Em busca do quê?

Em busca do quê?

José Renato Nalini*

26 de março de 2022 | 12h40

José Renato Nalini. FOTO: ALEX SILVA/ESTADÃO

Uma das angústias de que não me liberto é a impossibilidade de ler tudo o que gostaria, antes de partir. Hoje todos escrevem. Mas ao lado das obras novas, existem aquelas perenes, clássicas, que devem ser lidas ao menos uma vez. Nunca desisti de um livro. Por mais difícil me pareça, vou até o final. Às vezes, a leitura até faz mal. Desconcerta, aflige, causa um tsunami mental.

Havia antigamente – uma das características da senectude é poder falar “no meu tempo”… – uma série de reportagens chamada “Livros muito comentados e pouco lidos”. Trazia obras célebres, que todos costumam incluir em seus discursos, mas que não haviam sido realmente lidas. Uma delas é “Em busca do tempo perdido” de Marcel Proust.

Compreende-se. São mais de três mil páginas. Os romances russos não ultrapassam as mil páginas. Foi uma lenta construção, escrita entre 1913 e 1927, com interrupção durante a I Guerra Mundial. Com certeza, as críticas, análises e apreciações do projeto proustiano mereceram muito mais do que três mil páginas.

Mas não é sobre Proust e as memórias revisitadas após morder a “Madeleine” que eu gostaria de conversar com vocês. É sobre a provocação que o título deveria provocar nos brasileiros. Cada um de nós deveria contribuir para essa imprescindível busca pelo tempo perdido.

Tempo perdido na educação de qualidade que ainda é raríssima exceção. Tempo perdido na conscientização da sociedade inteira, a partir da família, de que educar para um futuro repleto de desafios, dúvidas e perigos, é responsabilidade muito séria para ser entregue ao Estado.

Tempo perdido na formação de uma cidadania crítica, ativa e assertiva. Que não espere tudo do governo. Que exija do governo seriedade e compromisso com as crescentes e nocivas carências escancaradas quando fomos atingidos pela pandemia.

Tempo perdido na preparação de políticos sérios, que não pensem apenas em eleição e em reeleição, em se aproveitar da máquina estatal para se enriquecer, em fazer sucessores do seu círculo familiar, em se envolver nas negociatas e usar da política para fazer orçamentos secretos e reservar bilhões para a propaganda eleitoral.

Tempo perdido na retomada de um conceito racional de Estado, construção artificial para coordenar a gestão da coisa comum, algo que, numa visão otimista e alicerçada na certeza da perfectibilidade dos humanos, deveria ser transitório. Se houvesse contínuo aprimoramento dos humanos, chegaria um dia em que seria desnecessário investir em forças armadas, polícia, prisão, porque a sociedade se comportaria de acordo com aquilo que propala no discurso: coexistência pacífica entre diferentes, cada qual respeitando o outro, a despeito dos antagonismos.

Tempo perdido na proteção da natureza, hoje vilipendiada, exterminada, poluída, incendiada, devastada. Antes mesmo de se apropriar do tesouro preservado durante milênios e rapidamente dilapidado por insanidade, ignorância e cupidez, pomos a perder aquilo que garantiria existência digna para as futuras gerações.

Tempo perdido em promover o armamento da população, concausa do aumento da violência, pois o armado reveste-se de outra personalidade, autoritária, mandona, destemida e temerária. A arma dos racionais deveria ser a palavra. O pensamento claro, objetivo e calcado na realidade inevitável de que todos somos efêmeros. Frágeis e finitos, há muito pouco tempo destinado à proposta de tornar o mundo um pouco melhor, exatamente porque estamos nele.

Tempo perdido em multiplicar prisões, nelas trancando a juventude que não se conforma com a absurda injustiça social que exclui a maior parte da população do banquete consumista, máquina de engordar os poderosos e de produzir milhões de famélicos.

Tempo perdido em todos os setores. Tempo que se gasta no supérfluo, na mediocridade, no acompanhamento servil a tolices que mantêm uma vasta parcela dos habitantes deste país a acompanhar o que acontece na jaula em que alguns humanos se submetem a humilhações e mostram o quão indigente é a nossa forma de viver.

Não desconheço que há brasileiros em busca do tempo perdido. Mas eles são poucos e não comovem a massa. Enquanto isso, os que se aproveitam dos escassos recursos propiciados por contribuintes cada vez mais espoliados, cuidam de manter com circo e espetáculos de baixíssima qualidade na vida pública, os anestesiados incapazes de enxergar o caos em que já mergulhamos.

É urgente que mais patriotas se proponham a caminhar em busca do tempo perdido. É a esperança que ainda consegue mover os que amam o Brasil e querem, para ele, um futuro menos sombrio do que aquele que parece se avizinhar.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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