Em áudios, Aécio já defendia troca de Serraglio por ministro ‘forte’ para ‘mexer’ com PF

Em áudios, Aécio já defendia troca de Serraglio por ministro ‘forte’ para ‘mexer’ com PF

No âmbito da Operação Patmos, que mira o presidente, senador tucano foi gravado pelo executivo Joesley Batista, da JBS, se referindo a ministro demitido como ''um peba', 'um b...de um c...'

Luiz Vassallo e Julia Affonso

29 Maio 2017 | 14h06

Aécio Neves. Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

A Operação Patmos, que mira o presidente Michel Temer, revela que o senador Aécio Neves (PSDB/MG) estava bastante empenhado em derrubar o então ministro da Justiça Osmar Serraglio (PMDB/PR). Dois áudios que constam do inquérito mostram o tucano atuando firmemente pela queda do peemedebista, o que, afinal, ocorreu neste domingo, 28.

Em um áudio, que integra a delação do grupo JBS, Aécio foi gravado em conversa com o acionista do grupo, Joesley Batista, em um hotel em São Paulo – o próprio empresário gravou o encontro. Nessa ocasião, em abril, Aécio disse o que pensa de Serraglio. “O ministro é um b… de um c…, um peba.”

O tucano atribuiu a Temer a responsabilidade pela escolha. “Ele (Temer) errou de novo de nomear essa p…”.

Aécio reclama que o então ministro da Justiça ‘não dá um alô…está passando mal da saúde pede prá sair’.

O trecho mais importante do diálogo, na avaliação dos investigadores da Operação Lava Jato, é quando Aécio se refere o que poderia ocorrer com a Polícia Federal como consequência da troca de comando no Ministério da Justiça.

“Porque aí mexia na PF”, disse o tucano.

Neste domingo, 28, Temer decidiu trocar o comando da Pasta que detém o controle da Polícia Federal, braço decisivo da Operação Lava Jato e seus desdobramentos. O presidente escalou Torquato Jardim para o cargo de ministro da Justiça. Serraglio foi convidado a assumir a cadeira de Jardim no Ministério da Transparência.

A troca provoca desconfianças entre delegados da PF. Em nota, a Associação Nacional dos Delegados de Polícia Federal disse que a classe está ‘preocupada’ com a mudança. Delegados acreditam que o novo ministro poderá trocar o diretor-geral da PF, delegado Leandro Daiello Coimbra, no cargo desde 2011.

Em outro áudio, Aécio foi gravado, aí pela Polícia Federal com autorização do ministro Edson Fachain – relator da Lava Jato no Supremo Tribnal Federal – em conversa por telefone com seu colega de partido, o senador José Serra (PSDB-SP). Nesse diálogo, Serra pediu a Aécio – ora afastado do Congresso por decisão de Fachin – que intercedesse junto a Temer em uma possível troca no Ministério da Justiça.

O alvo do grampo era Aécio, investigado por supostamente pedir propinas de R$ 2 milhões a Joesley. Na Operação Patmos, o procurador-geral da República Rodrigo Janot requereu decretação da prisão preventiva do tucano, mas Fachin rejeitou a medida e apenas mandou afastar Aécio do mandato.

O diálogo entre Aécio e Serra é datado de 19 de abril e demonstra a insatisfação da base aliada de Temer com Serraglio.

Serra afirma estar ‘preocupado’ e chama atenção para a necessidade de um ministro da Justiça ‘forte’.

O nome sugerido por Serra não era o de Torquato. Ele queria ‘o Jungmann’, referência ao atual ministro da Defesa Raul Jungmann. “Não precisa ser da área, porque vai ficar da área… vai ficar aquele problema todo. Alguém como o Jungmann daria, entende? Bem assessorado, tal. O fato é que tem que por alguém com força. Não para fazer nada arbitrário, mas para que as coisas tenham um caminho, né? de desenvolvimento, tudo”, afirmou Serra.

O tucano paulista ainda avalia que Serraglio ‘foi um bom deputado’, ‘pode ir para outro Ministério’, mas que não teve ‘condições iniciais’.

Aécio sugere uma conversa pessoal, mas já se antecipa e endossa: ‘Concordo há muito tempo já’.

Serra ainda pede a Aécio que tenha interlocução com Temer a respeito do tema. “É. Mas se você tiver oportunidade, sem mencionar o que eu te falei, porque eu tinha ficado de falar com ele. Podia mencionar isso para o presidente”.

COM A PALAVRA, JOSÉ SERRA

“Tenho numerosas conversas sobre política diariamente. Não me lembro dessa conversa rápida com o senador Aécio Neves. Em todo caso, conforme se verifica no diálogo transcrito, nada que não fosse republicano foi tratado. Pelo contrário, há até uma ressalva de que a sugestão se deu sob o ponto de vista exclusivamente político.”

COM A PALAVRA, AÉCIO NEVES

Nota da defesa do senador Aécio Neves

O diálogo mencionado não tem o teor que a representação faz parecer ter. A conversa, absolutamente republicana, entre dois senadores, não traz nenhum fato ou mesmo indício de qualquer tipo de iniciativa imprópria de ambas as partes. Analisar a atuação do governo e de ministérios, no caso, o da Justiça, é natural e inerente à atividade parlamentar.

Alberto Zacharias Toron

Advogado

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