Em defesa da democracia

Em defesa da democracia

Marcio Coimbra*

18 de janeiro de 2021 | 10h30

FOTO: Chip Somodevilla/Getty Images/AFP

A insurreição impulsionada por Donald Trump contra o mais importante símbolo da democracia americana marcará sua presidência. A marcha contra o Capitólio entrará para a História como um dos eventos mais lamentáveis de um país que existe baseado na força de suas instituições. Ao incitar a marcha de seguidores fanáticos, reféns de seu populismo grotesco, Trump evidencia um padrão de comportamento de líderes perigosos que emergiram recentemente ao poder e tentam subverter a democracia.

Trump passa longe de ser um conservador. Isto afastou o ainda presidente da base tradicional dos republicanos, abrindo espaço para o ingresso de uma ala radical de corte populista. O eleitorado tradicionalmente conservador, representado no governo pelo vice-presidente Mike Pence, é regido pelo princípio da prudência, defensor da cautela, estabilidade e moderação, elementos fundamentais desta vertente política. Na última semana, vimos o rompimento definitivo destas alas diante do ataque perpetrado contra a democracia americana.

No Brasil, vivemos situação similar. Possuímos um presidente que se diz conservador, mas passa longe dos princípios da prudência, cautela, estabilidade e moderação. Pelo contrário, quando mais incendiar o debate público, melhor para Bolsonaro, que assim como Trump, aposta na polarização e no embate como elementos fundamentais da política. Entendimento, convergência e diálogo são palavras que passam longe de seu vernáculo político. Longe de ser um conservador, Bolsonaro tornou-se um populista.

Isto fornece um sinal de alerta para a população brasileira. Assim como em Washington, em Brasília existe um presidente que não possui apreço pela democracia e está disposto a quebrar as regras do jogo se assim for de seu interesse. Bolsonaro reiteradamente profetiza que as eleições brasileiras serão fraudadas (especialmente se perder) e não hesitará em esticar a corda, assim como o colega americano, em caso de derrota.

Devemos nos perguntar se nossas instituições estão preparadas para tamanho desafio. O Brasil não pode sucumbir diante de mais um tiranete de plantão a despachar no Palácio do Planalto. Foram 21 anos de ditadura e nossa democracia, jovem e vibrante, não merece tamanho desrespeito. Os pilares da justiça, assim como do parlamento, serão fundamentais neste momento de prova. Mais do que isso, no intuito de evitar um autogolpe, a democracia brasileira precisa pressionar pelo desembarque imediato dos militares do governo Bolsonaro sob pena de confundirem-se com as aventuras anti-democráticas de um simples capitão.

O mundo assistiu atônito as manobras de Trump para permanecer no poder. Sofrerá duras consequências nos tribunais assim que deixar a Presidência. Com dois impeachments aprovados pela Câmara, sairá pelos fundos da Casa Branca e, certamente, em pouco tempo ocupará um lugar de ostracismo na História. Populistas podem parecer grandes hoje, mas assim como sobem, descem. Que nossa democracia e instituições sejam mais fortes que os ímpetos golpistas dos oportunistas que transitoriamente ocupam o poder.

*Márcio Coimbra é coordenador da pós-graduação em Relações Institucionais e Governamentais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Brasília, cientista político, mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-diretor da Apex-Brasil. Diretor executivo do Interlegis no Senado Federal

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