Em delação, ‘doleiro dos doleiros’ afirma que ex-presidente do Paraguai o aconselhou a não se entregar e pagou US$ 600 mil

Em delação, ‘doleiro dos doleiros’ afirma que ex-presidente do Paraguai o aconselhou a não se entregar e pagou US$ 600 mil

Dario Messer contou aos procuradores que relação de sua família com Horacio Cartes remonta à década de 1980 e seu pai impulsionou negócios do político no país vizinho

Rayssa Motta e Fausto Macedo

15 de agosto de 2020 | 06h15

Em sua delação premiada, o doleiro Dario Messer contou detalhes sobre a relação de longa data mantida por ele com o ex-presidente do Paraguai Horacio Cartes, que chegou a ser denunciado pelo Ministério Público Federal por participação nos negócios do brasileiro.

Os dois se conheceram ainda nos anos 1980 quando o pai de Messer, o também doleiro Modko, passou a ajudar Cartes oferecendo crédito no mercado de câmbio. Com o sucesso nos negócios, o ex-presidente montou um banco.

Segundo o ‘doleiro dos doleiros’, a família Messer chegou a emprestar US$ 13 milhões a Cartes para que o político salvasse o empreendimento durante uma crise financeira em 1994.

Em troca, os Messer receberam, através de uma offshore, três fazendas localizadas no município de Pedro Juan Cabalero, que faz fronteira com o Mato Grosso do Sul. Os terrenos de seis mil hectares, avaliados à época em cerca de US$ 4 milhões, foram multiplicados pelo doleiro naturalizado paraguaio, que conta hoje com 81 imóveis no país vizinho.

O resto da divida, em tomo de US$ 9 milhões, teria sido paga em parcelas mensais, com juros de 1% ao mês, e quitada antes de 2002. Uma promessa de sociedade no banco, em troca do empréstimo, nunca foi cumprida pelo paraguaio, segundo Messer.

O doleiro também contou aos procuradores que chegou a frequentar a residência presidencial, Mburuvicha Róga, e pediu para ser nomeado ao posto de cônsul-honorário de Israel em Paraguai, o que não foi atendido.

Dario Messer e o ex-presidente do Paraguai, Horácio Cartes durante visita a Israel. Ambos são alvos da Lava Jato. Foto: MPF/Reprodução

Messer disse ainda que, após ter sido alvo da Operação Câmbio, Desligo, em 2018, recebeu um pedido de Cartes para não se entregar às autoridades enquanto ele ainda fosse presidente – seu mandato, iniciado era 2013, chegou ao fim em agosto daquele ano.

Depois que passou a ser procurado, o doleiro contou que foi acolhido inicialmente por um empresário chamado Roque Silveira, que mandou um avião para levá-lo ao município de Salto Guairá, onde ficou escondido por cerca de um mês. Foi ele quem, segundo Messer, esteve em Assunção para intermediar um pedido de dinheiro junto a Cartes para cobrir parte das despesas jurídicas do doleiro no processo que trouxe à tona denúncias por evasão de divisas, crimes contra o sistema financeiro nacional, corrupção e lavagem de dinheiro. Messer contou que chegou a enviar uma carta ao ex-presidente pedindo US$500 mil, já que estava com os bens bloqueados pela Justiça.

Em janeiro de 2019, a namorada de Messer, Myra Athayde, que também assinou acordo de delação com a Lava Jato, teria recebido duas entregas totalizando US$ 600 mil em espécie, enviadas pelo ex-presidente através de uma pessoa de sua confiança, em um hotel no Paraguai. A combinação para os pagamentos teria sido tratada por telefone entre Cartes e o irmão do doleiro, o médico Julio Messer, que mora em Nova Iorque.

Messer contou ainda que a advogada Leticia Bobeda, filha de um ex-senador paraguaio, afirmou que seriam necessários US$ 600 mil para garantir que autoridades paraguaias autorizassem que o doleiro fosse mandado para prisão domiciliar no país, evitando a cadeia e a extradição ao Brasil. Posteriormente, Leticia teria dito que, diante da repercussão do caso, os juízes recuaram no recebimento da propina.

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