Em diálogo, Sarney diz que precisa falar com ex-ministro ‘próximo’ de Teori

Em diálogo, Sarney diz que precisa falar com ex-ministro ‘próximo’ de Teori

Mais detalhes das conversas do ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado com membros da cúpula do PMDB foram revelados pelo Jornal da Globo; citado como próximo ao relator da Lava Jato, Cesar Asfor Rocha presidiu o STJ e, com uma liminar em 2009 barrou a operação Castelo de Areia

Redação

26 de maio de 2016 | 14h41

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O ex-presidente José Sarney (PMDB). Foto: Reprodução/TV Estadão

Novos diálogos do mais recente delator-bomba da Lava Jato, o ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado, revelados nesta quinta-feira, 26, pelo Jornal da Globo trazem mais detalhes da preocupação dos principais caciques políticos do PMDB com o avanço da operação e também da tentativa deles de influenciar o Supremo Tribunal Federal.

Em um trecho da conversa com o ex-presidente José Sarney, em 10 de março, o cacique do PMDB afirma que vai conversar com o ex-ministro do STJ Cesar Asfor Rocha, que, segundo ele, seria próximo do relator da Lava Jato no STF Teori Zavascki.

Asfor Rocha presidiu o STJ e, em 2009, concedeu uma liminar que barrou a Operação Castelo de Areia. Semelhante à Lava Jato, a investigação realizada na época também avançou sobre a relação entre as grandes empreiteiras do País e os partidos políticos.

“MACHADO – Porque realmente, se me jogarem para baixo [em relação ao juiz Sérgio Moro, pois a investigação contra Sérgio Machado estava no Supremo] aí… Teori ninguém consegue conversar.

SARNEY – Você se dá com o Cesar. Cesar Rocha.

MACHADO – Hum?

SARNEY – Cesar Rocha.

MACHADO – Dou, mas o Cesar não tem acesso ao Teori não. Tem?

SARNEY – Tem total acesso ao Teori. Muito muito muito muito acesso, muito acesso. Eu preciso falar com Cesar. A única coisa com o Cesar, com o Teori é com o Cesar.”

Teori foi ministro do STJ antes de ser nomeado por Dilma para o Supremo. Em outro diálogo gravado por Machado, que levou à queda de Romero Jucá (PMDB) do Ministério do Planejamento em apenas 12 dias do governo interino de Michel Temer, o agora senador Jucá relatou a dificuldade de tentar algum contato com Teori para influenciar no andamento das investigações. “É um cara fechado”, disse Jucá.

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Em outro diálogo, dessa vez com Machado, Renan e Sarney, os interlocutores sugerem o advogado Eduardo Ferrão para tentar contatar Teori.

“SARNEY – O Renan me fez uma lembrança que pode substituir o Cesar. O Ferrão é muito amigo do Teori.

RENAN – Tem que ser uma coisa confidencial.

MACHADO: Só entre nós e o Ferrão.”

Todos os diálogos ocorreram em março, antes de o Congresso votar pela abertura do processo de impeachment de Dilma, que levou Michel Temer temporariamente à Presidência.

Apesar da preocupação de Machado revelada pelos diálogos e de suas tratativas com a cúpula do PMDB o ex-presidente da Transpetro acabou fechando um acordo de delação premiada com a Procuradoria-Geral da República que atinge a alma do PMDB, espinha dorsal do governo Temer.

Outros ministros do governo interino estão sob investigação na Lava Jato e até outros nomes da cúpula do Planalto podem ter sido flagrados em conversas com Machado. Até o momento já foram divulgados diálogos com Sarney, Renan Calheiros e Romero Jucá.

Com a homologação da delação, o Procurador-Geral da República Rodrigo Janot pode abrir novos inquéritos, complementar as dezenas de investigações contra políticos já existentes e ainda realizar novas operações policiais para coletar provas e ouvir suspeitos.

Operação. A Castelo de Areia apurou um esquema de evasão de divisas, lavagem de dinheiro, crimes financeiros e repasses ilícitos para políticos envolvendo executivos da empreiteira Camargo Corrêa, entre 2009 e 2011. Dentre os nomes que apareceram nas buscas da operação estava o do hoje presidente interino Michel Temer, em uma planilha com os nomes de vários políticos que receberam doações da empreiteira. Em 2011 o STJ decidiu por anular toda a operação, sob o argumento de que ela foi baseada em uma denúncia anônima.

Com as novas descobertas da Lava Jato, que destrinchou o espúrio relacionamento e troca de favores entre as empreiteiras e os principais partidos políticos do País, a força-tarefa da operação chegou a pedir ao Supremo em 2015 que fosse reaberta a Castelo de Areia, mas o pedido foi negado.

COM A PALAVRA, AS DEFESAS:

Veja o que disseram à imprensa os citados nos diálogos

O ex-presidente José Sarney disse em nota ao Jornal da Globo ser amigo de Sérgio Machado há muitos anos e afirmou que as conversas que teve com ele foram marcadas pela solidariedade. Segundo ele, muitas vezes procurou dizer palavras que ajudassem a superar as acusações que Machado enfrentava. Sarney disse, ainda, lamentar que conversas privadas tornem-se públicas porque podem ferir outras pessoas.

Teori Zavascki informou que não iria comentar o teor dos áudios.

COM A PALAVRA, A ASSESSORIA DO ADVOGADO E EX-MINISTRO DO STJ CESAR ASFOR ROCHA

“A respeito da transcrição de gravações que teriam sido feitas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, com alguns políticos, o advogado Cesar Asfor Rocha contesta terminantemente que tenha sido procurado, em qualquer tempo e por qualquer pessoa, para tratar dos assuntos aludidos. Nega, com igual veemência, que tenha conversado sobre o tema com qualquer ministro do Supremo Tribunal Federal ou com qualquer outro Magistrado. Repudia, por fim, as ilações injuriosas precipitadamente extraídas da simples menção a seu nome em conversas de terceiros.”

COM A PALAVRA, O CRIMINALISTA EDUARDO FERRÃO

‘Em relação à referência a meu nome em diálogos veiculados pela imprensa, esclareço que em nenhum momento fui procurado por quem quer que seja para tratar do assunto ali mencionado. E mesmo que o fosse, rejeitaria veementemente solicitação de tal natureza.’ Eduardo A. L. Ferrão