das câmeras” que podem ajudar nas investigações da PGR.

O delator da J&F Florisvaldo Caetano de Oliveira detalhou aos investigadores da Lava Jato como teria entregue R$ 1 milhão ao coronel amigo do presidente, em 2014, dentro da Argeplan.

“Eu achava que ia subir com o dinheiro, ele falou ‘não não, bota nesse carro que está do lado, no porta malas.” O delator relata ter demostrado preocupação com a segurança. “Eu falei ‘e essa câmera aqui (apontando o dedo para o teto)?”. O coronel teria respondido: “Não, não, tranquilo”. O entregador então disse que transferiu de seu carro para o do coronel a caixa com R$ 1 milhão de propina.

O HD apreendido podem conter imagens da câmera, acreditam os investigadores.

Outro elemento apreendido dentro do cofre da Argeplan foi um envelope com correspondência sobre cartões do banco Bradesco em nome do “Sr. José Aparecido da Silva”.

 

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DE IMPRENSA DO PRESIDENTE MICHEL TEMER

A Secretaria de Imprensa da Presidência da República informou que “a casa mencionada é da filha do presidente, Maristela Temer”. Por meio de nota, a assessoria respondeu que “ela apenas fez orçamento com a Argeplan”.

“Por isso encaminhou cópia do projeto arquitetônico à empresa, mas executou a obra com outro prestador de serviço.”

Segundo a nota, a filha do presidente comprou o imóvel há cerca de dois anos e decidiu reformar, por isso fez o orçamento na Argeplan. A reforma teria sido feita com outra empresa e paga com recursos próprios.

A assessoria informou ainda que João Baptista Lima Filho “cuidava do gerenciamento das campanhas de Temer desde os anos de 1980, sendo natural que tivesse cópias de documentos das disputas anteriores”.

O presidente nega categoricamente qualquer recebimento de valores ilícitos.

COM A PALAVRA, A ARGEPLAN

O advogado da Argeplan que acompanhou as buscas, Cristiano Rego Benzota de Carvalho, foi procurado, mas não foi localizado. O coronel João Baptista Lima Filho não foi localizado.