Em busca da nova odontologia

Em busca da nova odontologia

André Pataro*

02 de novembro de 2021 | 02h00

André Pataro. FOTO: DIVULGAÇÃO

A evolução por vezes ocorre em saltos. É o que toda a humanidade está vivenciando nesse momento que foi acelerado pela pandemia na qual estamos inseridos. O crescimento exponencial da tecnologia nos possibilitou presenciar desde a rápida produção de vacinas à mudança nas metodologias de ensino mundo afora. As formas de entrega fizeram o mundo entrar no online. As pessoas estão comprando produtos prontos. O mundo inteiro está alugando casas pelo Airbnb. Ninguém mais demora 5 anos para construir uma casa. Muitas pessoas estão vendendo seus carros e se locomovendo pelo Uber.

Não há dúvida que o digital veio para ficar. Entretanto, deve ser ponderando em cada área de atuação. E essa discussão se estende à Odontologia.

O jovem tem outro tipo de cabeça. Ele busca uma vida muito produtizada. Basta ver o imenso número de novos aplicativos que oferecerem tudo, ou quase tudo. Esse comportamento gera ansiedade pela concretização dos resultados e uma frustração quando os mesmos não são alcançados.

O abundante acesso à informação – sem entrar no mérito de classifica-la como correta ou não – permite que o cliente odontológico erroneamente faça o seu próprio diagnóstico, chegando à situação de recebermos via ligação telefônica ou via redes sociais a pergunta “quanto é para colocar lentes de resina BL2 de incisivo lateral a lateral!”.

A Odontologia vive um conflito entre a geração mais experiente e a nova geração. Muitos cirurgiões-dentistas mais experientes ainda vivem no século passado, considerando que apenas uma especialidade e um bom “gabinete” odontológico são a garantia de sucesso por toda a vida, e ocasionalmente criticam a geração jovem que, segundo eles, “só fica nas redes sociais”.

Em contrapartida, a nova geração considera uma perda de tempo adentrar-se em um curso que demorará 2 anos para especializar-se. Querem produtos prontos, cursos de fim de semana, para logo anunciarem a “especialidade” e postar casos antes e depois nas redes sociais. E quanto mais digital, mais fácil, melhor!

A Odontologia precisa, considerando a ética e o respeito profissional, ficar mais compreensível para a nova geração, mas sem entregar-se a soluções prontas. O mundo digital vem sim estreitar a distância entre o especialista e o clínico geral menos experiente. Entretanto, qual o meio termo para isso? Eu não acredito em modelos totalmente digitais, ou uberizações da Odontologia. Basta ver a reprodução de trabalhos iguais em pessoas diferentes. Parece que todos estão com o mesmo sorriso, ou com a mesma face… Precisamos pensar em novas soluções maduras para recriar a Odontologia de forma mais condizente com os novos tempos.

E essa efervescência, tanto por parte dos profissionais quanto dos clientes que cada vez mais buscam por serviços estéticos, deve ser contrabalanceada por pilares éticos e humanos condizentes com a expressão de uma boa Odontologia, sem gerar maleficência para os indivíduos, e sobretudo expressar justiça, autonomia e gerar benefícios para a classe odontológica e a sociedade como um todo.

A Odontologia vive, novamente, uma época áurea. Devemos mudar a Odontologia para que ela seja mais compreensível para a população e para as novas gerações.

*André Pataro é cirurgião-dentista, doutor e mestre em odontologia e especialista em Periodontia

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