Em busca da fama

Em busca da fama

José Renato Nalini*

26 de fevereiro de 2022 | 13h45

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Uma sociedade narcisista rende culto inabalável à fama. Tornar-se celebridade é objetivo que tantos perseguem, na incansável busca por seus minutos de reconhecimento. Elias Canetti, em “Massa e Poder”, faz uma abordagem singular desse fenômeno.

Pouco importa como obtê-la. Não faz diferença. O essencial “é tão-somente que o nome seja pronunciado. A indiferença quanto àqueles que o pronunciam, e particularmente a igualdade destes aos olhos do sedento de fama, revela estar nos fenômenos de massa a origem dessa sede”. Sim, é uma sede permanente. O sonho do sedento é que o seu nome desperte seguidores, reúna para si a massa.

A fama tem uma vida autônoma, desvinculada daquilo que uma pessoa é de fato. A massa que satisfaz o apetite dos sequiosos de fama compõe-se de sombras, criaturas que nem sequer precisam estar vivas, bastando apenas que sejam capazes de uma única coisa: pronunciar um determinado nome. É desejável que o digam com frequência, se possível de forma frenética e sempre diante de muitas pessoas. O máximo da aspiração dos candidatos a famosos, é que se fortaleça a pronúncia de seu nome. Até se torne quase um substantivo, não mais um patronímico. Algo ao alcance de todos. Qual um signo, uma marca, um selo de identificação.

Para o cortejador da fama, todavia, o que essas sombras habitualmente fazem – sua identidade sua aparência, seu trabalho, sua alimentação e até, eventualmente, sua obra – é algo que não lhe interessa. Não guarda pertinência com o propósito de chegar ao auge da fama.

Para obter a fama, vale tudo. Transforma-se em alguém provido das mais excelsas qualidades. Exibe solidariedade humana. Mostra-se condoído pela sorte dos desfavorecidos. Disserta sobre as virtudes. Simula a modéstia que não tem e nunca teve. Não é difícil chegar a outras táticas, se a adulação se mostrar insuficiente. Suborna, prometendo pequenas vantagens, assim como a dimensão pessoal de quem aceita ser subornado. Semeia estímulos, se necessário, chicoteia. Tudo para formar um quadro fiel e submisso aos atributos do candidato a ser famoso.

Não hesitará em dispensá-los todos, se vier a conservar a fama. Para ele, o séquito é acessório, serviu para edificar a reputação, o bom nome, a garantia de se destacar no oceano imenso do anonimato.

Anonimato é palavrão para quem quer ser famoso. Pode até argumentar com o seu temperamento discreto, com sentir-se melhor na retaguarda, mas tudo como tática para alavancar a consecução da fama.

É instigante a comparação que Elias Canetti faz entre o ávido pela fama e o rico. Este, coleciona bens e rebanhos, títulos e ações, prédios e iates. Tudo o que pode ser comprado com dinheiro. Se possível, com criptomoedas, que é mais fashion. Não lhe importam os seres humanos. É-lhe suficiente poder comprar alguns. Há sempre consciências à venda, colunas vertebrais complacentes. Pessoas que só se sentem bem ajoelhadas.

O poderoso, ou o detentor de poder, coleciona seres humanos. Bens materiais só adquirem significado à medida que servirem como ferramentas úteis para a aquisição de humanos. Quem acumula poder quer homens vivos, de preferência que os precedam na morte. Os que já morreram ou os que ainda não nasceram não entram em seus cálculos.

Já o famoso coleciona áulicos. Quer apenas ouvir o maior número de pessoas pronunciar o seu nome. Tanto faz se forem vivos, ou semimortos, aqueles desvalidos que, à falta de pão, agarram a utopia, vivem a fantasia e sua imaginação é capaz de suprir a falta de dignidade. Importa é que sejam suficientemente fortes para pronunciar o nome do famoso.

A fama sempre foi algo presente no horizonte dos que insistem na desconsideração da morte. Crentes de que são imortais, toda a energia vital é direcionada a galgar os degraus da glorificação. Só que, antigamente, fazia-se questão de obter “boa fama”. O degringolar ético da sociedade contemporânea dispensou essa preocupação. Agora o que vale é a fama, qualquer que ela seja. A reputação perdeu valor, não se encontra à venda nem nas lojas de R$ 1,99. Ser conhecido, ainda que mal afamado, ser famoso, ainda que pairem suspeitas de idoneidade dúbia, o que está em jogo é poder ser identificado em todos os lugares, alcançar milhões de seguidores, ter um nome na ponta da língua de qualquer ser que consiga falar.

Espécie insólita a humana. Mas assim é. Sempre foi. Sempre será.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Tudo o que sabemos sobre:

José Renato NaliniArtigo

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.