Em defesa da sociedade aberta

Em defesa da sociedade aberta

José Renato Nalini*

29 de julho de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: IARA MORSELLI/ESTADÃO

O bilionário George Soros, aos noventa anos, escreveu o livro “Em defesa da sociedade aberta – Um Alerta sobre os Perigos que enfrentamos para a sobrevivência da Democracia”, publicado pela editora Intrínseca.

Soros tem uma história interessante. Sobreviveu ao nazismo e à invasão soviética na Hungria. Fez fortuna com o mercado financeiro. Não amealhou só para si. Inimigo declarado dos ditadores, ofereceu recursos para a sobrevivência de Partidos Políticos Democratas.

Sua filantropia é escorada em pilares liberais. Ele se autodefine como um egoísta que criou uma fundação altruísta. Ele considera as empresas de tecnologia um risco para as democracias, pelo elevado poder de controle exercido sobre a população.

É óbvio que as grandes gigantes empresariais modernas são essas fantásticas iniciativas que governam a população mediante inteligente uso do algoritmo. É mais ou menos o que Eugenio Bucci fala em seu “Superindústria do Imaginário”. Para ele, as big techs fabricam imagens, que exploram nosso olhar e atenção. Somos reféns de tais signos, que nos aprisionam e nos fazem querer sempre mais.

A economia se baseia na lei das necessidades humanas, que precisam ser satisfeitas. O consumo estimula o surgimento de insatisfação crescente. Apenas atendido um objetivo e, imediatamente, um outro se mostra apto a ser atingido. Numa corrida incessante, pois a mente racional é eternamente insatisfeita.

Soros se inspirou, obviamente, em Karl Popper (1902-1994), autor de “A Sociedade Aberta e seus Inimigos”. Há um paradoxo a ser melhor explicado nessa exploração do universo digital, das redes sociais e de seu poder viciante. É que nunca houve no mundo tanta comunicação. Um clique é o bastante para acessar qualquer conteúdo, chegar a destinatários em todo o planeta. As mensagens que atraem viralizam e conseguem ser vistas por milhões de pessoas.

A internet foi criada talvez por acaso, para as comunicações bélicas, mas se tornou instrumento de facilitação do contato entre as pessoas. Nada mais democrático do que servir-se das redes e fazer chegar seu pensamento a um contingente difuso de pessoas.

Para Soros e para Bucci, as empresas de tecnologia são vilãs, pois enganariam seus usuários, manipulando-os. Ao mesmo tempo em que eles são dependentes dos serviços prestados, eles vão desistindo de sua autonomia.

A influência das redes nas eleições de Trump, no Brexit, na chamada de cidadãos inconformados com as opções de políticos no episódio que se convencionou chamar “Primavera Árabe” e nos movimentos occupy, em 2008, evidencia que ambos os pensadores têm razão. Como os gigantes da área – Google, Microsoft, Amazon, etc. – detêm o monopólio da informação, elas precisariam ser regulamentadas. O G7 e a OCDE já resolveram taxar essas transnacionais em 15%, a partir de 2023. Mas é preciso mais, para que elas não sejam as únicas detentoras dos dados.

O propósito é evitar que haja um incestuoso conúbio entre tais megaempresas e governos autoritários. Essa aliança nefasta faz com que, aos poucos, a liberdade seja estrangulada em partes crescentes do planeta.

Soros tem legitimidade para falar sobre isso, porque sua Open Society Foundation é uma entidade generosa para patrocinar causas libertárias. Ele não é unanimidade. Ao contrário, é considerado pela esquerda como um especulador – foi considerado o homem que conseguiu quebrar o Banco da Inglaterra em 1992 – e pela direita como um prócer do condenado “globalismo”.

Vale a pena ler o livro de Soros, personagem já folclórica da contemporaneidade, assim como o livro de Eugênio Bucci, um jornalista com passagem pela gestão pública no governo Lula. Nada como o leitor tirar suas próprias conclusões a respeito de visões distintas sobre a sociedade de nosso tempo.

Também seria interessante fazer um cotejo entre essas obras e o livro de Popper, além da visão constitucionalista de Peter Häberle, que sustenta a ideia de uma “Sociedade aberta de intérpretes da Constituição”, um convite ao exercício de uma Democracia Participativa que faz tanta falta ao Brasil.

O conceito de “sociedade aberta” se contrapõe ao retrato do Brasil em 2021: uma sociedade fragmentada, com os principais assentos ao banquete do capitalismo reservados a quem nasceu bem, munido de condições para desenvolver suas aptidões até à plenitude possível. E sem lugares à mesa para os desvalidos, os invisíveis, os excluídos, os informais, os desempregados, os sem teto, os sem saneamento básico, os sem-educação de qualidade, os sem saúde e os sem esperança.

É nisso que o Brasil deve pensar, não em perpetuidade de regimes excludentes e iníquos. Há saídas para as novas gerações. Mas o êxito que elas tiverem, depende de todos nós.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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