Em busca da verdade moral

Em busca da verdade moral

José Renato Nalini*

05 de fevereiro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Os valores humanos constituem uma fonte infindável de controvérsias. Ilusão acreditar-se que se chegará a um consenso. As inacreditáveis diferenças de opinião continuarão a existir. Isso não impede continuemos a procurar respostas, inclusive e principalmente àquelas perguntas irrespondíveis.

Um dos grandes problemas da humanidade é a dissociação entre fatos e valores. O fosso aparentemente intransponível entre eles faz com que surjam fanatismos. Tanto o fanatismo da crença, como o fanatismo da descrença.

Aqueles que acreditam literalmente nas escrituras sagradas, normalmente são intolerantes quanto à diversidade, professam desconfiança na ciência, desprezam as causas concretas do sofrimento humano e animal e condenam aos infernos todos os que não pensam de maneira igual.

Do lado oposto, o liberalismo secular tende a relativizar todas as respostas. Propõem o multiculturalismo, o relativismo moral, o politicamente correto e a tolerância até mesmo em relação à intolerância.

A tentativa de conciliar ambos os extremos é muito difícil e assaz criticada. O cientista Stephen J. Gould propõe que se compreenda de maneira serena as vertentes científica e religiosa e chegar-se-á à conclusão de que elas não conflitam.

Só que o contrário é que transparece. Posições inflexíveis, de ambas as partes, evidenciam a prática impossibilidade de se chegar a um termo consensual. O importante é que as vertentes não percam sua capacidade de dialogar e não se imobilizem, ferrenhamente, em suas casamatas, inviabilizando qualquer convivência no âmbito intelectual e, principalmente, no aspecto prático.

Recorro a um insuspeito ateu, Sam Harris, que já escreveu “A Morte da Fé” e “A Paisagem Moral”, para tentar entender o que lhe vai n’alma. Sei que ele não acredita em “alma”. Porém, é o eufemismo para denominar sua consciência.

Concordo com ele quando diz: “A maneira como responderemos à resultante colisão de visões de mundo influenciará o progresso da ciência, é claro, mas poderá também determinar se teremos sucesso em construir uma civilização global baseada na comunhão de valores. Como os seres humanos deveriam viver no século XXI é uma pergunta com várias respostas concorrentes – e a maioria delas, com certeza, está errada. Somente uma compreensão racional do bem-estar humano permitirá que bilhões de nós coexistamos pacificamente, convergindo em torno dos mesmos objetivos sociais, políticos, econômicos e ambientais. Uma ciência da plenitude humana pode parecer algo muito distante, mas para chegar lá, precisamos primeiro reconhecer que o terreno intelectual existe”.

Para Sam Harris, moralidade “é o conjunto de atitudes, escolhas e comportamentos que potencialmente afetam a felicidade e o sofrimento de outras mentes conscientes”. Sob essa ótica, atitudes, escolhas e comportamentos que não só potencialmente, mas efetivamente, acarretam o sofrimento dos semelhantes, é algo profundamente imoral.

Análises levadas a efeito por jornalistas, influencers, filósofos e politólogos, permanecem no ambiente político ou jurídico. Raramente fazem considerações indicativas de vistosa imoralidade daqueles que agem, optam e se conduzem de maneira a vulnerar bens e valores de seu próximo. Na verdade, a se considerar o posto ocupado por esses agentes, a afetação recai sobre uma legião. Um conjunto imenso de pessoas, todas lesadas por uma conduta escandalosamente imoral.

Como uma coisa má quase sempre acarreta outras de igual natureza, existe uma invocação que justificaria a consequência da escolha imoral. A certeza de que o mal faz parte da peregrinação humana e que morrer é algo que vai ser experimentado por todos os vivos. Então, o fato de não se defender a vida como ela deveria ser protegida, é algo que integra a complexidade da aventura terrestre. Por isso a dificuldade de se condenar exemplo patente de comportamento abominável.

Nada obstante vivenciarmos hoje experiências assim, – o descaso para com a vida e o bem-estar de milhões de pessoas – a paisagem moral pode alentar alguma esperança. É Sam Harris quem o afirma: “Apesar do nosso eterno mau comportamento, nosso progresso moral me parece inequívoco. Nosso poder de empatia está claramente crescendo. Hoje, sem dúvida, temos mais chance de agir em benefício de toda a humanidade do que em qualquer momento do passado”.

Observar, passivamente, imoralidades perpetradas contra o próximo, e contra o próximo que é mais vulnerável, é algo que deveria envergonhar o apreciador inerte. A moralidade não pode ser um verbete abstrato, mas tem de alavancar todas as nossas atitudes. Como diz o autor descrente, “a moralidade é uma esfera autêntica da curiosidade humana, e não mero produto da cultura”. Se acreditarmos nisso, teremos confiança em que o progresso moral é possível. E como já se disse, mais de uma vez, só há verdadeiro progresso se ele for o progresso moral.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

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