Em defesa da política e dos partidos contra a crise

Em defesa da política e dos partidos contra a crise

Rogério Baptistini*

16 de setembro de 2021 | 05h30

Rogério Baptistini. FOTO: DIVULGAÇÃO

O sofrimento que é imposto aos cidadãos brasileiros não é devido à loucura de um governante. Por trás de Bolsonaro, há algo que remete a eventos longínquos, no tempo e no espaço, encadeados de forma a minar a democracia e tornar desimpedida a acumulação capitalista. É o arranjo do pós-segunda guerra que agoniza, lançando os seres humanos numa aventura selvagem pela sobrevivência, sem mapas e bússolas para orientar as condutas.

Quando, nos primeiros dias de janeiro de 2011, morre num hospital tunisiano Moahmed Bouazizi, que se imolou em protesto contra fiscais corruptos que o impediram de ganhar a vida vendendo frutas nas ruas, teve início o que ficou conhecido como Primavera Árabe. A onda de protestos atravessou oceanos, alterou pautas e fraseologia, e desembarcou em Nova Iorque. No centro do capitalismo, ficou conhecida como Occupy Wall Street. No norte da África, na Europa e na América, inclusive no Brasil do movimento Passe Livre, os levantes sociais tinham como alvo “o sistema”, encarnado nos governantes de ocasião.

Não havia, com não há agora, o componente de classe claramente marcado na insurgência. Não estavam em confronto os trabalhadores contra os patrões; nem, tampouco, havia programas socialistas para implementar. Sobrava somente descontentamento para com “o sistema”. Apenas os plutocratas pareciam conhecer o seu lado, conforme se depreende da afirmação de Warren Buffet: “há luta de classes, é certo, porém quem está travando esta guerra é minha classe, a classe dos ricos, e a estamos vencendo”.

Essas manifestações, de certa forma, foram a linha divisória para com o mundo da social-democracia e do Estado de bem-estar social. A partir delas, a relação estabelecida entre a pressão dos seres do mundo do trabalho e a reação dos poderosos em termos de equação redistributiva, significando cidadania ampliada, se rompeu definitivamente. A fórmula ensaiada sob Thatcher e Regan em conjuntura anterior, é radicalizada, sepultando definitivamente o acerto fordista-keynesiano domesticador do capitalismo e responsável pela vitória da democracia. Agora, o dinheiro manda.

De certa forma, a minoria dos endinheirados tem dificuldade de conviver com a democracia. Mesmo Adam Smith, no século XVIII, em sua obra fundadora da Ciência Econômica moderna, já admitia que por detrás da aparente harmonia social provocada por um mercado desimpedido há o conflito social e o poder dos mais fortes. “As pessoas da mesma profissão raramente se reúnem, mesmo que seja para momentos alegres e divertidos, mas as conversações terminam em uma conspiração contra o público, ou em algum incitamento para aumentar os preços”, diz o pensador.

Nascida na Grécia como fórmula de governo restrito à participação apenas das minorias, a democracia moderna se consolidou como expressão do governo popular. O seu aperfeiçoamento acompanhando a história do Estado moderno e a expansão do capitalismo, apontou para o equilíbrio possível entre lógicas contrárias. De um lado, a do mercado, no qual indivíduos perseguem finalidades aquisitivas e egoísticas; de outro, a da sociedade política, onde se constrói o destino comum com base em ideais de justiça e solidariedade. Conflito e harmonia sob mediação da política. Construção da razão.

É justamente essa construção que estilhaça diante de nossos olhos. Para que ela funcione, são necessários os atores coletivos que organizem os insurgentes a partir de visões sociais de mundo, de programas, e busquem a produção do consenso nos fóruns adequados. A crítica ao “sistema”, que aproximou os plutocratas dos desesperados nas ruas do mundo, desmoralizou os partidos e a própria política, deixando o espaço aberto para tipos como Trump e Bolsonaro, por exemplo. São eles que regem massas desencantadas, não incorporadas ou sob o risco de exclusão da economia formal.

A hora é dos partidos e da política. Um capitalismo de empreendedores, desregulado significa o conflito e o seu contrário, a abominação totalitária. As estruturas econômicas que concentram a riqueza e o poder, não produzem, por si mesmas, esclarecimento e justiça. Basta olhar com os olhos de ver. O espetáculo deprimente desta semana da pátria é financiado, salvo engano, por endinheirados ignorantes de sua própria humanidade.

*Rogério Baptistini Mendes, sociólogo e pesquisador nas áreas da Sociologia Brasileira, do Pensamento Político Brasileiro e do Estado e do Desenvolvimento no Brasil. Doutor em Sociologia pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho -Unesp; mestre em Sociologia pela Universidade Estadual de Campinas -Unicamp; bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho – Unesp. Professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie

Tudo o que sabemos sobre:

Artigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.